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Nihon Tenji: Sistema Braille em versão japonês

Neste post acrescento como curiosidade a história de expansão do Sistema Braille  no Japão e o desafio de elaborar na versão japonesa que tem mais de 100 letras no alfabeto básico. Também posto em resposta à Jaqueli T. e de colegas professores que apreciam as letras de pontos em relevo. 

            Existem diversas versões de codificação do Braille, seguindo normalmente para atender as particularidades da Língua de cada país, como é o caso do “Ç” na nossa Língua Portuguesa do Brasil ou letra com crase no Francês (È, Ù) e outros.
            A versão Braille em japonês, chamada de “Tenji”, foi idealizada por Kuraji Ishikawa. Ishikawa nasceu em 26 de Janeiro de 1859 na província de Shizuoka, cidade de Hamamatsu, Naka-ku, Shikatani-cho, Japão, e morreu com 86 anos em 23 de Dezembro de 1944 na Província de Gunma. A família dele vêm de descendente de samurai, assim Ishikawa recebeu a educação japonesa, aprendeu inglês, artilharia ocidental e artes marciais. Foi um excelente estudante e tornou-se professor na área de Linguística japonesa em 1875. Em 1886 o Prof. Shimpachi Konichi convidou Ishikawa para elaborar um novo método de ensino para alunos cegos. Para isso, havia necessidade de contato com alunos cegos e Ishikawa foi lecionar em Moain, que era a escola de educação especial para alunos com deficiência visual da Universidade de Tsukuda (Special Needs Education School for the Visually Impaired, University of Tsukuba). Naquela epoca existia outras formas de leitura das letras para pessoas cegas, porém muito complexa para aprender. Desde modo, Ishikawa pesquisou a elaboração da versão do Sistema Braille em japonês, sendo que o maior desafio estava na diferença entre a língua ocidental e japonesa. Em 1888 apresentou a primeira versão e em 1890 estabeleceu o método completo compreendendo o alfabeto japonês no formato kana (katakana). Assim, o dia 11 de Novembro de 1890 foi marcado o dia do “Nihon Tenji” – Braille japonês. No calendário do Japão, o dia 11 de Novembro é homenageado o dia de Tenji.

Tenji: Código Braille em Japonês ( Handbook of translation into Braille apud Matsuda&Isomura, 2010)

           A palavra Tenji (点字) significa em japonês letra em pontos. O Tenji básico, apresentado na Figura de  National Association of Information Service for Visually Impaired Persons (2002 apud Matsuda&Isomura, 2010), mostra o alfabeto codificado no tipo “kana”, que são mais de 100 letras, cujo símbolo em Tenji é identificado abaixo com a letra correspondente em “katakana”. As letras em kana são identificadas por sílaba, por som que emitimos. Assim, para representar o som “ma” existe uma letra, onde na letra ocidental utiliza-se duas letras o “m” e o “a”.

            Portanto, para letras de som simples, o Tenji na Figura segue o alfabeto japonês na estrutura da linha (a, i, u, e, o) e coluna (a, ka, sa, ta, na, ha, ma, ya, ra, wa, mm). Ou seja, a lógica segundo Lumiy, encontra-se nos pontos da cela 1, 2 e 4 que variam o som conforme a cela 3, 5 e 6. Explicando melhor, as letras “a, i, u, e, o” usam-se os pontos: a=1, i=1 e 2, u=1 e 4, e=1,2 e 4, o=2 e 4. Para codificar “ma, mi, mu, me, mo”, acrescenta-se os pontos 3, 5 e 6 nas codificações de “a, i, u, e, o”. Para codificar “na, ni, nu, ne, no”, acrescenta-se o ponto 3 nas codificações de “a, i, u, e, o”. Observem que existem diferenças culturais inclusive na sequência de pronunciar as vogais em Português que é diferente da Língua japonesa, assim como, o símbolo Braille em Português/letra ocidental é totalmente diferente do JaponêsExistem ainda, as letras em kana de som composto e ditongos que utilizam duas celas para representar o símbolo em Tenji. Além disso, existem outras codificações que representam alguns tipos de kanji, que são letras em japonês que tem significado de palavras (Okumura, 2013).
               Nos dias de hoje, com a globalização, utiliza-se também a codificação do Braille ocidental no Japão.

 O tema Braille abordo também no post “Ler e Escrever no Sistema Braille“. 

Reflexão: «Quando na alma desperta verdadeiramente o sentimento de que a língua não é simplesmente um meio de troca com vista ao acordo recíproco, mas que ela é um verdadeiro mundo que o espírito é obrigado a pôr entre si e os objetos pelo trabalho interno da sua força, então ela (a alma) está no bom caminho para se encontrar sempre mais nela (a saber, na língua como mundo) e a investir-se nela.»  WilheIm von Humboldt (1836 apud Martin Heidegger, “Língua de tradição e Língua técnica”,1995)

Referência:
Hamamatsu-Books. People: Ishikawa Kuraji. Disponível em: http://www.hamamatsu-books.jp/sp/category/detail/4c8db569d157c.html
Matsuda, Y; Isomura, T.Finger Braille Teaching System. In. Character Recognition. Minoru Mori (Ed.). InTech, 2010.
National Association of Information Service for Visually Impaired Persons. Handbook of translation into Braille. Tokyo, Japan: Daikatsuji, 2002.
Okumura, M.L.M. Nihon Tenji: Braille em versão japonesa. In.Lumiy´s blogs – Visão e Percepção: um olhar para o conhecimento. 2013.

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Percepção pelo Tato

     Estes últimos meses, estou revisando a literatura na área de ergonomia dos produtos para sustentar o estudo de tecnologias, inclusive a “assistiva” que tem o princípio de dar apoio às pessoas com alguma limitação para executar alguma tarefa. Dentre as leituras, encontrei sobre a percepção humana e a revista RBTV, em especial o artigo acerca de desenho em relêvo para pessoas com deficiência visual (DV) e as barreiras atitudinais, que por sua vez, lembrei do pósfacio do livro de teatro do prof. Jupiassu. Assim, divido com vocês, tópicos que concernem a importância do tato para a pessoa com deficiência visual firmar um conceito, ou formar uma concepção de imagem no seu interior, de forma mais próxima do real. Na sequência explano sobre a barreira atitudinal e percepção humana. Ao final, deixo o trecho do comentário da peça “Coroa de Tebas”, onde uma jovem cega foi integrante na encenação do teatro.
Conquanto, a boa proposta da educação inclusiva, insisto na necessidade de estimular as habilidades táteis desde a infância para crianças com cegueira congênita, ou seja, coloca-se o alerta de quão é importante a pessoa DV congênita começar a explorar os materiais diversificados desde educação infantil (madeira, plástico, metal, tecido, linha, água …). Não basta a educação básica ficar na teoria levando os conceitos somente pelas palavras faladas, ou anotadas em Braille ou por meio digital. É preciso ter práticas de contato físico nos materiais de física, química, matemática …, na natureza, na arte etc, por meio de tato, olfato, paladar, audição …., buscando a multidisciplinaridade que inicie na educação infantil, e estenda até a graduação.
Complemento com o argumento do prof. Francisco Lima faz no seu artigo que “reside no fato de os cegos congênitos totais não estarem acostumados com as convenções da linguagem pictórica, e não porque o sistema háptico seja incapaz de reconhecer desenhos em relevo”. A este fato, ao jovem que teve um aprendizado integrado com contato ao meio ambiente, poderá ter uma compreensão maior do mundo que está a sua volta e também, muitas das barreiras atitudinais estarão eliminadas.

O que são barreiras? No paradigma da inclusão encontram-se barreiras de discriminação, arquitetônicas, atitudinais e outras. Assim, coloco a abordagem da barreira atitudinal, por Francisco Lima, para pessoa com deficiência, onde é definido e distinguido taxonomicamente como:
1. Barreira Atitudinal de Baixa Expectativa: A barreira atitudinal de baixa expectativa é o juízo antecipado e sem fundamento (conhecimento ou experiência) de que a pessoa com deficiência é incapaz de fazer algo, de atingir uma meta etc;
2. Barreira Atitudinal de Inferiorização: A barreira atitudinal de inferiorização é uma atitude constituída por meio da comparação pejorativa que se faz do resultado das ações das pessoas com deficiência em relação a outros indivíduos sem deficiência, sob a justificativa de que o que foi alcançado pelos primeiros é inferior, exclusivamente em razão da deficiência;
3. Barreira Atitudinal de Menos Valia: A barreira atitudinal de menos valia consiste na avaliação depreciativa das potencialidades, ações e produções das pessoas com deficiência. Esta avaliação é incitada pela crença de que a pessoa com deficiência é incapaz ou que o que conseguiu alcançar, o que produziu tem menos valor do que efetivamente lhe é devido.

Quanto a percepção humana, de acordo com Cybis et al.,  é delimitada por um conjunto de estruturas e tratamentos cognitivos pelos quais organizam e dão significado às sensações produzidas por seu órgãos perceptivos a partir dos eventos que lhes estimulam, os quais podem ser classificados em 3 processos distintos:
1. Processos neurofisiológicos ou de detecção: têm por objetivo reagir à existência de um estímulo que gere uma sensação;
2. Processos perceptivos ou de discriminação: visam organizar e classificar as sensações, de forma que só é possível se houver detecção anterior ou exista classificação memorizada;
3. Processos cognitivos ou de interpretação: visam dar significado às informações. Esta função só é possível se existirem conhecimentos e se houver informação sobre as condições de contexto no qual a percepção é realizada.
Portanto, os processos perceptivos se especializam nos diferentes sistemas autônomos que formam a percepção humana, os quais envolvem os sistemas visual e auditivo, incluindo a percepção da fala.

Para reflexão, deixo aqui o trecho do livro do Prof. Jupiassu, referente uma peça de teatro, onde, no final do livro, encontra-se este comentário sobre a atriz cega, integrante da peça de teatro:
“Entre os objetos de cena, havia um arco e flecha (adereço do ator que representava o deus Apolo). Na ocasião da apresentação daquele objetos ao grupo, Joselita nos revelou jamais ter tocado em um arco e flecha, embora já tivesse ouvido falar dele. Sua expressão facial foi de total encantamento ao poder “vê-lo” com as mãos e de, pela primeira vez, tocá-lo, aprendendo como aquele instrumento poderia ser usado para atingir um alvo distante do atirador. […] Embora Joselita demonstrasse ser letrada em Braille, podendo ler e escrever fluentemente – o que sugeria uma competente intervenção pedagógica, ela revelava uma experiência sensorial muito limitada, desconhecendo objetos simples, encontrados no cotidiano.”

