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Posts Tagged ‘atividade criança cega’

Motricidade e Conduta adaptativa dos objetos: situar, localizar e adquirir

Resumo elaborada pela Profª Drª. Sonia Hoffmann,  do Livro – Palmo a palmo: la motricidad fina y la conducta adaptativa a los objetos en los niños ciegos, escrito por Rosa Lucerga Revuelta.
           O homem pode realizar movimentos com os braços e as mãos em duas esferas:
            – Ao mover seus braços, ele alcança qualquer objeto que esteja dentro do raio de comprimento do seu braço;
            – Ao pegar algo com uma das mãos, ele pode executar com a outra mão uma atividade diferente por meio de preensões e manipulações.
            A mão, para a pessoa cega, assume um papel protagonista em seu desenvolvimento, pois é através da linguagem e da experimentação tátil (especialmente do tato manual) que alguém privado de visão obtém uma grande parte de informações do ambiente.
            O sentido da visão está encarregado, sobretudo nos dois primeiros anos de vida da criança, de integrar e sintetizar os dados e a informação recolhidas por outros canais perceptivos. Por carecer deste sentido, a criança cega poderá ter, de acordo com suas condições particulares, sérios riscos de estacionar ou estagnar em seu desenvolvimento ou, em casos mais graves, entrar em uma psicose irreversível.
            Para a autora do livro, Rosa Revuelta, a criança cega conta com a afetividade e a percepção tátil como dois recursos fundamentais para integrar os dados da sua experiência. O desenvolvimento da sua afetividade é fundamental para garantir o desenvolvimento normal do seu potencial cognitivo e, também, para a constituição de uma personalidade harmônica.
            Por meio dos seus recursos egóicos, o cego adulto dispõe, entre outras coisas, da linguagem, da capacidade de simbolização, do pensamento abstrato e de habilidades motoras. Porém, a criança cega antes de alcançar e poder dispor destes recursos necessita realizar um difícil caminho. É no período sensoriomotor que se torna imprescindível despertar na criança cega o desejo de conhecer e, logo, de tocar. Assim, ao longo de toda a vida, a pessoa cega encontrará na mão um recurso privilegiado de conhecimento, mas no período sensoriomotor a criança cega encontrará nela o instrumento para a compreensão da permanência dos objetos, a aquisição do uso funcional destes objetos, o descobrimento da forma e do calor do rosto materno, a compreensão de conceitos espaciais e a relação entre os objetos, além de integrar seu próprio esquema corporal.
            Nos dois primeiros anos de vida, a autora assinala que a criança passa de uma situação de indiferenciação com os objetos (tomados por ela como um prolongamento do seu corpo) para um reconhecimento e utilização dos mesmos como elementos claramente separados e realmente externos a ela. Neste período, ocorrem o desenvolvimento da preensão, a aquisição das habilidades manipulativas básicas e o conhecimento do uso adaptativo dos objetos, implicando um processo não isolado, mas em íntima interrelação e que somente adquirem sentido quando puderem ser integrados no desenvolvimento global de uma criança.
            A criança cega, privada do privilegiado recurso do canal perceptivo da visão, é obrigada a compreender o mundo externo e a interaturar com ele através de outras formas alternativas. Seu principal aliado, para isto, é o pensamento, o qual, para se tornar formal, precisa que ela viva muitas e variadas experiências.
           Este mundo experiencial é facilitado à criança cega, em grande parte, pela percepção tátil. Pelo tato e pelas mãos, ela compreende que existe algo “aí fora”, que o mundo exterior está povoado por objetos que podem ser tocados, nomeados e manipulados, possuindo forma e uso próprios; que ela pode brincar com eles e que, através das mãos, pode satisfazer muito dos seus desejos.
            Para que o tato e as mãos possam realmente servir de instrumentos de experimentação e conhecimento para a criança cega, duas adaptações importantes são necessárias: – a mão deve converter-se em um órgão primário de percepção, sem perder sua função executora; – a coordenação visomotora é substituída na criança cega pela coordenação bimanual e coordenação ouvido-mão.
