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Posts Tagged ‘deficiência visual’

Percepção: Da Motivação para Estimulação

A importância de incentivar a criança explorar o ambiente que se encontra, fazendo parte de estimulação para o aprendizado vinda da própria vontade e curiosidade dela, são os momentos de motivação e crescimento pessoal. Assim, o brincar com os instrumentos lúdicos e o contato com a natureza trazem o aperfeiçoamento significante na percepção em todos os sentidos.

O filme “A cor do paraíso” mostra a história do menino Mohammad, cego, que mora numa escola iraniana para crianças com deficiência visual. Num fragmento do filme, mostra o Mohammad socorrer um filhote de passarinho. Neste cenário, estão alguns elementos de percepção, que são adquiridos no desenvolvimento da criança por meio de exploração no ambiente e o contato com a natureza, resultando na conquista de sua autonomia. O menino recorre aos sentidos da audição e tato. Pela audição, ele consegue localizar o filhote de passarinho entre as folhas caídas no chão, e a direção do gato aproximando, que o espanta jogando uma pedra. Outro cenário está do menino subindo a árvore para procurar o ninho do passarinho, e escolhe galhos seguros para poder apoiar. Nesta parte, encontra-se o uso do tato para subir na árvore e do sistema háptico para deixar o passarinho dentro do ninho e acariciá-lo. Assim, envolvem-se vários fatores constituindo o sistema háptico (textura, som das folhas/galhos/piar do filhote e da mãe, o bicar dos passarinhos, etc.), e também o sentido da sinestesia (mistura dos sentidos).

Dentro dos fatores humanos e as limitações da pessoa com necessidades específicas “traduzem as necessidades de apoio, os quais não podem ser vistas de forma generalizadas, sendo o produto orientado para moldar-se ou adaptar-se adequadamente para o uso do usuário, não concebendo a ordem inversa do ser humano se adaptar ao produto”  (Okumura&Canciglieri Jr. “Engenharia Simultânea e Desenvolvimento Integrado de produto inclusivo“, Deutschland/Niemcy: NEA-OmniScritum GmbH, 2014.)

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Reflexões de um deficiente visual que enxerga o mundo de dentro para fora

Por Geilson de Sousa Santo  (Copiado e Disponível na Rede Saci)

Muitas pessoas ficam impressionadas quando vem uma pessoa cega fazendo suas atividades normais! Andando, correndo, brincando, dançando, pulando, lavando uma louça, fazendo um café, etc. Ficam se perguntando: Como é que ele consegue fazer isso? Como ele consegue fazer aquilo? Ficam se adimirando, com que fazemos e falamos!

Mais o que eles mais tem curiosidade de saber é o que pensamos, o que sentimos, como percebemos as coisas, enfim, querem saber como é o nosso Mundo. Com certeza, você já deve ter ouvido falar que um cego tem o seu próprio mundo! Eles tem muita vontade de saber como é viver o mundo só escutando e tocando. Com certeza, você já deve ter ouvido isso: “Os cegos vem mais do que nós!”. E com certeza, você deve ter ficado confuso. Ou então: “Eles não podem ver com os olhos mais podem ver com o coração!” Você deve está se perguntando: mas como é isso? Como eles enxergam melhor do que nós se são cegos? Para que você intenda como é isso, vou explicar.

Quando você vê um objeto, você presta atenção no modelo, na cor e no tamanho. Não é? Mais nós, cegos, quando pegamos em um objeto, prestamos atenção no tamanho, o material que ele é feito, qual é sua textura, se áspero, liso, macio, grosso, fino, mole ou duro. E se alguém descrever pra gente a cor do objeto, pronto, a nossa visão daquele objeto já está completa. É assim que vemos.

Isso é muito comum acontecer, quando uma pessoa cega fala pra uma pessoa que enxerga que lhe acha bonita, lá vem a pergunta: Como é que você sabe não está me vendo? Muitas pessoas que enxergam acham que a beleza é vista pelos olhos, o que não é verdade.