Nexte contexto, ao final, eu, Lumiy, deixo um ponto relevante para a Teoria de Conhecimento, cuja essência, verifica-se que a percepção humana é gerada pela experiência que passa por processo cognitivo para captar o conhecimento da experiência, que por sua vez, é complexo para expressar, pois é tácito e físico para o indivíduo, e subjetivo entre as pessoas. Ou seja, a zona proximal (Vigotski ¹) é alcançada diferentemente, conforme o indivíduo, mediação utilizada e o mediador (Okumura, M.L.M.). (Apronfundarei nos próximos posts acerca da Teoria de Conhecimento).

Referência:
JUPIASSU, Ricardo. “Coroa de Tebas”.Campinas, SP: Papirus,  2002.
LIMA, Francisco. “Breve revisão no campo de pesquisa sobre a capacidade de a pessoa com deficiência visual reconhecer desenhos hapticamente”. Revista Brasileira de Tradução Visual, Vol. 6, No 6 (2011). Disponível:http://www.rbtv.associadosdainclusao.com.br/index.php/principal/article/view/82
CYBIS, W.;BETIOL, A.; FAUST, R. “Fundamentos da Psicologia Cognitiva” -apêndice. In: Ergonomia e Usabilidade. SP:Novatec,2007.

(¹) – encontrado o nome do autor, “Выготский“, escrito: “Vygostsky”, “Vigotsky”, “Vygotski ” e ”Vigotski”; padronizado para este texto “Vigotski”, conforme argumento do Prof.Achilles Delari Jr.

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 Uma tarde no evento cultural com teatro 

As aulas da escola especial de apoio, a qual conheço, encerraram as atividades do ano de 2010 com o evento “Semana Cultural do Louis Braille” e no último dia, 18 de dezembro, foi a apresentação do teatro com a história de Louis Braille encenada pelos alunos. Os protagonistas da peça foram um rapaz cego de Angola que faz intercâmbio no Brasil e uma aluna adolescente com baixa visão. A história de Louis Braille era contada numa conversa informal entre os protagonistas atuando os dias de hoje, enquanto os outros alunos encenavam a conversa e representavam o cenário dos anos da vida de Louis Braille, assim, teve duas versões dele atuadas, de quando criança e adulto. Os alunos estavam vestidos com trajes tipicamente de cidadãos franceses, cheio de babados, e um deles, chegou a falar com sotaque francês. Ao final, todos cantaram ao som do violão tocado pelo rapaz protagonista que compôs a letra e a música. Foi muito divertido e a platéia gostou e aplaudiu muito. Depois da apresentação, foram mostrados para as pessoas da platéia, com deficiência visual, os cenários do teatro que foram bem elaborados, pois foram construídos alguns locais da casa e da escola que Braille conviveu, com detalhes, como a oficina com ferramentas feitas de madeira, janelas com cortinas e flores, máquina de escrever em Braille etc. Dentre as pessoas, estava presente a professora Utako de 80 anos, sorridente e simpática que foi uma das primeira professora da escola. O andar dela está um tanto delicado e ela usa uma bengala bem curtinha e leve, no entanto, a sua percepção está ótima, onde pôde observar o cenário do teatro e a exposição do evento, chegando a dar entrevista sobre a importância de aprender o Sistema Braille pelas pessoas cegas, juntamente com o professor Bill, que demonstrou a sua destreza na leitura de poemas escritos em Braille.  Também estavam presentes os familiares e amigos dos alunos, e  normalmente nestes encontros, cada aluno gosta muito de apresentar a professora que o assiste nas aulas de apoio para os seus pais, ficando um ambiente animado. * A realização do evento contou com a participação e dedicação de vários professores, funcionários e alunos, desde providenciar as lembrancinhas de natal, fazer os lanches e toda preparação da história, cenário, trajes, treino dos alunos e outros preparativos para apresentação do teatro. Como resultado, os alunos, os pais e amigos demonstraram satisfeitos e muitos deles deram a sugestão de repetir o evento no próximo ano. Enfim, a atividade terminou muito bem e encerro este post com as palavras da amiga B.Fish, da Alemanha, que comentou sobre a gravaçãodo pessoal cantando no teatro que eu a enviei : “listen to it, like a foto with lots of smiling faces sending warmth to the heart“. 

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Aula de Física para aluna cega

  A aula de Física para aluno com deficiência visual é semelhante  a aula de Química que postei anteriormente, porém, na maioria das vezes, as partes teóricas e os exercícios são ilustrados com figuras e tabelas, cujo material não se consegue o total entendimento se somente transcrito para o Braille. Conto um fato, como exemplo prático, que foi parte de uma aula de apoio de Física da TH, aluna cega, que cursa o 1º ano do Ensino Médio público e  tem aula de apoio na Escola Especial no contraturno da escola regular. TH têm 16 anos e perdeu a visão por complicações decorrentes do nascimento prematuro de 5 meses. Ela lê e escreve bem o Braille e utiliza um gravador pequeno para anotar a aula e depois é passado a limpo no seu caderno. Mas, antes de iniciar o assunto, quero decorrer na citação de Vigotski¹ acerca do aprendizado para refletir e direcionar o meu propósito neste espaço:

“A própria essência do desenvolvimento cultural consiste no choque das formas de condutas culturais desenvolvidas no meio social com as formas primitivas da própria criança.” (VIGOTSKI, L.S.)

   Parafraseando, Vigotski enfatiza o desenvolvimento psicológico, o qual é conquistado durante as realizações de experiências e participações em atividades compartilhadas com os demais dentro de uma determinada cultura que são internalizadas por meio do uso de mediações, por isso, no desenvolvimento do ser humano, a aprendizagem faz parte do processo das funções psicológicas superiores, onde envolvem-se a percepção, seguido de atenção, imaginação, pensamentos e memorização, que são funções que se desenvolvem as principais práticas escolares. Sendo assim, complementa-se que:

 “Quanto mais ricas são as experiências humanas, tanto maior será o material de que dispõe essa imaginação.” (VIGOTSKI, L.S.)

      A aula de apoio ao aluno com deficiência visual complementa ou auxilia a aula que ele freqüenta no ensino regular. Esta complementação abrange a transcrição do texto a tinta para o Braille ou vice-versa, auxílio nos exercícios, descrição das imagens e outros. 
     Na disciplina de Física do ensino médio, normalmente apresenta-se tabelas, figuras e quadros que têm necessidade de descrever ou planificar o conteúdo, de forma que possa anotar com uso da reglete para escrever em Braille. Isto é, para escrever com a reglete é preciso que as frases sejam escritas em uma direção reta, de linha a linha, pois cada letra é produzida na cela, não sendo concebível escrever livremente no papel como ocorre quando escrito com caneta. Logo, é interessante formar frases curtas, ordenadas e de fácil entendimento/localizável. Desta forma, sugiro transcrever as tabelas e quadros  em linhas ou eu, Lumiy, diria com certo “pensamento horizontal”.
     Neste contexto, comento um pouco da aluna TH que gosta muito de cantar e numa aula de apoio de Física ela chegou com a novidade que aprendeu uma música no ritmo bem animado e começou a cantar batucando na mesa: “1, 2 e 3 todo mundo debaixo do telhado, menos um e sobre o dois, e agora, 3, 2 e 1, todo mundo debaixo do telhado ….”, enquanto isso, fiquei observando as anotações da aula e os exercícios fotocopiada numa folha que ela trouxe para aula de apoio acerca de Cinemática.  Ao reparar na figura do triângulo e indicação dos ângulos, comecei a relacionar o motivo do professor de física passar a música, pois estava meio condizente com os valores de seno e cosseno dos ângulos usuais e sabe-se que a paródia é um recurso que ajuda o aluno memorizar. A TH nem imaginava, pois na letra da música não se falava do seno ou cosseno e nem dos ângulos de 30°, 45° e 60°, e provavelmente ela aprendeu a música na classe enquanto o professor indicava a tabela no quadro. Comecei a aula ditando a tabela para TH escrever em Braille de forma ordenada e ao terminar, mostrei que o “telhado” significa “raiz quadrada” e o “sobre o dois” quer dizer “dividido por 2”. Em seguida, ela leu a tabela e no instante que direcionei uma mão dela a ler a linha escrita “sen 30° = 1/2” e a outra mão a ler “cos 60°= 1/2”, estampou-se um sorriso no seu semblante, pois ela compreendeu e ficou empolgada para cantar acompanhando a sua tabela. Prosseguindo, revemos as fórmulas e os vetores de forças exercidas no movimento e a decomposição para resolver os exercícios da folha, onde o texto foi transcrito para o Braille e a figura descrita ou conforme demonstrada na foto abaixo, um improviso para reproduzir a imagem utilizando os materiais: EVA, palito de sorvete, papel, alfinete etc. Pode-se também reproduzir a figura com linhas traçadas no papel sobre o EVA para que apareça em relevo no verso.
Assim, normalmente para reproduzir uma figura pode-se resolver utilizando materiais simples, pois, posso afirmar que durante este ano, somente para a aula referente Energia Potencial/Elástica é que precisei levar uma mola e um elástico para explicar os efeitos e deformações dos materiais.
     Enfim, TH acompanhou bem as disciplinas,  foi promovida para o 2º ano e continua a cantar a paródia que é útil para a disciplina de matemática também.♥Lumiy♥
     Para concluir, verifico que a compreensão do aprendizado na sala de aula ou da experiência pessoal do aluno basea-se no diálogo e no processo de recriação e interpretação constante das informações, conceitos e significados.  Desta forma, a cultura envolve-se ao aluno os sistemas simbólicos de representação da realidade, o qual Vigotski ressalta que uma parte ativa de um processo intelectual, constantemente a serviço da comunicação, do entendimento e da solução dos problemas“.

**(¹) Encontrei o nome “Выготский“, escrito: “Vygotsky”, “Vigotsky”, “Vygotski ” e ”Vigotski”; padronizado para este texto “Vigotski”, conforme argumento do Prof. Achilles Delari Jr.

 

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Como interagir ou comportar diante da pessoa com deficiência visual?

Diante da pessoa com deficiência visual, podemos interagir ou prestar algum auxílio desde que ela conceda ou permita. Para isso, retirei fragmentos do artigo “Comportamento inclusivos diante de pessoas com deficiência” de Romeu Sassaki (2005), os quais, complemento com algumas sugestões ao interagir com a pessoa cega, pessoa com baixa visão e pessoa surdocega. ** Os complementos, na maioria, foram contribuições de amigos e colegas que enviaram como sugestões ou decorrente de alguma situação, e assim, os itens da lista foram gradativamente aumentando (Okumura, M.L.M.).