            Evolutivamente, conforme a autora, o desenvolvimento da preensão é o primeiro processo que ocorre na criança.
            Fases da preensão em uma criança sem deficiência 1) localização visual; 2) aproximação da mão: varredura com o braço, aproximação parabólica, aproximação direta; 3) preensão propriamente dita: preensão cubito palmar, preensão radial palmar e oposição do polegar.
            Quanto à localização visual do objeto, os pais precisam aproximar os estímulos exteriores ao campo perceptivo tátil e cinestésico da criança cega, despertando nela a disposição para o toque. Há uma intervenção intencional dos adultos para uma movimentação ou sustentação, mesmo passiva, sem que esta seja uma intervenção invasora ou excessiva, pois é fundamental estimular sem saturar, ajudar sem invadir. Para uma criança sem deficiência, esta localização é feita pela cor, movimento e forma dos objetos, independente da proposta ativa do adulto.
            Para a aproximação da mão da criança cega em relação ao objeto, o adulto continua animando-a para o deslocamento ativo de sua mão desde o seu corpo até o local onde se encontra o objeto. Nesta fase, é necessária a noção do objeto permanente e o auxílio da percepção a distância pela utilização do canal auditivo.
            Quanto à preensão propriamente dita, sempre que a criança tenha um interesse no objeto e ele estiver em contato com a mão da criança cega, ela pode normalmente pegá-lo para sustentar ou voltar a soltar. Os três passos (cubitopalmar, radial palmar e oposição do polegar) ocorrem na criança cega de forma paralela como na criança com visão. Sempre que este objeto estiver ao seu alcance e for de seu interesse, ela o poderá pegar adequadamente, porém com uma tendência mais longa de colocá-lo na boca em lugar de usar suas mãos de forma mais funcional.
            A criança cega sustenta os objetos de forma espontânea, mas encontra dificuldade para utilizá-lo de forma criativa. Por isto, necessita, em alguns casos, da ajuda do adulto para descobrir como pode realizar atividades com estes objetos.
            Entre os 18 e 30 meses, surge a sustentação de objetos entre as pontas dos dedos e a pinça, intervindo a maturação visomotora. Assim, torna-se necessário ajudar a criança cega para realizar, inicialmente de modo passivo e depois somente com ordens verbais, a afrouxar a mão e não mais sustentar os objetos em sua palma. Isto é muito importante para conseguir uma boa coordenação bimanual e para a realização de habilidades manipulativas.
            Uma criança com visão utiliza na pinça dois de seus dedos (polegar e indicador), enquanto a criança cega utiliza dois dedos para segurar o objeto e um terceiro dedo para recolher informação sobre a posição do objeto e para direcionar o movimento (timão).
            A busca de objetos pela criança cega está diretamente relacionada à noção de permanência dos objetos, sendo esta uma condição indispensável para o reconhecimento da realidade exterior como algo diferente e separado dela, com existência própria e independente. Antes desta formação, ela não demonstra interesse para encontrá-los ou alcançá-los (menos de 8 meses). A criança cega não dispõe da possibilidade de comprovar visualmente a trajetória que algum objeto possa realizar em seu deslocamento e, assim, precisamos ajudá-la a compreender que existe uma realidade externa que permanece estando ou não presentes em seu campo perceptivo. Porém, isto somente é possível pela experimentação.
            Conseguida esta noção da permanência dos objetos, ela terá de aprender a orientar-se no espaço e usar estratégias para conseguir uma busca mais eficiente. A busca de objetos pela criança cega nos remete ao estudo da sua organização espacial.
            Para a estruturação da COORDENAÇÃO OUVIDO-MÃO da criança cega, é importante o desenvolvimento da sua percepção auditiva. Esta percepção a auxilia no entendimento e compreensão da existência de uma realidade externa separada dela, pois com este canal a criança cega percebe informações a distância. Durante o período sensoriomotor, a audição oferece mais informações sobre o atributo das coisas do que de seus aspetos substanciais. O surgimento desta substancialidade tarda a se realizar para a criança cega, a qual necessita motivação para esta descoberta.