Quando você olha pra uma pessoa, e diz que ela é bonita, você está olhando o corpo dela. Se é gordo ou magro, a cor dos cabelos, dos olhos, etc.
Nós cegos vemos as pessoas da seguinte forma:

Ouvindo sua vós, quando ouvimos a voz de alguém, prestamos atenção de onde ela vem, em qual direção, em qual distância, se é alta ou se é baixa, Se é grossa ou se é fina, se a vós de homem ou de mulher, se a qué-la vós é de algum conhecido ou amigo! Prestamos atenção na tonalidade, se a vós é macia, ou uma vós raivosa, triste ou feliz, se é uma voz doce, carinhosa, irritada, cansada ou rouca! Prestamos atenção o jeito que a pessoa está falando! Se é um jeito amigo, ou inimigo. Se é querendo ajudar, ou não. Se está falando com medo ou com segurança. E você que enxerga? Presta atenção nisso? Nós cegos, podemos ver com as mãos, com os ouvidos, com o coração e com a imaginação. Com as mãos, vemos as texturas dos objetos, o material que ele é feito, o tamanho, a temperatura  e o peso. Com os ouvidos, vemos o som que ele tem, se é um som alto ou baixo, grave ou agudo, rápido ou lento. Com a imaginação, imaginamos a cor que ele tem. Com o coração, vemos os sentimentos das pessoas, se são bons ou ruins, se gostam da gente ou se é só falsidade, se são amigas de verdade ou só por interesse em alguma coisa. Prestamos muita atenção nas sensações, a sensação de voar de avião, de um beijo, de um carinho, de se sentir amado, apaixonado, etc.

O objetivo desse texto é pra mostrar para as pessoas que enxergam, a forma que os cegos veem! Por favor, compartilhe esse texto com todos em sua volta e peça que eles façam o mesmo. (texto de Geilson de Sousa Santo)

Disponível: http://saci.org.br/index.php?modulo=akemi¶metro=32189

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Um “Retrato” do grupo PDE para o Prof. Paulo Ross

-> Seria de mau grado/ofensa entregar uma foto à pessoa cega, isso se …

 Conheci um grupo do PDE da UFPR maravilhoso e muito engajado na área de Educação Especial.
 Este grupo é formado por profissionais como pedagogos, psicólogos, terapeutas e outros que atuam nas escolas e instituições atendendo os alunos com deficiência (PcD). Sendo assim, eu me encontrava na sala que estavam reunidos os professores especialistas em DA, DV, DF, DI, TDAH, …
Assisti algumas aulas de estudos teóricos e palestras promovidas no curso por alguns profissionais convidados. Foi muito proveitoso e construtivo, pois havia muita troca de informações e envolvia certa sinergia na sala que os discursos abertos fluíam nos diversos temas abordados, onde os participantes contaram as suas expectativas e experiências de suas atividades. Foram discutidas questões de materiais de apoio, comportamento, aprendizagem, acessibilidade, políticas educacionais, esportes de paraatleta, artes e vários assuntos relacionados à PcD.
 No entanto, o que me surpreendeu foi na aula prática com relação ao tema “A Interdisciplinaridade para elaboração de projetos inclusivos”, onde resultou um retrato inclusivo do grupo como lembrança para o prof. Paulo Ross, o coordenador do curso. Na verdade, no dia anterior, os participantes do grupo estavam perguntando sobre o que dar/fazer de lembrança ao professor, até que se juntou o útil e agradável, surgindo a ideia de fazer um retrato do grupo. Desta forma, explano um pouco sobre a interdisciplinaridade no projeto, o método e a aplicação que constituiu o objeto “retrato” para PcD visual total, o qual, entre sorrisos e emoção, gerou um trabalho de equipe muito unida e cheia de competência.Retrato Pross-PDE UFPR

Interdisciplinaridade no Projeto Inclusivo:
 A elaboração de um projeto é uma atividade orientada para o atendimento da necessidade humana, principalmente daquelas que podem ser satisfeitas por fatores tecnológicos de nossa cultura, abarcando-se os fatores técnicos, humanos, econômicos, sociais e políticos (Back, 1983). Tratando-se de Projeto inclusivo (Okumura,2010), isto concerne em atender a maioria do usuário, ou seja, compreendem nas relações entre o usuário e o projeto os níveis a seguir:

  • Indivíduo: de atender as necessidades fisiológicas (antropométricas e sensoriais), a melhor forma de utilizar, de fácil aprendizado, eficiência no uso (usabilidade/desenho universal);
  • No grupo: proporcionar uma boa comunicação e ação entre os integrantes;
  • Na organização/comunidade: abranger os objetivos sociais e culturais; leva-se em conta as questões de riscos e segurança;
  • No planeta/sustentabilidade: elaborar um projeto que não agrida o meio ambiente, de fácil reciclagem, com comprometimento no âmbito social, econômico e ambiental (Okumura,2010)

