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Archive for the ‘Braille’ Category

 Uma tarde no evento cultural com teatro 

As aulas da escola especial de apoio, a qual conheço, encerraram as atividades do ano de 2010 com o evento “Semana Cultural do Louis Braille” e no último dia, 18 de dezembro, foi a apresentação do teatro com a história de Louis Braille encenada pelos alunos. Os protagonistas da peça foram um rapaz cego de Angola que faz intercâmbio no Brasil e uma aluna adolescente com baixa visão. A história de Louis Braille era contada numa conversa informal entre os protagonistas atuando os dias de hoje, enquanto os outros alunos encenavam a conversa e representavam o cenário dos anos da vida de Louis Braille, assim, teve duas versões dele atuadas, de quando criança e adulto. Os alunos estavam vestidos com trajes tipicamente de cidadãos franceses, cheio de babados, e um deles, chegou a falar com sotaque francês. Ao final, todos cantaram ao som do violão tocado pelo rapaz protagonista que compôs a letra e a música. Foi muito divertido e a platéia gostou e aplaudiu muito. Depois da apresentação, foram mostrados para as pessoas da platéia, com deficiência visual, os cenários do teatro que foram bem elaborados, pois foram construídos alguns locais da casa e da escola que Braille conviveu, com detalhes, como a oficina com ferramentas feitas de madeira, janelas com cortinas e flores, máquina de escrever em Braille etc. Dentre as pessoas, estava presente a professora Utako de 80 anos, sorridente e simpática que foi uma das primeira professora da escola. O andar dela está um tanto delicado e ela usa uma bengala bem curtinha e leve, no entanto, a sua percepção está ótima, onde pôde observar o cenário do teatro e a exposição do evento, chegando a dar entrevista sobre a importância de aprender o Sistema Braille pelas pessoas cegas, juntamente com o professor Bill, que demonstrou a sua destreza na leitura de poemas escritos em Braille.  Também estavam presentes os familiares e amigos dos alunos, e  normalmente nestes encontros, cada aluno gosta muito de apresentar a professora que o assiste nas aulas de apoio para os seus pais, ficando um ambiente animado. * A realização do evento contou com a participação e dedicação de vários professores, funcionários e alunos, desde providenciar as lembrancinhas de natal, fazer os lanches e toda preparação da história, cenário, trajes, treino dos alunos e outros preparativos para apresentação do teatro. Como resultado, os alunos, os pais e amigos demonstraram satisfeitos e muitos deles deram a sugestão de repetir o evento no próximo ano. Enfim, a atividade terminou muito bem e encerro este post com as palavras da amiga B.Fish, da Alemanha, que comentou sobre a gravaçãodo pessoal cantando no teatro que eu a enviei : “listen to it, like a foto with lots of smiling faces sending warmth to the heart“. 

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Aula de Física para aluna cega

  A aula de Física para aluno com deficiência visual é semelhante  a aula de Química que postei anteriormente, porém, na maioria das vezes, as partes teóricas e os exercícios são ilustrados com figuras e tabelas, cujo material não se consegue o total entendimento se somente transcrito para o Braille. Conto um fato, como exemplo prático, que foi parte de uma aula de apoio de Física da TH, aluna cega, que cursa o 1º ano do Ensino Médio público e  tem aula de apoio na Escola Especial no contraturno da escola regular. TH têm 16 anos e perdeu a visão por complicações decorrentes do nascimento prematuro de 5 meses. Ela lê e escreve bem o Braille e utiliza um gravador pequeno para anotar a aula e depois é passado a limpo no seu caderno. Mas, antes de iniciar o assunto, quero decorrer na citação de Vigotski¹ acerca do aprendizado para refletir e direcionar o meu propósito neste espaço:

“A própria essência do desenvolvimento cultural consiste no choque das formas de condutas culturais desenvolvidas no meio social com as formas primitivas da própria criança.” (VIGOTSKI, L.S.)

   Parafraseando, Vigotski enfatiza o desenvolvimento psicológico, o qual é conquistado durante as realizações de experiências e participações em atividades compartilhadas com os demais dentro de uma determinada cultura que são internalizadas por meio do uso de mediações, por isso, no desenvolvimento do ser humano, a aprendizagem faz parte do processo das funções psicológicas superiores, onde envolvem-se a percepção, seguido de atenção, imaginação, pensamentos e memorização, que são funções que se desenvolvem as principais práticas escolares. Sendo assim, complementa-se que:

 “Quanto mais ricas são as experiências humanas, tanto maior será o material de que dispõe essa imaginação.” (VIGOTSKI, L.S.)