            Passos fundamentais para a aquisição da Coordenação Ouvido-Mão:
            a. não há indícios ativos de conduta de busca ante o som;
            b. extensão da mão atrás de uma pista sonora em continuidade a uma pista tátil;
            c. extensão da mão, seguindo apenas pistas sonoras;
            d. pegar ou tomar um objeto sem a necessidade de pistas sonoras ou táteis, mas apenas respondendo a ordens verbais – o que implica a compreensão da linguagem.
            No que se refere à identificação e exploração de objetos, antes que a criança cega utilize suas mãos para a exploração deles, ocorre um período de recreação e prazer com a colocação destes objetos em sua boca, explorando-os oralmente (entre 14 e 16 meses). Neste período, ela prefere as pessoas porque os objetos são pouco atrativos para ela e, por isto, os utiliza de forma pouco diferenciada. Por volta de um ano, seus objetos de apego lhe são significativos e determinantes, demonstrando uma conduta adaptativa. Ela pode ainda usar os objetos de modo indiferenciado e, se isto se prolongar, surgem condutas estereotipadas, autoestimulatória e sem conteúdo que impedem o conhecimento real dos objetos.
            Nos primeiros meses, ela percebe fundamentalmente as sensações de calor, frio, dor, contato, pressão e sensações cinestésicas e proprioceptivas (formas simples da percepção tátil). Entre 12 e 16 meses, há uma mudança significativa na busca de objetos, pois ela começa a utilizar suas mãos de uma forma muito particular: a exploração cuidadosa dos objetos para sua identificação e dar a eles um uso funcional. É necessário que a criança já saiba levar suas mãos à linha média e tenha uma certa maturidade na coordenação bimanual para a utilização das formas complexas da percepção tátil para o conhecimento do objeto e de sua forma.
            A autora, Rosa Revuelta, apresenta como características da percepção tátil para a exploração e identificação de objetos as seguintes abordagens:
            – a mão em repouso não percebe ou, então, apenas percebe dados isolados como temperaturas, texturas ou arestas. A palpação deve ser ativa e se realizar com ambas as mãos. A mão não dominante sustenta o objeto a explorar e oferece referências fixas; a mão dominante é mais ativa, realizando movimentos mais amplos e oferece a integração dos dados, sintetizando a forma global do objeto.
            – os movimentos palpadores são de dois tipos: os leves (informam os detalhes ou as partes significativas de um objeto) e de movimentos amplos (são globalizantes ou de síntese).
            – os movimentos palpadores ficam em torno do dedo polegar, o qual oferece o ponto de referência para calibrar as dimensões do objeto, posicioná-lo no espaço e representar sua forma entre as dimensões.
            – a identificação de um objeto se faz pelo caráter analítico processual do tato, pois ele nos oferece informações parciais de aspectos da realidade que, posteriormente, devem ser integrados até poder construir uma visão de conjunto. Este processo analítico facilita informações sucessivas de diferentes aspectos e a pessoa vai formulando ou descartando sucessivamente suas hipóteses.
            – na exploração de objetos pequenos, os movimentos são assimétricos e quando a criança cega utiliza ambas as mãos, a mão não dominante se encarrega pela oferta de pontos de referência e a mão dominante executa uma inspeção mais ativa. Quando a exploração é realizada com uma única mão, o polegar assume o papel da mão não dominante e os demais dedos se encarregam da inspeção. – a exploração de objetos grandes se faz através de movimentos mais amplos e simétricos. A criança utiliza o eixo vertical de seu próprio corpo como referência.
            Se observarmos como uma criança cega se relaciona com os objetos, como os toca e o que faz com eles, podemos avaliar aspectos qualitativos de seu desenvolvimento. A forma como ela move suas mãos e a aquisição de habilidades manipulativas básicas informam sobre a aquisição de alguns recursos egóicos, que também resultam imprescindíveis em um bom desenvolvimento, nos dando indícios se a criança está a vontade neste mundo, com vontade de conhecê-lo e interagir com ele.