Prática: Elaboração do Túnel do Tempo e Retrato Inclusivo

  • Na fase de planejamento (Iida, 2005) decidiu-se a elaboração do retrato, onde foram levantadas as características do usuário e suas habilidades. Assim, foram relacionados os predicados do prof. Paulo quanto a sua pessoa, na atuação profissional, tipos de ferramenta que ele usa como apoio, etc. Para isso foi aplicado o “Brainstorming”, onde o grupo fez chover as ideias.
  • No Projeto Informacional foi aplicado a “análise de funções do produto”, cuja fase foi abordada as funções e os conceitos do retrato quanto o significado do retrato, o que o retrato faz/traz quando é visto pela pessoa, o que representa, porque as pessoas gostam de tirar fotos, etc. Neste aspecto, foi visto também como o prof. Paulo poderia recepcionar/sentir as funções que o retrato oferece com autonomia, ou seja, sem a necessidade de transcrever o retrato para ele. Com isso, gerou-se o suporte para o projeto conceitual.
  • Para iniciar o Projeto Conceitual foram colocadas as seguintes perguntas ao grupo (Canciglieri Junior, 2010): “qual é a imagem ou mensagem que você gostaria de transmitir?”, “como você gostaria de ser lembrado (a) no retrato do grupo?”, “qual o fato marcante que faria o Prof. Paulo lembrar de você?” e assim por diante. Desta vez, as ideias foram expressas em frases com nomes dos autores e relacionadas no quadro, onde gerou o “túnel do tempo” do grupo, perfazendo as lembranças da época e do local de forma flash. Este momento, também havia de certa forma, provocado e estimulado o interior de cada participante, motivando-os em seguida para elaboração da fala  individual.
  • Na fase do Projeto Detalhe foram finalizadas as especificações e escolhidos os programas de software e o equipamento de gravação.

Produção:

  • Cada pessoa do grupo elaborou suas falas que foram gravadas no micro ou no aparelho celular;
  • Os programas software utilizados foram: NVDA para fazer a introdução e o túnel do tempo, e o Audacity para recortar, normalizar o som e ajuntar as gravações. Ambos, os programas, são gratuitos e estão disponíveis no servidor da universidade.
  • Foram escolhidas três músicas para o fundo e fotos do Prof.Paulo e do grupo.
  • A montagem foi através do programa Office Power Point da Microsoft e gravado no formato de vídeo.

O resultado ficou, além de uma simples lembrança, cheio de emoção e muita VIDA. No entanto, coloca-se a relevância que só foi possível realizar este trabalho pela integração, cooperação e atuação maravilhosa dos professores e professoras que mostraram o domínio do conhecimento e experiência na área de educação especial.
  ** Parabéns à todos e obrigada por me proporcionar momentos agradáveis e poder participar desta experiência inclusiva!!!
** Obrigada Prof. Paulo, seu comentário de incentivo ao grupo participante neste post, também complementa e completa este espaço: https://lumiy.wordpress.com/2011/07/15/um-retrato-inclusivo/#comments
*** A lembrança foi entregue ao Prof. Paulo gravado no pendrive e está disponível no site: http://www.youtube.com/watch?v=2sC1ivUWTyg

Referências:
Back, N. Metodologia de Projeto de Produtos Industriais. RJ:Guanabara Dois,1983.
Canciglieri Junior, O. Aula de Orientação – Puc-PR/PPGEPS. Curitiba, 2009~2011.
Iida, H. Ergonomia – Projeto e Produção. SP:Edgard Blücher, 2005.
Okumura, M.L.M. A Engenharia Simultânea aplicada ao processo de desenvolvimento de produtos especiais. Curitiba: Puc-PR/PPGEPS, 2010/2011.
Okumura, M.L.M. The Environment Social and Economical Sustainability to support the process product development:case stydy of visually impairdes. Curitiba: Puc-PR/PPGEPS, 2010/2011.