 1. Diante da Pessoa cega

a) Se andar com uma pessoa cega, deixe que ela segure o seu braço ou ombro. Não a empurre; pelo movimento de seu corpo, ela saberá o que fazer. É interessante estar um passo a frente dela, assim quando for subir ou descer a escada, ela perceberá e acompanhará o seu movimento. Ou, se encontrar uma possa de água ou um buraco no caminho e necessita de dar um passo maior, dê uma leve parada e em seguida o passo estendido. Se for necessário, comunique dos obstáculos que está a sua frente.

b) Em lugares estreitos para duas pessoas caminharem, conduza o seu braço levemente/naturalmente para trás de modo que a pessoa cega possa seguir, ficando atrás de você. Em caso de locais como teatro/auditório que têm assentos enfileirados,  mova levemente o seu corpo, e avise que andará de lado.

c) Se estiver com ela durante a refeição, pergunte-lhe se quer auxílio para cortar a carne, o frango ou para adoçar o café, e explique-lhe a posição dos alimentos no prato.

d) Num restaurante, é de boa educação que você leia o cardápio e os preços, se a pessoa cega assim o desejar.

e) Se for auxiliar a pessoa cega a atravessar a rua, pergunte-lhe antes se ela necessita de ajuda e, em caso positivo, atravesse-a em linha reta, senão ela poderá perder a orientação.

f) Se ela estiver sozinha, identifique-se sempre ao aproximar-se dela. Nunca empregue brincadeirinhas como: “Adivinha quem é?”.

g) Se for orientá-la a sentar-se, coloque a mão da pessoa cega sobre o braço ou encosto da cadeira, e ela será capaz de sentar-se facilmente.

h) Se observar aspectos inadequados quanto à aparência da pessoa cega (meias trocadas, roupas pelo avesso, zíper aberto, sujeira etc.), não tenha receio de avisá-la discretamente a respeito de sua roupa.

i) Se conviver com uma pessoa cega, nunca deixe uma porta entreaberta. As portas devem estar totalmente abertas ou completamente fechadas. Conserve os corredores livres de obstáculos. Avise-a se a mobília for mudada de lugar.

j) Se você trabalha, estuda ou está em contato social com uma pessoa cega, não a exclua nem minimize a participação dela em eventos ou reuniões. Deixe que a pessoa cega decida sobre tal participação. Trate-a com o mesmo respeito que você demonstra ao tratar uma pessoa que enxerga.

k) Se for orientá-la, dê direções do modo mais claro possível. Diga “direita”, “esquerda”,“acima”, “abaixo”, “para frente” ou “para trás”, de acordo com o caminho que ela necessite percorrer. Nunca use termos como “ali”, “lá”.

l) Indique as distâncias em metros. Por exemplo: “Uns 10 metros para frente”.

m) Se for a um lugar desconhecido,oriente a pessoa cega, diga-lhe, muito discretamente, onde as coisas estão distribuídas no ambiente, os degraus, meios-fios etc.

n) Se vocês estiverem numa festa, diga à pessoa cega quais as pessoas presentes e veja se ela encontra pessoas para conversar, de modo que se divirta tanto quanto você.

o) Se for apresentá-la a alguém, faça com que ela fique de frente para a pessoa a quem você está apresentando, impedindo que a pessoa cega estenda a mão, por exemplo, para o lado contrário em que se encontra a outra pessoa.

p) Se conversar com uma pessoa cega, fale sempre diretamente, e nunca por intermédio de seu companheiro. A pessoa cega pode ouvir tão bem ou melhor que você. Não evite as palavras “veja”, “olhe” e “cego”; use-as sem receio. As pessoas cegas também as usam.

q) Quando se afastar da pessoa cega, avise-a, para que ela não fique falando sozinha.

r) A pessoa cega não vive num mundo escuro e sombrio. Ela percebe os ambientes e adquire informações através do tato, da audição e do olfato. Ela pode ler e escrever por meio do braille ou digital (computador). Logo,  poderá manter em contato por meio de celular, e-mail, skype, msm, messenger etc. 

s) O computador também é um bom aliado, possibilitando à pessoa cega escrever e conferir os textos, ler jornais e revistas, via internet ou livro digitalizado, usando programas específicos (NVDA, DosVox, Virtual Vision, Jaws, por exemplo).

t) Com a bengala ou com o cão-guia, a pessoa cega pode caminhar com autonomia, identificando ou desviando-se de degraus, buracos, meio-fio, raízes de árvores, orelhão, postes, objetos protuberantes nos quais ela possa bater a cabeça etc. O cão-guia nunca deverá ser distraído do seu dever de guiar a pessoa cega.

u) Ao planejar eventos: procure não colocar vasos, cartazes etc  no meio do caminho, providencie material em braille e compreenda que nem todas as pessoas cegas tem habilidade de ler Braille, principalmente àqueles que perderam a visão na idade adulta e/ou idosos. 

2. Pessoa com baixa visão

a) Ao se tratar de pessoa com baixa visão, proceda quase das mesmas formas acima indicadas.

b) Ao planejar eventos, providencie material impresso com letras ampliadas e escuras. Procure não utilizar figuras cheia de detalhes pequenas e coloridas.

3. Pessoa surdocega

Em geral, a pessoa com surdocegueira está acompanhada de um guia-intérprete, que utiliza diversos recursos de comunicação como, por exemplo, a libras tátil (libras na palma das mãos) ou o tadoma (pessoa surdocega coloca a mão no rosto do guia-intérprete, com o polegar tocando suavemente o lábio inferior e os outros dedos pressionando levemente as  dobras vocais). Assim, pela vibração das dobras vocais, ela consegue entender o que a outra pessoa está falando. Há pessoas surdocegas que apenas não ouvem, mas falam; portanto, ela pode “ouvir” pelo tadoma e falar com a própria voz. Quando entrar numa conversa com uma pessoa surdocega, que utiliza o tadoma, deixe que ela faça o mesmo com você.

Um relato de ajuda ao casal de cegos que transforma em exercício: https://lumiy.wordpress.com/about/relatos/miau-musculacao-de-cego/

“Com o teu sorriso, o teu amor, o teu abraço, a tua vida. Com o teu carinho e o teu jeito especial de ser, me iluminas com uma luz que nem a mais brilhante estrela possui, porque me mostras e me ensinas o lado belo da vida. Não preciso ver-te, pois sinto a tua alma, capto coisas que não podem ser vistas, apenas sentidas. Não vejo a tua beleza exterior, que é efêmera, mas sinto a tua beleza interior, que é eterna …” (Poema escrito pela Isaura Gisele, estudante gaucha e cega, atribuído à escritora de livros acessíveis, Gisele Pecchio Dias, na Revista Educação).

“Em lugar de comunicar-se, o educador faz “comunicados” e depósitos que os educandos, meras incidências, recebem pacientemente, memorizam e repetem. Eis aí a concepção “bancária” da educação, em que a única margem de ação que se oferece aos educandos é de receberem os depósitos, guardá-los e arquivá-los. Margem para serem colecionadores ou fichadores das coisas que arquivam. No fundo, porém, os grandes arquivados são os homens, nesta (na melhor das hipóteses) equivocada concepção “bancária” da educação. Arquivados, porque, fora da busca, fora da práxis, os homens não podem ser. Educador e educandos se arquivam na medida em que, nesta distorcida visão da educação, não há criatividade, não há transformação, não há saber. Só existe saber na invenção, na reinvenção, na busca inquieta, impaciente, permanente, que os homens fazem no mundo, com o mundo e com os outros” (Paulo Freire). 

 

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 Apoio ao aluno com deficiência visual: aula de Química

          Ao pensarmos nas aulas de Química, logo relacionamos com laboratório e fórmulas nos estudos das estruturas atômicas, interações moleculares, funções inorgânicas, estequiometria e outros,  cujas anotações e experimentos são importantes para compreender a disciplina. Por isso, para o aluno com deficiência visual (DV) podemos elaborar a aula de Química, utilizando-se recursos alternativos, no caso para as anotações, recorrer ao Sistema Braille quanto aos sinais matemáticos e ao campo das ciências, além de algumas letras gregas(alfa,delta,..) nos materiais didáticos do MEC/SEESP, o”Código Matemático Unificado” (CMU) e a “Grafia Braille em Química”; e na parte de visualização, utilizar materiais como palito, canudo, bola de isopor, pedaço de madeira, barbante, alfinete, etc . Um dos materiais interessantes é o uso do papel sobre o EVA para desenhar com caneta ou com punção, e assim, formar traços ou pontos em alto relevo no avesso do papel, onde, possibilitam as reproduções do Diagrama de Linus Pauling, da escala de temperatura (Celsius x Kelvin x Fahrenheit) e outros. Existem também, materiais prontos como a tabela periódica impressa em Braille e  materiais em thermoform (plástico em alto relevo) como a estrutura do átomo. Contudo, uma atividade para formar estrutrura molecular interagindo os alunos, utilizando bolas de isopor de tamanhos diferentes e palitos, têm melhores resultados. 
Exemplo Química Braille
          É relevante para que o aluno com DV perceba ou tenha certa percepção de reconhecer a figura planificada, portanto, conta-se da importância que ele tenha frequentado as aulas de artes e AVD, ou tenha recebido orientação e treinamento para interpretar os materiais em alto relevo e as diferentes texturas colocadas no papel, logicamente sem detalhamentos. Também, acrescento as atividades de explorar os objetos quanto o tamanho, formato, encaixe, textura ou ainda, entrar em contato com a natureza (terra, pedra, areia, etc), plantas, animais, pois, mais tarde, auxiliam o aluno na compreensão das aulas de ciências e também de outras disciplinas.  
          O CMU foi elaborado para abranger as notações de matemática e ciências, porém há necessidade do material “Grafia Braille em Química” para notações mais avançada, como a estrutura molecular fechada (benzeno, naftaleno,…), tipos de ligações (simples, dupla, tripla), velocidade de reação, movimento dos elétrons, etc. O texto da “Grafia Braille em Química” foi transcrito para o contexto educacional brasileiro, mediante estudos dos símbolos do CMU, “Notações de Química” de Madeleine Seymour Loomis & Paul Cunningham Mitchell e propostas da Fundação Catarinense de Educação Especial, da Associação do Cegos e Amblíopes de Portugal – “Grafica Química Braille”  e da ONCE – “Fisica y Química”. 
          Ressalto que o Sistema Braille é uma ferramenta de apoio ao aluno com DV, sendo assim, as notações mais avançadas de química não são necessariamente de uso convencional de professores de apoio que fazem a transcrição. Para este caso, sugere-se que o aluno informe suas notações de tarefas/provas ao professor da disciplina. Existe ainda a opção de usar o meio digital ou gravação em áudio.
          Desta forma, a aula de Química, partindo-se do conceito interdisciplinar, permite criatividade, integração e participação da classe, tanto na teoria como na prática, além de associar-se às diferentes áreas. Conforme Paulo Freire (1982), “tanto quanto a educação, a investigação que a ela serve, tem de ser uma operação simpática, no sentido etimológico da expressão. Isto é, tem de constituir-se na comunicação, no sentir comum uma realidade que não pode ser vista mecanicistamente compartimentada, simplistamente bem “comportada”, mas, na complexidade de seu permanente via a ser”.  Através do uso de mediações diversificadas, emprega-se um aprendizado que promovem o convívio entre os alunos, contribuindo no desenvolvimento do indivíduo e na inclusão educacional.
 