Características de uma manipulação adequada e útil:
            Na exploração adequada, a criança explora lenta e suavemente os objetos; as mãos estão distendidas, mas conservam o tônus muscular necessário para a sustentação do objeto, podendo o tocar. Estando interessada em conhecer o objeto, a criança cega emprega movimentos variados e pouco uniformes, girando o objeto, acariciando-o, fazendo-o soar. Detém seus dedos, por momentos, em algo que lhe chame a atenção; desloca seus dedos brandamente pelo objeto, imprimindo neles a pressão adequada para o perceber. Os dedos indicador, médio e polegar adquirem progressivamente maior importância: o dedo indicador da mão dominante parece adquirir vida própria e se comporta como investigador. A exploração nas crianças menores é muito incompleta e vai se organizando progressivamente, embora muitas delas sejam resistentes à sistematização.
            Quando algo lhe interessa, a criança cega se demora nesta exploração – isto, nem sempre, é respeitado pelos adultos.
            Características de uma exploração inútil ou vazia: A criança toca os objetos de forma ansiosa, rápida e precipitada, sem sinais de organização. Frequentemente, ocorrem alterações do tônus muscular, podendo não ter força ou, então, sustenta o objeto com rigidez e sem flexibilidade para manipulações.
            Acontecem movimentos estereotipados ou repetitivos quando a exploração não apresenta uma finalidade, podendo a criança demonstrar alterações de personalidade. Os vínculos afetivos e a comunicação com o exterior podem estar afetados com maior ou menor intensidade. Salienta-se que estes movimentos são considerados estereotipados quando não são evolutivos e quando se encontram fora do período de ocorrência.
            A exploração mecânica ou robótica é própria das crianças falsamente adaptadas. Ela aprende as condutas que lhe são ensinadas, mas as realiza sem um desejo próprio porque, provavelmente, estas condutas foram estabelecidas apenas por uma programação.
Causas de uma Exploração Inadequada pela criança cega:
            a. a criança vive uma situação de hipoestimulação (que pode ocorrer por longo tempo)ou não houve uma atenção a este aspecto;
            b. existe algum problema de origem orgânica;
            c. a uma perturbação geral do desenvolvimento, implicando uma alteração da personalidade, tanto dos aspectos cognitivos quanto dos afetivos.
            Relativamente à coordenação bimanual, a principal adaptação que a cegueira exige é a conversão da mão em um órgão primário de percepção, sem que ela perca sua função de execução. A mão é responsável pelo oferecimento de informações necessárias para localizar e explorar devidamente estes objetos.
            A coordenação bimanual é imprescindível para que estas funções (percepção e execução) ocorram de forma harmônica. Uma das dificuldades da criança cega é juntar suas mãos na linha média, a qual é ponto de partida para a coordenação bimanual (até 6 ou 8 meses). Depois do primeiro ano, ela enfrenta tarefas que solicitam maior precisão de execução. O desdobramento funcional de ambas as mãos já é importante para o êxito da execução.
            Com aproximadamente 18 meses, ela deverá poder, por exemplo, sustentar uma caixa com uma das mãos, localizar com esta mesma mão as bordas da caixa e com a outra mão dirigir a tampa para o lugar exato que a primeira mão está indicando. A mão não dominante fixa e guia, enquanto a dominante executa o movimento.
            Após ela definir a sua lateralidade ou dominância, aconselha-se não ficar trocando muitas vezes estes papéis. Aos poucos, esta dominância para a percepção e a execução vai passando para os dedos.
            A criança com coordenação visomotora realiza a pinça com dois dedos, enquanto a criança cega realiza esta pinça com três dedos. A coordenação visomotora é substituída pela coordenação bimanual, implicando habilidades motoras, controle tônico-muscular, independência funcional da mão e do braço, flexibilidade das articulações, independência segmentária e uma boa e relativa organização espacial.
 