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Percepção pelo Tato

     Estes últimos meses, estou revisando a literatura na área de ergonomia dos produtos para sustentar o estudo de tecnologias, inclusive a “assistiva” que tem o princípio de dar apoio às pessoas com alguma limitação para executar alguma tarefa. Dentre as leituras, encontrei sobre a percepção humana e a revista RBTV, em especial o artigo acerca de desenho em relêvo para pessoas com deficiência visual (DV) e as barreiras atitudinais, que por sua vez, lembrei do pósfacio do livro de teatro do prof. Jupiassu. Assim, divido com vocês, tópicos que concernem a importância do tato para a pessoa com deficiência visual firmar um conceito, ou formar uma concepção de imagem no seu interior, de forma mais próxima do real. Na sequência explano sobre a barreira atitudinal e percepção humana. Ao final, deixo o trecho do comentário da peça “Coroa de Tebas”, onde uma jovem cega foi integrante na encenação do teatro.
Conquanto, a boa proposta da educação inclusiva, insisto na necessidade de estimular as habilidades táteis desde a infância para crianças com cegueira congênita, ou seja, coloca-se o alerta de quão é importante a pessoa DV congênita começar a explorar os materiais diversificados desde educação infantil (madeira, plástico, metal, tecido, linha, água …). Não basta a educação básica ficar na teoria levando os conceitos somente pelas palavras faladas, ou anotadas em Braille ou por meio digital. É preciso ter práticas de contato físico nos materiais de física, química, matemática …, na natureza, na arte etc, por meio de tato, olfato, paladar, audição …., buscando a multidisciplinaridade que inicie na educação infantil, e estenda até a graduação.
Complemento com o argumento do prof. Francisco Lima faz no seu artigo que “reside no fato de os cegos congênitos totais não estarem acostumados com as convenções da linguagem pictórica, e não porque o sistema háptico seja incapaz de reconhecer desenhos em relevo”. A este fato, ao jovem que teve um aprendizado integrado com contato ao meio ambiente, poderá ter uma compreensão maior do mundo que está a sua volta e também, muitas das barreiras atitudinais estarão eliminadas.

O que são barreiras? No paradigma da inclusão encontram-se barreiras de discriminação, arquitetônicas, atitudinais e outras. Assim, coloco a abordagem da barreira atitudinal, por Francisco Lima, para pessoa com deficiência, onde é definido e distinguido taxonomicamente como:
1. Barreira Atitudinal de Baixa Expectativa: A barreira atitudinal de baixa expectativa é o juízo antecipado e sem fundamento (conhecimento ou experiência) de que a pessoa com deficiência é incapaz de fazer algo, de atingir uma meta etc;
2. Barreira Atitudinal de Inferiorização: A barreira atitudinal de inferiorização é uma atitude constituída por meio da comparação pejorativa que se faz do resultado das ações das pessoas com deficiência em relação a outros indivíduos sem deficiência, sob a justificativa de que o que foi alcançado pelos primeiros é inferior, exclusivamente em razão da deficiência;
3. Barreira Atitudinal de Menos Valia: A barreira atitudinal de menos valia consiste na avaliação depreciativa das potencialidades, ações e produções das pessoas com deficiência. Esta avaliação é incitada pela crença de que a pessoa com deficiência é incapaz ou que o que conseguiu alcançar, o que produziu tem menos valor do que efetivamente lhe é devido.

Quanto a percepção humana, de acordo com Cybis et al.,  é delimitada por um conjunto de estruturas e tratamentos cognitivos pelos quais organizam e dão significado às sensações produzidas por seu órgãos perceptivos a partir dos eventos que lhes estimulam, os quais podem ser classificados em 3 processos distintos:
1. Processos neurofisiológicos ou de detecção: têm por objetivo reagir à existência de um estímulo que gere uma sensação;
2. Processos perceptivos ou de discriminação: visam organizar e classificar as sensações, de forma que só é possível se houver detecção anterior ou exista classificação memorizada;
3. Processos cognitivos ou de interpretação: visam dar significado às informações. Esta função só é possível se existirem conhecimentos e se houver informação sobre as condições de contexto no qual a percepção é realizada.
Portanto, os processos perceptivos se especializam nos diferentes sistemas autônomos que formam a percepção humana, os quais envolvem os sistemas visual e auditivo, incluindo a percepção da fala.