 “Mais importante que saber é nunca perder a capacidade de sempre mais aprender. Mais do que poder necessitamos de sabedoria, pois só esta manterá o poder em seu caráter instrumental, fazendo-o meio de potencialização da vida e de salvaguarda do planeta” (BOFF, Leonardo. “Saber cuidar: ética humana – compaixão pela terra”. Ed.Petropolis, RJ: Vozes, 2008).
“Há momentos assim na vida: descobre-se inesperadamente que a perfeição existe, que é também ela uma pequena esfera que viaja no tempo, vazia, transparente, luminosa, e que às vezes (raras vezes) vem na nossa direcção, rodeia-nos por breves instantes e continua para outras paragens e outras gentes” (José Saramago). 

 

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Significado das cores pela expressão

 As cores fazem parte do nosso cotidiano para identificar, escolher, caracterizar os objetos como vestuários, utilitários, decorativos, …. até mesmo para uma simples flor. Segundo o dicionário (Michaelis), a cor é “impressão variável que a luz refletida pelos corpos produz no órgão da vista”, desta forma, a cor somente é perceptível aos olhos,  não sendo identificável através de outras percepções sensoriais (tátil, olfativa, acústica, gustativa) e está relacionada diretamente ao convívio social, por isso é importante que as pessoas com deficiência visual (DV) consigam interpretar o significado das cores como as expressões: o céu está azul,  o jogador recebeu cartão vermelho, o semáforo está vermelho, declarar com rosas vermelhas, etc. Existem ainda outras concepções relacionadas à cor como a matiz que é a intensidade da cor, o brilho que se refere à luminosidade e a saturação que corresponde à pureza espectral da luz; por isso, é extensa a abordagem do significado das cores para pessoas com DVs.    
Na aula de AVD/AVAS, é interessante colocar expressões como cor fria/quente; alguns “estudos de psicologia” das cores como o branco relacionada com paz, vermelho com amor, azul com serenidade, etc. Isto é concernente principalmente aos vestuários quanto a combinação das cores ou ao seu uso adequado no momento/atividade. É relevante dizer que a aula precisa ser condizente ao aluno, quanto a idade, atividade, lazer,  pois há certa necessidade de levantar o interesse dele. Coloco um fato que aconteceu, é de um adolescente cego desde o nascimento e que não queria assistir a aula porque segundo ele,  se não enxergava as cores então para nada o serveria. Este aluno gosta muito de futebol e é torcedor “roxo” do CAP, além de jogar bem bola (goalball). Não tive dúvida, comecei a aula falando dos torcedores do “furacão” que espalham vermelho e preto nas ruas no dia do jogo. Aos poucos, o aluno foi se aproximando, sentou e começou a participar da aula com ânimo, principalmente quando referia-se ao “rubro-negro”. Por isso, sugiro que as aulas sobre cores sejam colocadas após conhecer o aluno DV.
Uma outra referência de cor são os ícones de artistas, cantores, jogadores famosos, time, torcida organizada, etc,  que podem acompanhar, ou usar como modismo, ou se identificar como fã, ou participar de alguma atuação/movimento pela pessoa DV.    
Na aula, uma das atividades que peço para as crianças com DV é que façam pesquisas com os professores, entre alunos, pais, irmãos, tios, vizinhança, … de qual a cor preferida da pessoa, qual a cor do vestuário em uso, etc. Para o pessoal maior e de escolarização avançada, coloco expressões de degradê, malhado,mesclado, xadrez, reluzente, opaco, translúcido, representação do luxo, brilho, e outras configurações envolvendo percepção de luz.
Ao final, quero deixar uma observação de que às vezes é desconfortável apontar cores à pessoa com DV sem que aparente indelicadeza na conversa; nestes casos, ao encontrar com PcDV bem preparadas, fica a minha curiosidade na dedicação de quem é a pessoa, sejam pais ou professores,  que a instruiu e a encaminhou para integração e convívio social (Lumiy). 
Mais sugestões para atividade de cores: AVD/AVAS: Simbologia das cores.  
   

“Que significa descobrir o significado? Na linguagem devemos distinguir os aspectos semiótico e fásico; os liga a relação de unidade e não de identidade. A palavra não é simplesmente o substituto da coisa.” (VIGOTSKI, 1991)
 

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Sistema Braille: o aprendizado para leitura e escrita correta

Postei este texto escrito pelo Professor Eduardo Fernandes Paes, o qual coloca a importância de pessoas com deficiência visual (cegueira) de aprender e usar o Sistema Braille, mesmo com o avanço das tecnologias que oferecem facilidades nos meios de comunicações e informações.  

O BRAILLE COMO ALIADO INDISPENSÁVEL A UMA BOA ESCRITA

É notório que a língua portuguesa está se modificando com o passar dos anos, o que é natural. Ela é enriquecida diariamente ao receber influências linguísticas de todas as espécies. O que está acontecendo, no entanto, é o mau uso dela. Nota-se, em praticamente todas as áreas das atividades humanas, que, em nossos dias, escreve-se mal e fala-se
pior ainda. Indubitavelmente, uma das principais causas para que isto esteja ocorrendo é a falta da boa leitura.
Nesse sentido, em um país com apenas 3.000 bibliotecas públicas, em que existem 5.200 municípios, já se vê que não há uma política à altura da valorização desse gosto pela leitura de livros, jornais e revistas .
Só para se ter uma idéia de como esse incentivo à leitura poderia se dar de forma simples, mas eficiente, saibam que nos Estados Unidos, quando sai um livro que eles chamam de “paper back”, uma edição popular de um livro de sucesso, o próprio Governo americano compra de saída 100 mil exemplares para distribuir entre as bibliotecas
públicas e escolas. O governo dá o ponto de partida, estimula. Isso é uma coisa genial, indispensável e transformadora.
E por que devemos incentivar o gosto pela leitura? Principalmente porque, conhecendo melhor o seu idioma, o indivíduo será capaz de raciocinar, analisar e fazer uma reflexão mais aprofundada e apurada dos assuntos e fatos que envolverão a realidade que o cerca; e isso dependerá do domínio que ele terá da língua.
Desse modo, o aumento do vocabulário de uma pessoa é condição fundamental para que este processo se realize a contento, pois quem tem o domínio de uma situação linguística sabe como usar adequadamente um número razoável de palavras. O vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, tem 360 mil palavras, mas quando o indivíduo conhece 30 mil dessas 360 mil, é considerado um gênio. Em nosso dia a dia, usamos de 4 a 5 mil palavras, e olhe lá!
Gostaria de apresentar agora a opinião de alguns intelectuais respeitados sobre este assunto:

Quem não sabe falar bem não consegue justificar a sua própria existência. O decréscimo da língua portuguesa empobrece o País.” (Antônio Olinto, membro da Academia Brasileira de Letras)

A base da cultura é a própria língua. Quem não sabe falar não consegue ensaiar os outros passos. Se há o empobrecimento da língua, há o empobrecimento das ideias, e a sociedade brasileira está amadurecendo e
valorizando a Educação.
” (Tarcísio Padilha, secretário geral da ABL)

O Português deveria ser objeto de orgulho, de satisfação. Quem não conhece a própria língua não tem identidade, não tem patrimônio.” (Sérgio Corrêa da Costa, acadêmico, historiador e diplomata de carreira.)

Na verdade, tanto entre os deficientes visuais quanto entre os normovisuais, podemos observar este processo de empobrecimento linguístico que, espero, muito breve, seja revertido, na medida em que já estão em andamento, em muitas partes do Brasil, projetos de incentivo à leitura como o das bibliotecas ambulantes, que circulam principalmente por comunidades carentes; o de escritores que vão às escolas falar sobre suas obras e debater com os alunos; entre outros. Acredito ainda que, além dessas maravilhosas e bem-vindas iniciativas, cada um de nós, que
já adquiriu o gosto da boa leitura, pode dar a sua contribuição para que outras pessoas, mormente crianças e adolescentes, se interessem pelo livro e façam dele um companheiro constante de suas vidas.
O bom domínio da Língua Portuguesa é inegavelmente um fator decisivo para a abertura de novos horizontes nos mais diversificados campos e áreas do Conhecimento e do Saber, aplicado a inumeráveis atividades humanas. E, para isso, os cegos brasileiros já podem contar com vários instrumentos para este fim: computador, escaner, gravadores digitais, bibliotecas de livros gravados, digitalizados e em braille…
Ah, o velho amigo braille! Decerto nenhum cego que não possua qualquer problema com o tato de seus dedos poderá deixar de aprender e de sempre se utilizar deste fantástico sistema de leitura e escrita, em nome de mais independência em sua vida diária.
Revela-se, sem dúvida alguma, o Sistema Braille como o melhor processo pelo qual um cego poderá aperfeiçoar os três pontos gramaticais que, normalmente, apresentam mais dificuldades no uso diário do nosso idioma, a saber: a acentuação, a pontuação e a ortografia, principalmente este último, sobre o qual o professor e gramático Pasquale Cipro Neto faz as seguintes considerações:
A competência para grafar corretamente as palavras está diretamente ligada ao contato íntimo com essas mesmas palavras. Isso significa que a freqüência do uso é que acaba trazendo a memorização da grafia correta. Além disso, deve-se criar o hábito de esclarecer as dúvidas com as necessárias consultas ao dicionário. Trata-se de um processo constante, que produz resultados a longo prazo.
Dicionários e corretores ortográficos já estão à disposição dos cegos que estudam e trabalham com o auxílio de computadores; porém duvido muito que a maioria se utilize dessas ferramentas a todo instante para verificar se está correta a grafia de algumas palavras sobre as quais teve alguma dúvida quando, por exemplo, estiver digitando uma simples mensagem para um amigo ou para uma lista de discussão na internet.
A memorização da grafia correta das palavras se dá por duas fontes: pela visão ou pela sensibilidade do tato, no caso das pessoas cegas. Nenhum cego, por mais que leia os melhores autores brasileiros, ficará sabendo corretamente a grafia de determinadas palavras se somente realizar suas leituras através de livros gravados ou digitalizados.
Indiscutivelmente, tanto os livros gravados como os digitalizados, que se apresentam modernamente como meios de leitura preferidos por uma boa parte dos deficientes visuais, principalmente pelos mais jovens, dinamizam o acesso destas pessoas à informação, ao estudo e à cultura em geral.
Todavia, é também inquestionável a insistência que se deve manter em se incentivar o processo de aprendizado do Sistema Braille para que as pessoas cegas, entre várias razões que justificam este aprendizado,  não percam o contato com a forma correta de se escrever.