(*) Grifo e dividido em tópico por Lumiy

 disponível: http://www.diversidadeemcena.net/

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Aula de Física para aluna cega

  A aula de Física para aluno com deficiência visual é semelhante  a aula de Química que postei anteriormente, porém, na maioria das vezes, as partes teóricas e os exercícios são ilustrados com figuras e tabelas, cujo material não se consegue o total entendimento se somente transcrito para o Braille. Conto um fato, como exemplo prático, que foi parte de uma aula de apoio de Física da TH, aluna cega, que cursa o 1º ano do Ensino Médio público e  tem aula de apoio na Escola Especial no contraturno da escola regular. TH têm 16 anos e perdeu a visão por complicações decorrentes do nascimento prematuro de 5 meses. Ela lê e escreve bem o Braille e utiliza um gravador pequeno para anotar a aula e depois é passado a limpo no seu caderno. Mas, antes de iniciar o assunto, quero decorrer na citação de Vigotski¹ acerca do aprendizado para refletir e direcionar o meu propósito neste espaço:

“A própria essência do desenvolvimento cultural consiste no choque das formas de condutas culturais desenvolvidas no meio social com as formas primitivas da própria criança.” (VIGOTSKI, L.S.)

   Parafraseando, Vigotski enfatiza o desenvolvimento psicológico, o qual é conquistado durante as realizações de experiências e participações em atividades compartilhadas com os demais dentro de uma determinada cultura que são internalizadas por meio do uso de mediações, por isso, no desenvolvimento do ser humano, a aprendizagem faz parte do processo das funções psicológicas superiores, onde envolvem-se a percepção, seguido de atenção, imaginação, pensamentos e memorização, que são funções que se desenvolvem as principais práticas escolares. Sendo assim, complementa-se que:

 “Quanto mais ricas são as experiências humanas, tanto maior será o material de que dispõe essa imaginação.” (VIGOTSKI, L.S.)

      A aula de apoio ao aluno com deficiência visual complementa ou auxilia a aula que ele freqüenta no ensino regular. Esta complementação abrange a transcrição do texto a tinta para o Braille ou vice-versa, auxílio nos exercícios, descrição das imagens e outros. 
     Na disciplina de Física do ensino médio, normalmente apresenta-se tabelas, figuras e quadros que têm necessidade de descrever ou planificar o conteúdo, de forma que possa anotar com uso da reglete para escrever em Braille. Isto é, para escrever com a reglete é preciso que as frases sejam escritas em uma direção reta, de linha a linha, pois cada letra é produzida na cela, não sendo concebível escrever livremente no papel como ocorre quando escrito com caneta. Logo, é interessante formar frases curtas, ordenadas e de fácil entendimento/localizável. Desta forma, sugiro transcrever as tabelas e quadros  em linhas ou eu, Lumiy, diria com certo “pensamento horizontal”.
     Neste contexto, comento um pouco da aluna TH que gosta muito de cantar e numa aula de apoio de Física ela chegou com a novidade que aprendeu uma música no ritmo bem animado e começou a cantar batucando na mesa: “1, 2 e 3 todo mundo debaixo do telhado, menos um e sobre o dois, e agora, 3, 2 e 1, todo mundo debaixo do telhado ….”, enquanto isso, fiquei observando as anotações da aula e os exercícios fotocopiada numa folha que ela trouxe para aula de apoio acerca de Cinemática.  Ao reparar na figura do triângulo e indicação dos ângulos, comecei a relacionar o motivo do professor de física passar a música, pois estava meio condizente com os valores de seno e cosseno dos ângulos usuais e sabe-se que a paródia é um recurso que ajuda o aluno memorizar. A TH nem imaginava, pois na letra da música não se falava do seno ou cosseno e nem dos ângulos de 30°, 45° e 60°, e provavelmente ela aprendeu a música na classe enquanto o professor indicava a tabela no quadro. Comecei a aula ditando a tabela para TH escrever em Braille de forma ordenada e ao terminar, mostrei que o “telhado” significa “raiz quadrada” e o “sobre o dois” quer dizer “dividido por 2”. Em seguida, ela leu a tabela e no instante que direcionei uma mão dela a ler a linha escrita “sen 30° = 1/2” e a outra mão a ler “cos 60°= 1/2”, estampou-se um sorriso no seu semblante, pois ela compreendeu e ficou empolgada para cantar acompanhando a sua tabela. Prosseguindo, revemos as fórmulas e os vetores de forças exercidas no movimento e a decomposição para resolver os exercícios da folha, onde o texto foi transcrito para o Braille e a figura descrita ou conforme demonstrada na foto abaixo, um improviso para reproduzir a imagem utilizando os materiais: EVA, palito de sorvete, papel, alfinete etc. Pode-se também reproduzir a figura com linhas traçadas no papel sobre o EVA para que apareça em relevo no verso.
Assim, normalmente para reproduzir uma figura pode-se resolver utilizando materiais simples, pois, posso afirmar que durante este ano, somente para a aula referente Energia Potencial/Elástica é que precisei levar uma mola e um elástico para explicar os efeitos e deformações dos materiais.
     Enfim, TH acompanhou bem as disciplinas,  foi promovida para o 2º ano e continua a cantar a paródia que é útil para a disciplina de matemática também.♥Lumiy♥
     Para concluir, verifico que a compreensão do aprendizado na sala de aula ou da experiência pessoal do aluno basea-se no diálogo e no processo de recriação e interpretação constante das informações, conceitos e significados.  Desta forma, a cultura envolve-se ao aluno os sistemas simbólicos de representação da realidade, o qual Vigotski ressalta que uma parte ativa de um processo intelectual, constantemente a serviço da comunicação, do entendimento e da solução dos problemas“.