Para reflexão, deixo aqui o trecho do livro do Prof. Jupiassu, referente uma peça de teatro, onde, no final do livro, encontra-se este comentário sobre a atriz cega, integrante da peça de teatro:
“Entre os objetos de cena, havia um arco e flecha (adereço do ator que representava o deus Apolo). Na ocasião da apresentação daquele objetos ao grupo, Joselita nos revelou jamais ter tocado em um arco e flecha, embora já tivesse ouvido falar dele. Sua expressão facial foi de total encantamento ao poder “vê-lo” com as mãos e de, pela primeira vez, tocá-lo, aprendendo como aquele instrumento poderia ser usado para atingir um alvo distante do atirador. […] Embora Joselita demonstrasse ser letrada em Braille, podendo ler e escrever fluentemente – o que sugeria uma competente intervenção pedagógica, ela revelava uma experiência sensorial muito limitada, desconhecendo objetos simples, encontrados no cotidiano.”

Nexte contexto, ao final, eu, Lumiy, deixo um ponto relevante para a Teoria de Conhecimento, cuja essência, verifica-se que a percepção humana é gerada pela experiência que passa por processo cognitivo para captar o conhecimento da experiência, que por sua vez, é complexo para expressar, pois é tácito e físico para o indivíduo, e subjetivo entre as pessoas. Ou seja, a zona proximal (Vigotski ¹) é alcançada diferentemente, conforme o indivíduo, mediação utilizada e o mediador (Okumura, M.L.M.). (Apronfundarei nos próximos posts acerca da Teoria de Conhecimento).

Referência:
JUPIASSU, Ricardo. “Coroa de Tebas”.Campinas, SP: Papirus,  2002.
LIMA, Francisco. “Breve revisão no campo de pesquisa sobre a capacidade de a pessoa com deficiência visual reconhecer desenhos hapticamente”. Revista Brasileira de Tradução Visual, Vol. 6, No 6 (2011). Disponível:http://www.rbtv.associadosdainclusao.com.br/index.php/principal/article/view/82
CYBIS, W.;BETIOL, A.; FAUST, R. “Fundamentos da Psicologia Cognitiva” -apêndice. In: Ergonomia e Usabilidade. SP:Novatec,2007.

(¹) – encontrado o nome do autor, “Выготский“, escrito: “Vygostsky”, “Vigotsky”, “Vygotski ” e ”Vigotski”; padronizado para este texto “Vigotski”, conforme argumento do Prof.Achilles Delari Jr.

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 Uma tarde no evento cultural com teatro 

As aulas da escola especial de apoio, a qual conheço, encerraram as atividades do ano de 2010 com o evento “Semana Cultural do Louis Braille” e no último dia, 18 de dezembro, foi a apresentação do teatro com a história de Louis Braille encenada pelos alunos. Os protagonistas da peça foram um rapaz cego de Angola que faz intercâmbio no Brasil e uma aluna adolescente com baixa visão. A história de Louis Braille era contada numa conversa informal entre os protagonistas atuando os dias de hoje, enquanto os outros alunos encenavam a conversa e representavam o cenário dos anos da vida de Louis Braille, assim, teve duas versões dele atuadas, de quando criança e adulto. Os alunos estavam vestidos com trajes tipicamente de cidadãos franceses, cheio de babados, e um deles, chegou a falar com sotaque francês. Ao final, todos cantaram ao som do violão tocado pelo rapaz protagonista que compôs a letra e a música. Foi muito divertido e a platéia gostou e aplaudiu muito. Depois da apresentação, foram mostrados para as pessoas da platéia, com deficiência visual, os cenários do teatro que foram bem elaborados, pois foram construídos alguns locais da casa e da escola que Braille conviveu, com detalhes, como a oficina com ferramentas feitas de madeira, janelas com cortinas e flores, máquina de escrever em Braille etc. Dentre as pessoas, estava presente a professora Utako de 80 anos, sorridente e simpática que foi uma das primeira professora da escola. O andar dela está um tanto delicado e ela usa uma bengala bem curtinha e leve, no entanto, a sua percepção está ótima, onde pôde observar o cenário do teatro e a exposição do evento, chegando a dar entrevista sobre a importância de aprender o Sistema Braille pelas pessoas cegas, juntamente com o professor Bill, que demonstrou a sua destreza na leitura de poemas escritos em Braille.  Também estavam presentes os familiares e amigos dos alunos, e  normalmente nestes encontros, cada aluno gosta muito de apresentar a professora que o assiste nas aulas de apoio para os seus pais, ficando um ambiente animado. * A realização do evento contou com a participação e dedicação de vários professores, funcionários e alunos, desde providenciar as lembrancinhas de natal, fazer os lanches e toda preparação da história, cenário, trajes, treino dos alunos e outros preparativos para apresentação do teatro. Como resultado, os alunos, os pais e amigos demonstraram satisfeitos e muitos deles deram a sugestão de repetir o evento no próximo ano. Enfim, a atividade terminou muito bem e encerro este post com as palavras da amiga B.Fish, da Alemanha, que comentou sobre a gravaçãodo pessoal cantando no teatro que eu a enviei : “listen to it, like a foto with lots of smiling faces sending warmth to the heart“. 