      A aula de apoio ao aluno com deficiência visual complementa ou auxilia a aula que ele freqüenta no ensino regular. Esta complementação abrange a transcrição do texto a tinta para o Braille ou vice-versa, auxílio nos exercícios, descrição das imagens e outros. 
     Na disciplina de Física do ensino médio, normalmente apresenta-se tabelas, figuras e quadros que têm necessidade de descrever ou planificar o conteúdo, de forma que possa anotar com uso da reglete para escrever em Braille. Isto é, para escrever com a reglete é preciso que as frases sejam escritas em uma direção reta, de linha a linha, pois cada letra é produzida na cela, não sendo concebível escrever livremente no papel como ocorre quando escrito com caneta. Logo, é interessante formar frases curtas, ordenadas e de fácil entendimento/localizável. Desta forma, sugiro transcrever as tabelas e quadros  em linhas ou eu, Lumiy, diria com certo “pensamento horizontal”.
     Neste contexto, comento um pouco da aluna TH que gosta muito de cantar e numa aula de apoio de Física ela chegou com a novidade que aprendeu uma música no ritmo bem animado e começou a cantar batucando na mesa: “1, 2 e 3 todo mundo debaixo do telhado, menos um e sobre o dois, e agora, 3, 2 e 1, todo mundo debaixo do telhado ….”, enquanto isso, fiquei observando as anotações da aula e os exercícios fotocopiada numa folha que ela trouxe para aula de apoio acerca de Cinemática.  Ao reparar na figura do triângulo e indicação dos ângulos, comecei a relacionar o motivo do professor de física passar a música, pois estava meio condizente com os valores de seno e cosseno dos ângulos usuais e sabe-se que a paródia é um recurso que ajuda o aluno memorizar. A TH nem imaginava, pois na letra da música não se falava do seno ou cosseno e nem dos ângulos de 30°, 45° e 60°, e provavelmente ela aprendeu a música na classe enquanto o professor indicava a tabela no quadro. Comecei a aula ditando a tabela para TH escrever em Braille de forma ordenada e ao terminar, mostrei que o “telhado” significa “raiz quadrada” e o “sobre o dois” quer dizer “dividido por 2”. Em seguida, ela leu a tabela e no instante que direcionei uma mão dela a ler a linha escrita “sen 30° = 1/2” e a outra mão a ler “cos 60°= 1/2”, estampou-se um sorriso no seu semblante, pois ela compreendeu e ficou empolgada para cantar acompanhando a sua tabela. Prosseguindo, revemos as fórmulas e os vetores de forças exercidas no movimento e a decomposição para resolver os exercícios da folha, onde o texto foi transcrito para o Braille e a figura descrita ou conforme demonstrada na foto abaixo, um improviso para reproduzir a imagem utilizando os materiais: EVA, palito de sorvete, papel, alfinete etc. Pode-se também reproduzir a figura com linhas traçadas no papel sobre o EVA para que apareça em relevo no verso.
Assim, normalmente para reproduzir uma figura pode-se resolver utilizando materiais simples, pois, posso afirmar que durante este ano, somente para a aula referente Energia Potencial/Elástica é que precisei levar uma mola e um elástico para explicar os efeitos e deformações dos materiais.
     Enfim, TH acompanhou bem as disciplinas,  foi promovida para o 2º ano e continua a cantar a paródia que é útil para a disciplina de matemática também.♥Lumiy♥
     Para concluir, verifico que a compreensão do aprendizado na sala de aula ou da experiência pessoal do aluno basea-se no diálogo e no processo de recriação e interpretação constante das informações, conceitos e significados.  Desta forma, a cultura envolve-se ao aluno os sistemas simbólicos de representação da realidade, o qual Vigotski ressalta que uma parte ativa de um processo intelectual, constantemente a serviço da comunicação, do entendimento e da solução dos problemas“.

**(¹) Encontrei o nome “Выготский“, escrito: “Vygotsky”, “Vigotsky”, “Vygotski ” e ”Vigotski”; padronizado para este texto “Vigotski”, conforme argumento do Prof. Achilles Delari Jr.