**(¹) Encontrei o nome “Выготский“, escrito: “Vygotsky”, “Vigotsky”, “Vygotski ” e ”Vigotski”; padronizado para este texto “Vigotski”, conforme argumento do Prof. Achilles Delari Jr.

 

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 Apoio ao aluno com deficiência visual: aula de Química

          Ao pensarmos nas aulas de Química, logo relacionamos com laboratório e fórmulas nos estudos das estruturas atômicas, interações moleculares, funções inorgânicas, estequiometria e outros,  cujas anotações e experimentos são importantes para compreender a disciplina. Por isso, para o aluno com deficiência visual (DV) podemos elaborar a aula de Química, utilizando-se recursos alternativos, no caso para as anotações, recorrer ao Sistema Braille quanto aos sinais matemáticos e ao campo das ciências, além de algumas letras gregas(alfa,delta,..) nos materiais didáticos do MEC/SEESP, o”Código Matemático Unificado” (CMU) e a “Grafia Braille em Química”; e na parte de visualização, utilizar materiais como palito, canudo, bola de isopor, pedaço de madeira, barbante, alfinete, etc . Um dos materiais interessantes é o uso do papel sobre o EVA para desenhar com caneta ou com punção, e assim, formar traços ou pontos em alto relevo no avesso do papel, onde, possibilitam as reproduções do Diagrama de Linus Pauling, da escala de temperatura (Celsius x Kelvin x Fahrenheit) e outros. Existem também, materiais prontos como a tabela periódica impressa em Braille e  materiais em thermoform (plástico em alto relevo) como a estrutura do átomo. Contudo, uma atividade para formar estrutrura molecular interagindo os alunos, utilizando bolas de isopor de tamanhos diferentes e palitos, têm melhores resultados. 
Exemplo Química Braille
          É relevante para que o aluno com DV perceba ou tenha certa percepção de reconhecer a figura planificada, portanto, conta-se da importância que ele tenha frequentado as aulas de artes e AVD, ou tenha recebido orientação e treinamento para interpretar os materiais em alto relevo e as diferentes texturas colocadas no papel, logicamente sem detalhamentos. Também, acrescento as atividades de explorar os objetos quanto o tamanho, formato, encaixe, textura ou ainda, entrar em contato com a natureza (terra, pedra, areia, etc), plantas, animais, pois, mais tarde, auxiliam o aluno na compreensão das aulas de ciências e também de outras disciplinas.  
          O CMU foi elaborado para abranger as notações de matemática e ciências, porém há necessidade do material “Grafia Braille em Química” para notações mais avançada, como a estrutura molecular fechada (benzeno, naftaleno,…), tipos de ligações (simples, dupla, tripla), velocidade de reação, movimento dos elétrons, etc. O texto da “Grafia Braille em Química” foi transcrito para o contexto educacional brasileiro, mediante estudos dos símbolos do CMU, “Notações de Química” de Madeleine Seymour Loomis & Paul Cunningham Mitchell e propostas da Fundação Catarinense de Educação Especial, da Associação do Cegos e Amblíopes de Portugal – “Grafica Química Braille”  e da ONCE – “Fisica y Química”. 
          Ressalto que o Sistema Braille é uma ferramenta de apoio ao aluno com DV, sendo assim, as notações mais avançadas de química não são necessariamente de uso convencional de professores de apoio que fazem a transcrição. Para este caso, sugere-se que o aluno informe suas notações de tarefas/provas ao professor da disciplina. Existe ainda a opção de usar o meio digital ou gravação em áudio.
          Desta forma, a aula de Química, partindo-se do conceito interdisciplinar, permite criatividade, integração e participação da classe, tanto na teoria como na prática, além de associar-se às diferentes áreas. Conforme Paulo Freire (1982), “tanto quanto a educação, a investigação que a ela serve, tem de ser uma operação simpática, no sentido etimológico da expressão. Isto é, tem de constituir-se na comunicação, no sentir comum uma realidade que não pode ser vista mecanicistamente compartimentada, simplistamente bem “comportada”, mas, na complexidade de seu permanente via a ser”.  Através do uso de mediações diversificadas, emprega-se um aprendizado que promovem o convívio entre os alunos, contribuindo no desenvolvimento do indivíduo e na inclusão educacional.
 