Paz e Sabedoria a todos!
Prof. Eduardo Fernandes Paes
( Bacharel e licenciado em Letras pela Universidade Gama Filho, RJ; com especializações em Metodologia do Ensino da Gramática Tradicional e na Didática de Ensino de pessoas com deficiência visual.)
Professor responsável pelo sítio “NOSSA LÍNGUA_NOSSA PÁTRIA” – um sítio a serviço da Língua Portuguesa, da Educação e da Literatura Brasileira.
www.nlnp.net            E-Mail: nlnp@nlnp.net


Mais informações sobre Sistema Braille – ler e escrever : https://lumiy.wordpress.com/estudos/sistema-braille/

** Grifo de Lumiy. Texto recebido p/e-mail do Forum Inclusão em 3/4/2010 – Marta Gil. Está disponível em http://www.diversidadeemcena. net

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 Dirigir o carro conduzida por pessoa com deficiência visual …

Ontem (03/12/09), fui numa reunião de amigos e por não conhecer o trajeto, o meu colega foi quem me conduziu para chegarmos ao local. Este colega perdeu totalmente a visão aos 3 anos de idade, hoje ele é professor em duas escolas públicas e desloca-se sozinho para todos os lugares.  O fato dele não enxergar com os olhos não o impediu na sua autonomia para mobilidade, pois ele consegue reconhecer rapidamente a sua localização e constitui um trajeto mental para deslocar-se de um ponto para outro. Neste contento, abordarei algumas situações de mobilidade das pessoas com deficiência visual (DV), inclusive daqueles com certa destreza que conseguem ser ótimos co-pilotos, isso sem aprofundar nos conceitos de tecnologias ou fundamentos da mobilidade; e, ao final, uma reflexão customizada através das palavras dos “gigantes”. Observo que nem todas as pessoas com DV têm percepção desenvolvida ou apurada, assim como pessoas que enxergam podem ficar perdidas principalmente nos locais desconhecidos.♥

                A mobilidade é importantíssima para a pessoa com DV, proporcionando a sua autonomia de deslocamento, onde é preciso ter a noção de espaço, a percepção de posicionamento (lado direito, esquerdo, atrás, lado, …), isto é lateralidade. No dicionário consta que “a lateralidade é a capacidade de controlar os dois lados do corpo juntos ou separadamente”.  Além disso, é preciso ter a noção do seu posicionamento e dos objetos que estão ao seu redor,  no caso, levar a mão na direção correta para pegar um copo que está na mesa. Normalmente, a pessoa com DV anda sem bengala e até mesmo corre nos locais em que está ambientado, o qual sente totalmente inteirado com as posições dos objetos e com as curvas do caminho. Da mesma forma, dentro do carro, alguns têm a percepção do caminho, conseguem, sem dificuldades, ter a noção de onde está e qual o trajeto que deve seguir para chegar ao seu destino sem enxergar as paisagens. Logicamente, ocorrem conversas alheias durante o tráfego e também são descritos alguns locais ou mencionada a rua em que se está passando.
               Para conseguir desenvolver a lateralidade e conjuntamente a mobilidade, o indivíduo necessita praticar e estimular as suas percepções. Estes são noções que as pessoas adquirem ou se adaptam a elas com treino, visitando o local, explorando os objetos, do corpo entrar em contato para conhecer e entender o significado das estruturas que estão ao seu redor,  isso sem esquecer do manuseio da bengala e contando com os outros sentidos: audição, olfato, tato, paladar, etc. Acrescento ainda, as práticas de esporte como futebol (golbol), judô, corrida e outros, que contribue para qualidade fisica e mental.
                Uma outra relevancia é a noção de perceber o movimento do guia. O guia é a pessoa vidente que auxilia a pessoa com DV, no caso de atravessar uma rua movimentada, sem sinalização. Conforme a estatura, a mão da pessoa com DV apóia no ombro ou segura perto do cotovelo do guia. Existem algumas pessoas com DV que apenas tocam com dois dedos no braço do guia, assim como, tem outros com a mão mais firme e pesada. O guia sempre precisa estar um passo à frente para que o indivíduo DV sinta o movimento do condutor, como quando for subir uma escada. Se entre eles estão acostumados, então o guia pode caminhar mais rápido porque a pessoa DV tem facilidade de acompanhá-lo, deixando muitas vezes a bengala em posição de guarda (não bate) ou simplesmente a recolhe.
                 Atualmente, através das regulamentações das leis e dos movimentos de conscientização, muitos locais estão disponíveis à acessibilidade. Aparecem nas ruas e nos estabelecimentos públicos o piso tátil de direção e de alerta, mapa tátil, placas com Sistema Braille, guias rebaixadas, etc. E mais, surgem ferramentas de tecnologia de informação e comunicação (TIC), que podem se relacionar à tecnologia assistiva para auxiliar na mobilidade, como o GPS.
                 Enfim, a mobilidade e a lateralidade são resultados das percepções do indivíduo, conforme ressalta Chopra, ” o corpo físico é uma abstração, um fluxo intermitente de sensações, percepções, memórias, idéias, uma projeção da consciência.” (DEEPAK CHOPRA)
##Postei a História da Bengala ->https://lumiy.wordpress.com/estudos/om-historia-da-bengala/–—
* Reflexão através das frases dos “gigantes” customizadas por Lumiy acerca de desenvolvimento do indivíduo, exteriorização, estimulação e inclusão social:
“O desenvolvimento do cérebro e dos sentidos a seu serviço, a crescente clareza de consciência, a capacidade de abstração e de discernimento cada vez maiores, reagiram por sua vez sobre o trabalho e a palavra, estimulando mais e mais o seu desenvolvimento” (ENGELS), isso, “influenciado por Marx, Vigotski concluiu que as origens das formas superiores de comportamento consciente deveriam ser achadas nas relações sociais que o indivíduo mantém com o mundo exterior” (LURIA). Ainda, conforme os testes de lateralização cerebral, existem a relação entre a lateralidade da fala e a preferência por uma das mãos (PINEL), este relacionamento mostra e remete a necessidade do estímulo e o contato ao mundo exterior para desenvolvimento do indivíduo. Então, “entre os seres humanos e o seu mundo físico coloca-se seu ambiente social, o qual refrata e transforma suas ações recíprocas com o mundo. […] crianças cegas não percebem originalmente sua cegueira como um fato psicológico. Ela é percebida apenas como um fato social, um resultado secundário e mediado de sua experiência social. […] as escolas especiais da época faziam pouco em termos dessa educação social. Influenciadas por idéias religiosas e filantrópicas, remanescentes de uma mentalidade burguesa originada no mundo ocidental, enfatizavam a situação infeliz das crianças e a necessidade de que elas carregassem sua cruz com resignação. Em contraste, Vigotski defendia uma escola que se abstivesse de isolar essas crianças e, em vez disso, integrasse-as tanto quanto possível na sociedade. As crianças deveriam receber a oportunidade de viver junto com pessoas normais” (VEER;VALSIENER), a qual, hoje esta luta nomea-se “inclusão”, onde antevir da oportunidade, agrega-se o valor de respeitar os limites e conhecer as diferenças pela sociedade, e juntamente apoiada pela Lei. (grifo de LUMIY,2009).
 (* encontrado o nome do autor escrito “Vygostsky”, “Vigotsky”, “Vygotski ” e “Vigotski”, padronizado para este texto “Vigotski”, conforme argumento do Prof.Achilles Delari Jr).

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Pessoas com deficiência visual: o usuário de celular e computador
Havia preparado durante a semana a aula de hoje (16/10/09) que seria referente a amizade e comportamento. Eu disse, “seria”, pois desde ontem recebi mensagens no celular, nos e-mails e no msn dos meus pequenos alunos que queriam uma atividade de raciocínio,  em outras palavras é brincar. Esses alunos são crianças que freqüentam a escola de apoio para pessoas com deficiência visual (DV) e também usuários potenciais de tecnologias, pois têm habilidades e agilidades para usar o celular e o microcomputador.
Com isso, neste texto explanarei algumas tecnologias relacionadas ao celular e microcomputador presentes no cotidiano dos DVs e uma das atividades realizada na aula com o tema “Ensinar o computador”, acerca de lógica e pensamento seqüencial.
Mary Radabaugh no “Study on the Financing of Assistive Technology Devices of Services for Individuals with Disabilities”(1993), menciona que a tecnologia facilita para as pessoas sem deficiência e torna possíveis para as pessoas com deficiência. A tecnologia possibilitou à PcD a realizar muitas tarefas e uma das áreas que proporcionou benefícios aos DVs foi a área de informação e comunicação (TIC). Antigamente, uns 20 anos atrás, os estudantes com DV usava-se fitas cassetes para gravar a aula ou alguém lia a apostila, além do uso do Braille para anotações. Atualmente, continua o uso do Braille e os recursos do microcomputador, scanner, celular, etc.
Para o uso do microcomputador existem softwares (programas) de ampliação de caracteres e alteração de cores  para pessoas com baixa visão e leitores de tela para as pessoas com DV total. Os programas leitores são NVDA, JAWS, VIRTUAL VISIO, ORCA, etc. Existem ainda, programa interativo com o usuário, no caso o DosVox desenvolvido pela Intervox (UFRJ) e programas para ebooks como Mecdaisy, Lida (FDN), Adobe Digital e outros. Normalmente encontro usuário de leitor de tela com o monitor desligado, usando o fone de ouvido e com a voz do leitor configurada na velocidade máxima. Este recurso favorece certa autonomia aos DVs no uso do microcomputador possibilitando editar e ler textos, enviar e receber e-mails, ler notícias, conversar no MSN, Messenger, Skype. Os leitores não lêem as imagens como foto,  desenhos e gráficos; e dependendo da tabela fica confusa a interpretação. Nem todos os sites da internet oferecem acessibilidade na navegação, contudo percebe-se certas mudanças para atender esse público especial.
Quanto ao celular, conforme os recursos do aparelho, memórias disponíveis e financeiros, pode-se instalar programas de falas, ampliação da imagem da tela, GPS, comunicação (Skype), leitor de tela, etc. Os serviços da operadora também são bem utilizados como de ver as horas e outros.
Tanto no micro ou no celular podem-se configurar a “fala” para que informe a tecla digitada, soletrar a palavra, ler pontuação, regular o volume, a velocidade e o tom da voz e mudar o autor da voz.
Por isso, a inclusão digital permitiu às pessoas com DV a estudar, trabalhar,… e principalmente estendeu o relacionamento entre as pessoas. No tocante, o usuário de micro consegue comunicar-se de diversas localidades num ambiente sem diferenças entre as pessoas. Para isso, existem várias instituições oferecendo cursos de informática para DVs  e em muitos casos são professores com DV que ministram a aula.  
As crianças, os meus pequenos, muitas vezes são eles que fazem as anotações no meu celular porque  segundo eles, demoro demais para adicionar contato novo.
Falando da turminha, uma das atividades da aula foi sobre pensamento seqüencial – lógica, com o tema “Ensinar o Computador”, um exercício para ordenar o pensamento relembrando os detalhes do dia a dia e como deve instruir uma informação. A princípio contei como o computador funciona e a importância do programador de se preocupar com o usuário. A atividade foi de um aluno ser o computador, o outro era o usuário do computador que perguntava e  executava a tarefa ou em chegar a algum lugar e os outros eram os consultores que  acompanhavam a execução e ao ocorrer erro de sequência pedia para o computador corrigir o seu programa. Fizemos várias tarefas como escovar os dentes, pegar um copo com água e chegar ao destino solicitado. No começo da atividade foi divertido, pois se esqueceram de abrir a tampa da pasta e o usuário passou o tubo da pasta fechado na escova,  enviaram o usuário em direção a porta fechada ou colocaram água no copo virado. Ao final, ficaram bons e a consultoria estava exigente e detalhista. A última sequência foi de traçarmos o trajeto para a lanchonete do shopping sem deslocarmos da sala, e nesta eu fiquei conhecendo os obstáculos do caminho como degraus e buracos que nunca havia reparado.(LUMIY,2009)