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 Apoio ao aluno com deficiência visual: aula de Química

          Ao pensarmos nas aulas de Química, logo relacionamos com laboratório e fórmulas nos estudos das estruturas atômicas, interações moleculares, funções inorgânicas, estequiometria e outros,  cujas anotações e experimentos são importantes para compreender a disciplina. Por isso, para o aluno com deficiência visual (DV) podemos elaborar a aula de Química, utilizando-se recursos alternativos, no caso para as anotações, recorrer ao Sistema Braille quanto aos sinais matemáticos e ao campo das ciências, além de algumas letras gregas(alfa,delta,..) nos materiais didáticos do MEC/SEESP, o”Código Matemático Unificado” (CMU) e a “Grafia Braille em Química”; e na parte de visualização, utilizar materiais como palito, canudo, bola de isopor, pedaço de madeira, barbante, alfinete, etc . Um dos materiais interessantes é o uso do papel sobre o EVA para desenhar com caneta ou com punção, e assim, formar traços ou pontos em alto relevo no avesso do papel, onde, possibilitam as reproduções do Diagrama de Linus Pauling, da escala de temperatura (Celsius x Kelvin x Fahrenheit) e outros. Existem também, materiais prontos como a tabela periódica impressa em Braille e  materiais em thermoform (plástico em alto relevo) como a estrutura do átomo. Contudo, uma atividade para formar estrutrura molecular interagindo os alunos, utilizando bolas de isopor de tamanhos diferentes e palitos, têm melhores resultados. 
Exemplo Química Braille
          É relevante para que o aluno com DV perceba ou tenha certa percepção de reconhecer a figura planificada, portanto, conta-se da importância que ele tenha frequentado as aulas de artes e AVD, ou tenha recebido orientação e treinamento para interpretar os materiais em alto relevo e as diferentes texturas colocadas no papel, logicamente sem detalhamentos. Também, acrescento as atividades de explorar os objetos quanto o tamanho, formato, encaixe, textura ou ainda, entrar em contato com a natureza (terra, pedra, areia, etc), plantas, animais, pois, mais tarde, auxiliam o aluno na compreensão das aulas de ciências e também de outras disciplinas.  
          O CMU foi elaborado para abranger as notações de matemática e ciências, porém há necessidade do material “Grafia Braille em Química” para notações mais avançada, como a estrutura molecular fechada (benzeno, naftaleno,…), tipos de ligações (simples, dupla, tripla), velocidade de reação, movimento dos elétrons, etc. O texto da “Grafia Braille em Química” foi transcrito para o contexto educacional brasileiro, mediante estudos dos símbolos do CMU, “Notações de Química” de Madeleine Seymour Loomis & Paul Cunningham Mitchell e propostas da Fundação Catarinense de Educação Especial, da Associação do Cegos e Amblíopes de Portugal – “Grafica Química Braille”  e da ONCE – “Fisica y Química”. 
          Ressalto que o Sistema Braille é uma ferramenta de apoio ao aluno com DV, sendo assim, as notações mais avançadas de química não são necessariamente de uso convencional de professores de apoio que fazem a transcrição. Para este caso, sugere-se que o aluno informe suas notações de tarefas/provas ao professor da disciplina. Existe ainda a opção de usar o meio digital ou gravação em áudio.
          Desta forma, a aula de Química, partindo-se do conceito interdisciplinar, permite criatividade, integração e participação da classe, tanto na teoria como na prática, além de associar-se às diferentes áreas. Conforme Paulo Freire (1982), “tanto quanto a educação, a investigação que a ela serve, tem de ser uma operação simpática, no sentido etimológico da expressão. Isto é, tem de constituir-se na comunicação, no sentir comum uma realidade que não pode ser vista mecanicistamente compartimentada, simplistamente bem “comportada”, mas, na complexidade de seu permanente via a ser”.  Através do uso de mediações diversificadas, emprega-se um aprendizado que promovem o convívio entre os alunos, contribuindo no desenvolvimento do indivíduo e na inclusão educacional.
 