 “Mais importante que saber é nunca perder a capacidade de sempre mais aprender. Mais do que poder necessitamos de sabedoria, pois só esta manterá o poder em seu caráter instrumental, fazendo-o meio de potencialização da vida e de salvaguarda do planeta” (BOFF, Leonardo. “Saber cuidar: ética humana – compaixão pela terra”. Ed.Petropolis, RJ: Vozes, 2008).
“Há momentos assim na vida: descobre-se inesperadamente que a perfeição existe, que é também ela uma pequena esfera que viaja no tempo, vazia, transparente, luminosa, e que às vezes (raras vezes) vem na nossa direcção, rodeia-nos por breves instantes e continua para outras paragens e outras gentes” (José Saramago). 

 

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Significado das cores pela expressão

 As cores fazem parte do nosso cotidiano para identificar, escolher, caracterizar os objetos como vestuários, utilitários, decorativos, …. até mesmo para uma simples flor. Segundo o dicionário (Michaelis), a cor é “impressão variável que a luz refletida pelos corpos produz no órgão da vista”, desta forma, a cor somente é perceptível aos olhos,  não sendo identificável através de outras percepções sensoriais (tátil, olfativa, acústica, gustativa) e está relacionada diretamente ao convívio social, por isso é importante que as pessoas com deficiência visual (DV) consigam interpretar o significado das cores como as expressões: o céu está azul,  o jogador recebeu cartão vermelho, o semáforo está vermelho, declarar com rosas vermelhas, etc. Existem ainda outras concepções relacionadas à cor como a matiz que é a intensidade da cor, o brilho que se refere à luminosidade e a saturação que corresponde à pureza espectral da luz; por isso, é extensa a abordagem do significado das cores para pessoas com DVs.    
Na aula de AVD/AVAS, é interessante colocar expressões como cor fria/quente; alguns “estudos de psicologia” das cores como o branco relacionada com paz, vermelho com amor, azul com serenidade, etc. Isto é concernente principalmente aos vestuários quanto a combinação das cores ou ao seu uso adequado no momento/atividade. É relevante dizer que a aula precisa ser condizente ao aluno, quanto a idade, atividade, lazer,  pois há certa necessidade de levantar o interesse dele. Coloco um fato que aconteceu, é de um adolescente cego desde o nascimento e que não queria assistir a aula porque segundo ele,  se não enxergava as cores então para nada o serveria. Este aluno gosta muito de futebol e é torcedor “roxo” do CAP, além de jogar bem bola (goalball). Não tive dúvida, comecei a aula falando dos torcedores do “furacão” que espalham vermelho e preto nas ruas no dia do jogo. Aos poucos, o aluno foi se aproximando, sentou e começou a participar da aula com ânimo, principalmente quando referia-se ao “rubro-negro”. Por isso, sugiro que as aulas sobre cores sejam colocadas após conhecer o aluno DV.
Uma outra referência de cor são os ícones de artistas, cantores, jogadores famosos, time, torcida organizada, etc,  que podem acompanhar, ou usar como modismo, ou se identificar como fã, ou participar de alguma atuação/movimento pela pessoa DV.    
Na aula, uma das atividades que peço para as crianças com DV é que façam pesquisas com os professores, entre alunos, pais, irmãos, tios, vizinhança, … de qual a cor preferida da pessoa, qual a cor do vestuário em uso, etc. Para o pessoal maior e de escolarização avançada, coloco expressões de degradê, malhado,mesclado, xadrez, reluzente, opaco, translúcido, representação do luxo, brilho, e outras configurações envolvendo percepção de luz.
Ao final, quero deixar uma observação de que às vezes é desconfortável apontar cores à pessoa com DV sem que aparente indelicadeza na conversa; nestes casos, ao encontrar com PcDV bem preparadas, fica a minha curiosidade na dedicação de quem é a pessoa, sejam pais ou professores,  que a instruiu e a encaminhou para integração e convívio social (Lumiy). 
Mais sugestões para atividade de cores: AVD/AVAS: Simbologia das cores.  
   