 ”… é justamente a Acessibilidade o eixo fundamental da equidade de direitos. Enquanto não tivermos contemplada a Acessibilidade, em todos os níveis, estaremos discriminando cidadãos que tem alguma diferença física ou sensorial. Uma sociedade justa se constrói com a igualdade, a liberdade, a justiça, a cidadania e as coisas básicas: moradia, alimentação, educação, saúde… E os desiguais devem ser tratados como desiguais, na justa medida dessa desigualdade.” (Marcio Aguiar, Conselheiro Titular da Conade – Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas Portadoras de Deficiência).

“Com certeza, de todos os sentidos com que somos aquinhoados ao nascer talvez o mais importante seja a visão, que nos permite aquilatar as benesses que nos cercam no mundo, a beleza da natureza que nos acolhe,  e distinguir os
rostos queridos de mãe, de pai, que nos enchem de afeto.   Todavia, o número de pessoas que ou por problemas congênitos, por doenças adquiridas ou por acidentes e desastres,  se vêem privadas de enxergar o mundo que as cerca é muito grande.   Felizmente, também, a tecnologia moderna tem progredido e equipado instrumentos importantes como computadores para enriquecer a vida de tantos irmãos privados da visão, lamentavelmente.” (Maria Amelia Vampré Xavier – Rede de Informações Área Deficiências Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo, Fenapaes, Brasília -Diretoria para Assuntos Internacionais),Rebrates, SP, Carpe Diem, SP, Sorri Brasil, SP, Inclusion InterAmericana e Inclusion International).

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Encontro com DV: uma aula de reencontro

Mais um dia feliz com a turminha especial e desta vez com algumas situações quanto a combinar um encontro, e também ao uso de gestos para saudar, pois são formas de comunicação que aprendemos desde criança vendo, observando e ouvindo outras pessoas fazerem, onde as falas e os movimentos são imitados, repetidos e incluindo o sentimento de contato amigável. É bem simples, mas como fazer que as mãos de duas pessoas DV se encontrem para dar o aperto de “como vai”, sem pairar por muito tempo no ar, ou ainda deixar de corresponder um com outro? Então, resolvi postar esta atividade, pois se desenvolveu tão bem, acrescentando curiosidades quanto ao comportamento social tanto para turminha como para todos que participaram. Neste texto, acrescentei um pouco de nossa convivência para demonstrar a importância do relacionamento e diálogo para integrar uma atividade. 

Há mais de 50 dias sem nos ver, primeiro, as férias escolares de inverno e seguidas de recessão devido à gripe H1N1, hoje (21/08/09) reencontrei com os pequenos da escola especial para pessoas com deficiência visual. Fizemos uma atividade diferente, pois estavam conosco dois professores, o Bill da escola e a Jana do IPC, eles são DV totais; e nem sempre temos a oportunidade desta companhia. O tema trabalhado foi “Encontrar e saudar” e com objetivo de abordar em como marcar um encontro entre pessoas com deficiência visual e também quanto aos tipos e formas de cumprimentar. A motivação que levou a este contexto foi a observação de vários desencontros por falta de combinar melhor para um encontro, pois mesmo para as pessoas que enxergam com os olhos, se não for bem definido, poderá levar horas para encontrar, principalmente quando o local marcado é amplo. Dando a continuidade do encontro, completamos com saudações nos aspectos do uso de gestos e significados culturais.

Antes de começarmos a atividade, normalmente conversamos sobre as novidades da semana e desta vez falamos da gripe quanto aos cuidados, da pneumonia, da vacina, das aves, dos suínos, dos cavalos e tudo mais relacionado ao assunto. É interessante o fato das crianças colocarem as dúvidas, ainda que os professores já tenham explanado durante a semana na escola; isso mostra certa preocupação sobre a gripe, onde eles ouviram as informações por vários canais e queriam esclarecimento, como a pergunta sobre a diferença entre medicamento e vacina ou ainda se H1N1 é gripe ou pneumonia? Vejam que são perguntas boas e a faixa de idade deles é entre 11 a 16 anos.

Para a atividade de marcar um encontro, colocamos um caso com todos os problemas possíveis: um encontro com mais de 30 pessoas no rodízio de pizza que fica em Santa Felicidade, lembrando que a estação de ônibus do local é um dos maiores terminais da Capital e a pizzaria fica a três quadras da estação com avenidas de alto tráfego. Perguntamos quando, como, onde, etc. Abrimos um tipo de fórum para cada participante dar uma sugestão para cada questão, era argumentando ou contra argumentado e fechávamos com a melhor opção pelos professores que acrescentavam suas experiências. Como resultado desta atividade, coloco as principais soluções: anotar as informações do encontro para não esquecer e comunicar aos pais, marcar um ponto específico conhecido pela maioria, localizar um funcionário do terminal para conduzir ao local do encontro, reservar as mesas na pizzaria, etc.

Foram apresentados, de acordo com os costumes de vários países, diferentes tipos de gestos para cumprimentar, o uso no esporte, quando e como usamos e a prática de alguns. Para o caso das mãos de duas pessoas DVs encontrarem, a melhor solução foi de informar a ação ou esticar a mão lentamente estalando os dedos e seguindo em direção ao som dos estalos do outro ou um só estala os dedos para que outra pessoa localize a mão. Quanto à expressão no rosto, foi unânime a escolha do sorriso.

Assim foi o dia e até dar o horário prosseguimos com “Imaginação”, uma brincadeira para entender áudio-descrição, e esta brincadeira deixarei para os próximos posts.

Deixo uma observação para acontecer esse tipo de atividade de forma divertida e todos participando, é muito importante já ter as soluções e argumentos, pois as crianças, pelo menos esta turminha, são espertas – só não enxergam com os olhos. É interessante também, preparar esta atividade em várias versões, com perguntas conforme a idade do pessoal que participa. (Lumiy,2009) Mais informações na página de Estudos/AVAS:Postura e Gesticulação.

 

“A maior dependência do mundo externo é vista por uma constante necessidade de reafirmação e da dificuldade do cego em manter sua auto-estima quando não sente resposta afirmativa do ambiente.(…) o desejo de independência leva-os a não pedir ajuda, mas a tentativa de fazer sozinho demanda um tempo muito maior de realização.” (Amiralian,1997)

 

 

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“A condição humana é, em si, uma condição de deficiência. Mas essa condição também carrega em si um poder de superação das limitações. Então a gente tem que confiar nesse potencial humano que todos nós temos…”

Deficiente visual é pioneiro em cargo da magistratura Ricardo Tadeu Marques da Fonseca foi nomeado na última semana pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, para o cargo de desembargador do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 9.ª Região Curitiba-PR  (Redação: Allan Costa Pinto)

Primeiro e até agora único deficiente visual a alcançar um cargo da magistratura, o ex-procurador do Trabalho Ricardo Tadeu Marques da Fonseca abriu as portas de seu gabinete para uma conversa com O Estado. Fonseca, que já teve o sonho de entrar na carreira adiado por uma banca de concurso em São Paulo – a qual justificou que ele não poderia ser juiz por ser cego -, foi nomeado na última semana pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, para o cargo de desembargador do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 9.ª Região. Entre outos assuntos, o desembargador relata suas expectativas em sua nova função. Casado e pai de duas filhas, ele, que teve uma atuação destacada como membro do Ministério Público, também fala sobre como o seu poder de superação e o apoio de familiares e amigos foram fundamentais para sua ascensão profissional.

O Estado – Como o senhor ficou cego?
Ricardo Fonseca – Perdi a visão por causa do agravamento de uma doença originária do nascimento prematuro. Nasci aos seis meses de gestação e aos 23 anos acabei perdendo totalmente a visão por causa de um agravamento chamado retinopatia da prematuridade.

OE – De que forma o fato de ainda jovem ter ficado cego mudou sua vida?
RF – Aprendi que todos nós somos dependentes reciprocamente uns dos outros. Os meus colegas me ajudaram muito na faculdade. A minha mulher, que na época era minha namorada, deu um apoio emocional que foi fundamental, assim como a minha família. Ou seja, eu fui amparado devidamente por um grupo social que ia desde os meus colegas até a minha esposa.

OE – Ter perdido a visão seria mais uma barreira ou um fato motivacional para o sucesso da sua carreira profissional?
RF – As duas coisas. Ao mesmo tempo em que foi um obstáculo, que me assustou, me motivou a lutar. Primeiro, eu passei a levar mais a sério a escola e a vida. Foi tanto um obstáculo quanto uma alavanca.
OE – Qual é sua expectativa para sua nova função?
RF – O direito do trabalho em geral sempre me atraiu muito. Estou muito feliz agora por ser um juiz. Porque eu já fui advogado, já fui do Ministério Público e agora ocupo a magistratura. Então eu já ocupei todas as posições que alguém pode ocupar na Justiça do Trabalho e isso me orgulha muito.