 

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 Apoio ao aluno com deficiência visual: aula de Química

          Ao pensarmos nas aulas de Química, logo relacionamos com laboratório e fórmulas nos estudos das estruturas atômicas, interações moleculares, funções inorgânicas, estequiometria e outros,  cujas anotações e experimentos são importantes para compreender a disciplina. Por isso, para o aluno com deficiência visual (DV) podemos elaborar a aula de Química, utilizando-se recursos alternativos, no caso para as anotações, recorrer ao Sistema Braille quanto aos sinais matemáticos e ao campo das ciências, além de algumas letras gregas(alfa,delta,..) nos materiais didáticos do MEC/SEESP, o”Código Matemático Unificado” (CMU) e a “Grafia Braille em Química”; e na parte de visualização, utilizar materiais como palito, canudo, bola de isopor, pedaço de madeira, barbante, alfinete, etc . Um dos materiais interessantes é o uso do papel sobre o EVA para desenhar com caneta ou com punção, e assim, formar traços ou pontos em alto relevo no avesso do papel, onde, possibilitam as reproduções do Diagrama de Linus Pauling, da escala de temperatura (Celsius x Kelvin x Fahrenheit) e outros. Existem também, materiais prontos como a tabela periódica impressa em Braille e  materiais em thermoform (plástico em alto relevo) como a estrutura do átomo. Contudo, uma atividade para formar estrutrura molecular interagindo os alunos, utilizando bolas de isopor de tamanhos diferentes e palitos, têm melhores resultados. 
Exemplo Química Braille
          É relevante para que o aluno com DV perceba ou tenha certa percepção de reconhecer a figura planificada, portanto, conta-se da importância que ele tenha frequentado as aulas de artes e AVD, ou tenha recebido orientação e treinamento para interpretar os materiais em alto relevo e as diferentes texturas colocadas no papel, logicamente sem detalhamentos. Também, acrescento as atividades de explorar os objetos quanto o tamanho, formato, encaixe, textura ou ainda, entrar em contato com a natureza (terra, pedra, areia, etc), plantas, animais, pois, mais tarde, auxiliam o aluno na compreensão das aulas de ciências e também de outras disciplinas.  
          O CMU foi elaborado para abranger as notações de matemática e ciências, porém há necessidade do material “Grafia Braille em Química” para notações mais avançada, como a estrutura molecular fechada (benzeno, naftaleno,…), tipos de ligações (simples, dupla, tripla), velocidade de reação, movimento dos elétrons, etc. O texto da “Grafia Braille em Química” foi transcrito para o contexto educacional brasileiro, mediante estudos dos símbolos do CMU, “Notações de Química” de Madeleine Seymour Loomis & Paul Cunningham Mitchell e propostas da Fundação Catarinense de Educação Especial, da Associação do Cegos e Amblíopes de Portugal – “Grafica Química Braille”  e da ONCE – “Fisica y Química”. 
          Ressalto que o Sistema Braille é uma ferramenta de apoio ao aluno com DV, sendo assim, as notações mais avançadas de química não são necessariamente de uso convencional de professores de apoio que fazem a transcrição. Para este caso, sugere-se que o aluno informe suas notações de tarefas/provas ao professor da disciplina. Existe ainda a opção de usar o meio digital ou gravação em áudio.
          Desta forma, a aula de Química, partindo-se do conceito interdisciplinar, permite criatividade, integração e participação da classe, tanto na teoria como na prática, além de associar-se às diferentes áreas. Conforme Paulo Freire (1982), “tanto quanto a educação, a investigação que a ela serve, tem de ser uma operação simpática, no sentido etimológico da expressão. Isto é, tem de constituir-se na comunicação, no sentir comum uma realidade que não pode ser vista mecanicistamente compartimentada, simplistamente bem “comportada”, mas, na complexidade de seu permanente via a ser”.  Através do uso de mediações diversificadas, emprega-se um aprendizado que promovem o convívio entre os alunos, contribuindo no desenvolvimento do indivíduo e na inclusão educacional.
 
 “Mais importante que saber é nunca perder a capacidade de sempre mais aprender. Mais do que poder necessitamos de sabedoria, pois só esta manterá o poder em seu caráter instrumental, fazendo-o meio de potencialização da vida e de salvaguarda do planeta” (BOFF, Leonardo. “Saber cuidar: ética humana – compaixão pela terra”. Ed.Petropolis, RJ: Vozes, 2008).
“Há momentos assim na vida: descobre-se inesperadamente que a perfeição existe, que é também ela uma pequena esfera que viaja no tempo, vazia, transparente, luminosa, e que às vezes (raras vezes) vem na nossa direcção, rodeia-nos por breves instantes e continua para outras paragens e outras gentes” (José Saramago). 

 

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