“Que significa descobrir o significado? Na linguagem devemos distinguir os aspectos semiótico e fásico; os liga a relação de unidade e não de identidade. A palavra não é simplesmente o substituto da coisa.” (VIGOTSKI, 1991)
 

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Um processo com sensibilidade e emoção, supera qualquer dificuldade …

 Muitas vezes é mais fácil dizer um “não” ou “é difícil” para desistir das ideias que surgem sem qualquer elaboração subjetiva. Mas, tem casos que os desafios são verdadeiras oportunidades para aprender na prática, aplicar seus conhecimentos e superar as dificuldades, principalmente, por coincidência, eu havia recebido uma mensagem construtiva, cheio de conceitos de um amigo e Prof. Paulo Ross durante a semana, referente a uma outra abordagem e que coloca em atenção para este acontecimento – nada é por acaso! Desta vez, abordarei este assunto aprofundando um pouco mais nos detalhes.   Sou voluntária de uma instituição e a amiga Fer, resolveu derrepente, na sexta-feira, 05 de junho, fazer um bolo de chocolate com sete crianças da 3ª e 4ª série do ensino fundamental que freqüentam aulas de apoios para alunos com deficiência visual. Eu vivo num ambiente de planejamento, programação, processos, aplicação de melhorias contínuas (JIT), e isso parecia inconcebível, pois estavamos sem receita, sem ingredientes, sem ferramentas adequadas (batedeira, assadeira, etc), o forno nunca havia sido testado, e ainda, a Fer afirma que o bolo dela sai errado e eu só sei fazer bolo de caixinha. Contudo, por que não?..! Lá estávamos, na pequena cozinha em nove pessoas, sendo quatro com cegueira (dvt), quatro com baixa visão (dvb) e eu. Providenciamos os ingredientes, bacia, copo, colher, etc; tudo no improviso precário. Pedi para as crianças lavarem as mãos e a turminha dvb ficou de um lado da mesa, a minha frente e os dvt formaram fila ao meu lado. Começamos com os ovos, cada dvt colocou as mãos deles nas minhas para observar os meus movimentos e depois todos repetiam sozinhos. Para cada etapa, cada um executava uma função de colocar um ingrediente ou de bater a massa com o garfo. A massa do bolo ficou bem batida, cada criança batia um pouco para cada ingrediente colocado e neste caso, no início, eu segurava a mão dele para mostrar a forma de movimentar o garfo, conforme o ingrediente e a outra mão segurando a bacia. Para cada etapa, todos colocaram o dedo na massa para verem a quantidade e a consistência, onde sairam muitos comentários da sensação, do gosto, do cheiro, e outros. Quando a massa ficou pronta, o forno estava aquecido e esta foi a única parte que as crianças não participaram, de colocar e retirar a assadeira do forno. Enquanto o bolo assava, todos participaram na limpeza, pois tinha farinha, leite, chocolate,… em tudo e em todos. Enfim, ficou pronto e diria que nesse dia, todos os anjos da face da Terra estavam convocados para realizar esta missão, pois o bolo cresceu uniforme e macio. Conclusão: estava gostoso, foi o primeiro bolo da turminha, o melhor de todos e faltou bolo!                   

 “Quanto ao caso de relacionamento com pessoas e objetos, nós devemos deixar as pessoas acessarem algumas das dificuldades para tocarem a emoção, de o superar e o realizar, pois o processo importa mais que o resultado. (…)  é preciso dar autonomia total, mesmo que isso cause queda, respingos,  falhas, imperfeições, pois disso são feitos os acertos!” (ROSS, Paulo R. “Partes das frases do e-mail para Lumiy”, junho/2009).

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