OE – Como o senhor foi recebido pelos seus novos assessores e pelo TRT9?
RF – Eu agradeço ao Tribunal Regional do Trabalho da 9.ª Região, que sempre foi uma corte de vanguarda no Brasil, séria e respeitada pelos seus entendimentos. A indicação pelo tribunal ao presidente Lula muito me honrou. O fato de eu estar aqui hoje é motivo de orgulho e de felicidade.

OE – Atualmente, quais são os assuntos mais comuns que passam pelo seu gabinete? Há algum assunto que mais lhe preocupa?
RF – Eu sou muito novo aqui ainda. Estou chegando agora e não posso dizer quais são as matérias mais incidentes. É a primeira semana de trabalho. Estou tomando pé das coisas administrativamente ainda e não dá para afirmar nada sobre isso.

OE – O senhor publicou recentemente um artigo sobre assédio moral, assunto que há algum tempo não era muito difundido, tanto para trabalhadores como para as empresas. Ainda falta uma orientação para a população sobre o assunto?
RF – Sim, falta. O assédio moral é uma figura que foi discutida nos anos 90 pela primeira vez por uma psicóloga francesa chamada Marie France Hirigoyen, que contextualizou o desvio que é o assédio moral. É claro que o empregador exerce sobre o empregado um poder, legitimamente reconhecido pela lei. Trata-se de um poder diretivo das atividades profissionais desse trabalhador. Mas muitos confundem esse poder diretivo com um poder pessoal e acabam afetando a autoestima, a dignidade e a autoimagem do trabalhador com palavras agressivas, com gestos ofensivos ou com métodos que acabam expondo as pessoas que não têm um desempenho esperado. Isso, desde 1988, passou a ser defendido no Brasil porque o direito se volta à defesa da personalidade, desde então. E a personalidade, a dignidade e a autoconfiança do trabalhador não podem ser abaladas pelo poder diretivo do empregador. Quando esse exercício se desvirtua e agride o trabalhador, isso se caracteriza como assédio moral.

OE – O Poder Judiciário tem se envolvido na resolução dos problemas trabalhistas que dizem respeito a pessoas portadoras de necessidades especiais?
RF – Nós temos no Brasil uma ação afirmativa bastante rigorosa da lei que determina que empresas com mais de cem empregados contratem pessoas com deficiências em percentuais que variam de 2% a 5%, dependendo do número de trabalhadores da empresa. E também a Constituição determina que a administração pública reserve vagas nos concursos públicos para essas pessoas. No entanto, embora essas leis sejam bastante antigas, o Brasil ainda está um pouco longe de atingir todo o público alvo, ou a população com deficiência que seria economicamente ativa. Mesmo assim, houve grandes avanços. Segundo as últimas estatísticas do Ministério do Trabalho, nós já temos 348 mil pessoas com deficiência empregadas na esfera privada. No setor público esse número também vem crescendo progressivamente.

OE – O que ainda precisa ser melhorado nesse sentido?
RF – Eu acho que é uma questão cultural. As pessoas precisam aprender a ver na diversidade humana uma riqueza, não uma falta de força. As pessoas com deficiência têm eficiências que podem ser descobertas, desde que se propicie o método e o instrumento adequados para isso. É uma questão cultural. No Brasil as pessoas com deficiência são isoladas em guetos institucionais e isso precisa ser mudado.

OE – Isso seria uma questão de preconceito?
RF – Não acho que é uma questão de desconhecimento social. É cultural.

OE – Quais as dificuldades que o senhor, como deficiente visual, encontrou durante a sua ascensão profissional?
RF – Todas. Era muito difícil trabalhar em empresas, apesar de o meu currículo ser diferenciado. Era muito comum eu ser convocado pelo currículo e, na hora da entrevista, era barrado pela falta de visão. Isso aconteceu em concursos públicos. Mas, de qualquer forma, eu continuei lutando. Eu sinto que a geração mais nova de pessoas com deficiência visual, hoje, tem muito mais independência do que eu tinha, porque estão mais afeitas a lidar com programas de voz, com os quais eu mesmo ainda não aprendi a lidar. Vou aprender agora, no tribunal.

OE – Como é a sua rotina de trabalho? Como o senhor delibera o trâmite dos processos?
RF – Normalmente os meus assessores leem para mim o que está nos autos e eu decido a partir dessa avaliação oral. Eu vou ter uma pessoa designada exclusivamente para ser o meu leitor. E, paralelamente, eu estou treinando a utilização de programas de sintetização de voz em computadores porque há uma tendência de os processos serem todos digitalizados nos próximos dois ou três anos. Então eu penso que, com um pouco de prática, terei mais autonomia também.

OE – Qual é a mensagem que o senhor deixa para as pessoas que têm a mesma limitação que a sua, ou outras necessidades?
RF – A condição humana é, em si, uma condição de deficiência. Mas essa condição também carrega em si um poder de superação das limitações. Então a gente tem que confiar nesse potencial humano que todos nós temos.

 

Fonte: Redação: Allan Costa Pinto. Disponível: ParanáOnLine. http://www.paranaonline.com.br/editoria/cidades/news/390749/?noticia=DEFICIENTE+VISUAL+E+PIONEIRO+EM+CARGO+DA+MAGISTRATURA
 

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Um objetivo, novas habilidades, novas conquistas.

Uma linda história, contada por Fernando José (Portugal), repassada pela professora Marta na lista do Fórum Inclusão e não poderia deixar de postar aqui. É uma conquista que se passa de forma tão natural; e, esse é o ponto de saber conduzir de forma simples, apresentando as possibilidades para adquirir novas habilidades sem desviar/mudar do objetivo.

 ”(…)  uma história que nos anima a continuar na luta, a despeito de tantas dificuldades.” (GIL,M.A.,Comentário e repasse da história na lista do fórum inclusão,2009)

 “Olá! Chegou também a minha vez de ser jornalista e contar uma história de que tomei conhecimento. A coisa começou assim. Estando uma manhã na Escola, recebi um telefonema de um senhor que me pedia uma entrevista. Motivo? O seu filho cegara repentinamente, fruto de uma  indisposição súbita que lhe provocou uma queda. A coisa dera-se em maio.  Depois de curar as outras lesões sofridas no rosto, segundo me informava, estava na hora de tomar as medidas certas. Acordámos o dia da entrevista. Ficou combinada para casa do jovem. Falámos e  decidimos tomar medidas. Soubemos que estudava no 12º Ano. Frequentava um curso na Área da Economia. O problema era como prosseguir os estudos. Como eu ia armado de umas ferramentas para estas situações, o trabalho começou logo. O computador lá de casa deu em falar! – Pasme-se! Por outro lado, marcou-se uma segunda reunião, agora a realizar na Escola, com o objectivo de se prosseguir com os estudos sem perda de ano, pois já bastara não ter podido realizar os exames nacionais no que agora findava. Foram decididas rapidamente medidas com o fim de preparar o próximo ano lectivo. Começaria a aprender Braille numa instituição ao lado da Escola. A Informática receberia um reforço enorme, utilizando-se um leitor de ecrã. Com autorização das autoridades responsáveis, criou-se uma turma com o seu nome, porque a Escola, que é de referência para a deficiência visual, não tinha a Área de Economia. O objectivo de tudo isto seria que a vida escolar do aluno não viesse a sofrer mais sobressaltos e ele passasse gradualmente para a vida de estudante cego, já que abandonara a vida de normovisual tão fatal e repentinamente. O programa foi elaborado, a Escola, o Ministério, a Família e a instituição que fica logo ali ao lado articularam, complementaram, flexibilizaram objectivos, medidas, actividades e resultados; e o ano foi fluindo, foi fluindo com muita vontade, muito trabalho e muita responsabilidade por parte de todos. Houve Braille, houve mobilidade, houve informática… e houve conversa, leitura e discussão; os motes eram os livros, a música, a Filosofia, a política… E de repente já era Junho deste ano! E de repente já havia exames para realizar! E de repente estava tudo preparado, tudo preparado para serem realizados todos os exames necessários para o acesso ao Ensino Superior… Os resultados ainda não saíram… Até por faltar ainda o exame de matemática, que acontecerá na terça-feira próxima. E todos sabemos que haverá um grande sucesso para ser festejado! É um sucesso que será de todos, mas que será sobretudo dele, que soube com  inteligência aproveitar o que a vida, afinal, lhe queria dar! Perdoa, amigo, por ter contado a tua história sem te pedir autorização. É que, para ta pedir, falta-me a coragem. E falta-me porque sou incapaz de avaliar o que tu sofreste, porque eu fui sempre cego e não sei o que é tornar-se assim de repente, eu que fui assim sempre. Vou enviar esta mensagem para o teu endereço no campo dos endereços ocultos. Perdoa se te faço sofrer, mas o teu sucesso, porque ele é sobretudo teu, meu amigo, deve ser contado e cantado, mas com outras palavras que não as minhas (sim com as palavras que vais usar no exame de matemática com que fecharás o ano lectivo); e deve sê-lo em face de tanta pouca vergonha, de tanta hipocrisia, de tanta desinformação a que assistimos. Hoje, quando qualquer berro, qualquer bebedeira, qualquer passo que um deficiente dá pode cair num jornal, numa televisão ou numa rádio, tu foste capaz de realizar algo de extrema dificuldade e sem ruído, com dignidade e sem humilhação. Mas exemplos como o teu não caem nos jornais, nem nas rádios, nem nas televisões,porque são de tal modo grandes que nunca seriam compreendidos por uma sociedade baseada na caridade disfarçada, no aproveitamento que humilha, no dar voz que amesquinha… Continua assim silencioso e desculpa o barulho que possa fazer esta minha mensagem na calma que te desejo enquanto te preparas para o teu último exame do Ensino secundário. Um abraço de quem admira o teu exemplo de coragem e nunca esquecerá a tua história de vida, que, se fosse o espelho de muitos deficientes, as nossas lutas de hoje já estariam há muito tempo vencidas! Fernando Jorge.”

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Novas amizades, novos aprendizados

Esta estorinha escrita pelos professores Sonia e Eduardo (2007) comenta sobre pessoa com deficiência visual de modo fácil entendimento, abordando o cotidiano e principalmente a mobilidade.

Carla aguarda para a travessia da rua. O trânsito está intenso e ela ouve apenas pessoas indo e vindo, apressadas. Decide, então, solicitar auxílio ao ouvir passos mais lentos se aproximando, os quais considerou serem de mulher porque soavam como de sapatos de saltos altos.
“Mas, em caso de dúvida, mantenha uma fala neutra”, lembrou-se ela de um dos sábios conselhos de Rosália, sua professora de Orientação e Mobilidade.
– Por favor, pode me auxiliar na travessia desta rua?
– É claro, respondeu uma jovem, enquanto pegava na mão de Carla. Só vamos esperar a sinaleira abrir para nós.
– Obrigada, mas para me sentir mais segura é possível eu pegar no seu braço?
E assim falando, Carla já estava realizando a manobra de pegar suavemente o punho da jovem com a mão que segurava a bengala – e que agora estava apenas com ela presa pela alça em seu próprio punho, enquanto sua outra mão realizava a pega no braço da jovem, na altura do cotovelo.
“Santa Rosália, que sempre insistia: coloca a alça da bengala no punho quando for atravessar a rua, menina; assim não há perigo dela cair no meio da travessia”, lembrou-se novamente ela de um dos conselhos da professora.
As duas jovens atravessaram a larga avenida e, somente na calçada do outro lado, Carla soltou o braço da sua colaboradora e agradeceu.
– Daqui em diante, sabe ir sozinha?
Carla deu um breve sorrisinho para si mesma, pois aquela pergunta ouvia tantas vezes quantas solicitasse um auxílio necessário.
– Sim, obrigada. Daqui em diante, sei o caminho até o shopping.
– Ah, eu também vou até lá fazer umas comprinhas. Podemos ir juntas!
– Legal, vou gostar de uma companhia! Posso, então, pegar no seu braço novamente?
– Tudo bem, mas você me orienta se eu estiver fazendo alguma coisa errada… Sabe como é… eu não sei muito bem estas coisas de ajudar uma pessoa… pessoa.. bem, alguém que não enxerga.
E lá se foram as duas para o shopping.
– Como é o seu nome?
– Carla, e o seu?
– Mônica. Eu tenho 16 anos, e você?
– Ah, eu tenho um ano a menos. Tenho 15 anos.
– E não tem medo de sair assim pela rua sozinha, só com estabengalinha… Como é que eu chamo? Digo bengala mesmo?
– Sim, o nome correto é bengala. Com ela, me sinto independente e mais segura. Fiz um curso pra usá-la. Ele se chama curso de Orientação e Mobilidade, também conhecido como OM.
– Tipo uma autoescola para dirigir uma bengala? – brincou Mônica.
– Mais ou menos assim, mas não levo multas e nem pontos na carteira, respondeu Carla, sorridente.
– Nem a co-piloto, disse Mônica, rindo.
– Ei, Carla, logo ali adiante já começam os degraus da entrada do shopping. O que eu faço?
– Hummm, acho que seria uma boa ideia a gente subir, não é?
– Bem-humoradinha, hein, Carlinha!? Gosto de pessoas assim! Eu tinha uma outra imagem das pessoas cegas.
– Que imagem?
– Ah, eu pensava que toda pessoa cega fosse meio triste, de mal com a vida, pelo fato de não enxergar… Sabe, uma vez fui ajudar um rapaz cego, que além de estar com uma aparência tristonha, ainda recusou minha ajuda com um jeito bem grosseiro.
– Mas, Mônica, a gente não pode generalizar. As pessoas cegas são diferentes entre si, assim como as pessoas que enxergam, que são surdas, que usam cadeiras de rodas. Cada um tem a sua personalidade, o seu jeito de ser. De repente, naquele dia, aquele rapaz estava de mal com a vida por algum outro motivo e não porque ele é cego. Às vezes as pessoas confundem e acham que a cegueira é o único motivo pra nós ficarmos tristes, preocupados ou zangados.
– Não tinha pensado desse ponto de vista… tem razão. Como eu sou burrinha, hein!
– Não, não diga isto. Você apenas, como muita gente, ainda não recebeu informações adequadas sobre como se relacionar com as pessoas com deficiência.
– Bom, vamos subir?
– Vamos, sim, respondeu Carla.
– Um, dois, três, quatro…
– O que está fazendo, Mônica?
– Contando os degraus, Carla, pra você ficar sabendo quantos têm. Só faltam mais 4.
– Ora, não é preciso isso. O movimento do seu corpo já me informa quando termina a subida da escada, assim como também me informa quando termina a descida e tantas outras coisas que acontecem pelo caminho. Viu, chegamos ao final e nem foi preciso me dizer que a escada havia acabado, seu movimento foi mais rápido do que a palavra!
– Puxa, quanta coisa estou aprendendo… E a gente nem para pra pensar como existem outras maneiras de conseguir fazer as coisas. As pessoas que enxergam acabam dando muita importância pra visão e se esquecem de que os outros sentidos também são importantes. E agora, em que loja você vai?
– Vou na Reflexus, no segundo andar.
– Ah, aquela loja de roupas femininas?
– Sim, na semana passada deixei uma saia aqui pra fazer a barra e hoje vim buscar. Vou aproveitar e comprar uma blusinha que vi da outra vez.
– Você viu?… Como assim?… Como é que escolhe a roupa, a cor, o modelo?…
– Calma, uma pergunta por vez! Escuta, aqui já está a escada rolante.
– Sim, estamos bem em frente à escada-rolante. Como você adivinhou?.. . E como posso te auxiliar neste tipo de escada?…
– Eu não adivinhei, ouvi o barulho característico que ela faz; e basta Colocar minha mão no corrimão que o resto eu mesma faço.
– Tá certo, entendi.
Em frente à loja, as duas jovens se despedem.
– Gostei muito de você, Carlinha! Vamos continuar esta conversa em outro dia?
– Vamos, sim! E como pode ser isto, Mônica?
– Bem, meu MSN é… Ah, desculpe, estou tão acostumada com essas coisas de internet que nem lembrei que…
– Ah, não tem problema, Eu também adoro um computador! Quer anotar o meu MSN?
– O quê? Cegos também usam computador?
– Esta e todas as outras perguntas sobre as pessoas cegas lhe responderei pelo MSN, ou você prefere receber pelo Skype, ou por e-mail? indagou Carla, muito sorridente.
– Seremos boas amigas pelo jeito, Carlinha!!!

 

Texto de Sonia B. Hoffmann e Eduardo Paes
Rio de Janeiro, janeiro de 2007

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Um processo com sensibilidade e emoção, supera qualquer dificuldade …

 Muitas vezes é mais fácil dizer um “não” ou “é difícil” para desistir das ideias que surgem sem qualquer elaboração subjetiva. Mas, tem casos que os desafios são verdadeiras oportunidades para aprender na prática, aplicar seus conhecimentos e superar as dificuldades, principalmente, por coincidência, eu havia recebido uma mensagem construtiva, cheio de conceitos de um amigo e Prof. Paulo Ross durante a semana, referente a uma outra abordagem e que coloca em atenção para este acontecimento – nada é por acaso! Desta vez, abordarei este assunto aprofundando um pouco mais nos detalhes.   Sou voluntária de uma instituição e a amiga Fer, resolveu derrepente, na sexta-feira, 05 de junho, fazer um bolo de chocolate com sete crianças da 3ª e 4ª série do ensino fundamental que freqüentam aulas de apoios para alunos com deficiência visual. Eu vivo num ambiente de planejamento, programação, processos, aplicação de melhorias contínuas (JIT), e isso parecia inconcebível, pois estavamos sem receita, sem ingredientes, sem ferramentas adequadas (batedeira, assadeira, etc), o forno nunca havia sido testado, e ainda, a Fer afirma que o bolo dela sai errado e eu só sei fazer bolo de caixinha. Contudo, por que não?..! Lá estávamos, na pequena cozinha em nove pessoas, sendo quatro com cegueira (dvt), quatro com baixa visão (dvb) e eu. Providenciamos os ingredientes, bacia, copo, colher, etc; tudo no improviso precário. Pedi para as crianças lavarem as mãos e a turminha dvb ficou de um lado da mesa, a minha frente e os dvt formaram fila ao meu lado. Começamos com os ovos, cada dvt colocou as mãos deles nas minhas para observar os meus movimentos e depois todos repetiam sozinhos. Para cada etapa, cada um executava uma função de colocar um ingrediente ou de bater a massa com o garfo. A massa do bolo ficou bem batida, cada criança batia um pouco para cada ingrediente colocado e neste caso, no início, eu segurava a mão dele para mostrar a forma de movimentar o garfo, conforme o ingrediente e a outra mão segurando a bacia. Para cada etapa, todos colocaram o dedo na massa para verem a quantidade e a consistência, onde sairam muitos comentários da sensação, do gosto, do cheiro, e outros. Quando a massa ficou pronta, o forno estava aquecido e esta foi a única parte que as crianças não participaram, de colocar e retirar a assadeira do forno. Enquanto o bolo assava, todos participaram na limpeza, pois tinha farinha, leite, chocolate,… em tudo e em todos. Enfim, ficou pronto e diria que nesse dia, todos os anjos da face da Terra estavam convocados para realizar esta missão, pois o bolo cresceu uniforme e macio. Conclusão: estava gostoso, foi o primeiro bolo da turminha, o melhor de todos e faltou bolo!                   

 “Quanto ao caso de relacionamento com pessoas e objetos, nós devemos deixar as pessoas acessarem algumas das dificuldades para tocarem a emoção, de o superar e o realizar, pois o processo importa mais que o resultado. (…)  é preciso dar autonomia total, mesmo que isso cause queda, respingos,  falhas, imperfeições, pois disso são feitos os acertos!” (ROSS, Paulo R. “Partes das frases do e-mail para Lumiy”, junho/2009).

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Vidente ou invisual, a imagem é constituída conforme informações adquiridasMa362

BL  completou 9 anos e está na 3ª série do ensino fundamental. No texto da foto, ele usou a reglete dele e com habilidade e rapidez, descreveu o avião. Depois, ele veio ler o texto com as suas mãos. Encontramos alguns erros, mas, o contexto estava ótimo. Tudo dentro da normalidade, conforme a idade e um ótimo cognitivo.  BL tem deficiência visual, cegueira desde bebê, e descreveu o avião como o vê na sua percepção, conforme a recepção da informação que constituiu a imagem;  e afirmo que a  descrição do avião, se não fosse pelo uso do Braille, não desconfiariamos que foi elaborado por um invisual. BL nunca esteve em contato com avião, contudo descreveu o seu interior e o exterior, como voa e aterriza e inclusive a função da caixa preta. Um dos sonhos de BL é viajar num avião.

Como ler e escrever no Sistema Braille

“Quando abrimos nossos olhos todas as manhãs, damos de cara com um mundo que passamos a vida aprendendo a ver. O mundo não nos é dado: construímos nosso mundo através da experiência, classificação,  memória e reconhecimento incessantes” (Sacks,1995) .

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