 “Mais importante que saber é nunca perder a capacidade de sempre mais aprender. Mais do que poder necessitamos de sabedoria, pois só esta manterá o poder em seu caráter instrumental, fazendo-o meio de potencialização da vida e de salvaguarda do planeta” (BOFF, Leonardo. “Saber cuidar: ética humana – compaixão pela terra”. Ed.Petropolis, RJ: Vozes, 2008).
“Há momentos assim na vida: descobre-se inesperadamente que a perfeição existe, que é também ela uma pequena esfera que viaja no tempo, vazia, transparente, luminosa, e que às vezes (raras vezes) vem na nossa direcção, rodeia-nos por breves instantes e continua para outras paragens e outras gentes” (José Saramago). 

 

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Significado das cores pela expressão

 As cores fazem parte do nosso cotidiano para identificar, escolher, caracterizar os objetos como vestuários, utilitários, decorativos, …. até mesmo para uma simples flor. Segundo o dicionário (Michaelis), a cor é “impressão variável que a luz refletida pelos corpos produz no órgão da vista”, desta forma, a cor somente é perceptível aos olhos,  não sendo identificável através de outras percepções sensoriais (tátil, olfativa, acústica, gustativa) e está relacionada diretamente ao convívio social, por isso é importante que as pessoas com deficiência visual (DV) consigam interpretar o significado das cores como as expressões: o céu está azul,  o jogador recebeu cartão vermelho, o semáforo está vermelho, declarar com rosas vermelhas, etc. Existem ainda outras concepções relacionadas à cor como a matiz que é a intensidade da cor, o brilho que se refere à luminosidade e a saturação que corresponde à pureza espectral da luz; por isso, é extensa a abordagem do significado das cores para pessoas com DVs.    
Na aula de AVD/AVAS, é interessante colocar expressões como cor fria/quente; alguns “estudos de psicologia” das cores como o branco relacionada com paz, vermelho com amor, azul com serenidade, etc. Isto é concernente principalmente aos vestuários quanto a combinação das cores ou ao seu uso adequado no momento/atividade. É relevante dizer que a aula precisa ser condizente ao aluno, quanto a idade, atividade, lazer,  pois há certa necessidade de levantar o interesse dele. Coloco um fato que aconteceu, é de um adolescente cego desde o nascimento e que não queria assistir a aula porque segundo ele,  se não enxergava as cores então para nada o serveria. Este aluno gosta muito de futebol e é torcedor “roxo” do CAP, além de jogar bem bola (goalball). Não tive dúvida, comecei a aula falando dos torcedores do “furacão” que espalham vermelho e preto nas ruas no dia do jogo. Aos poucos, o aluno foi se aproximando, sentou e começou a participar da aula com ânimo, principalmente quando referia-se ao “rubro-negro”. Por isso, sugiro que as aulas sobre cores sejam colocadas após conhecer o aluno DV.
Uma outra referência de cor são os ícones de artistas, cantores, jogadores famosos, time, torcida organizada, etc,  que podem acompanhar, ou usar como modismo, ou se identificar como fã, ou participar de alguma atuação/movimento pela pessoa DV.    
Na aula, uma das atividades que peço para as crianças com DV é que façam pesquisas com os professores, entre alunos, pais, irmãos, tios, vizinhança, … de qual a cor preferida da pessoa, qual a cor do vestuário em uso, etc. Para o pessoal maior e de escolarização avançada, coloco expressões de degradê, malhado,mesclado, xadrez, reluzente, opaco, translúcido, representação do luxo, brilho, e outras configurações envolvendo percepção de luz.
Ao final, quero deixar uma observação de que às vezes é desconfortável apontar cores à pessoa com DV sem que aparente indelicadeza na conversa; nestes casos, ao encontrar com PcDV bem preparadas, fica a minha curiosidade na dedicação de quem é a pessoa, sejam pais ou professores,  que a instruiu e a encaminhou para integração e convívio social (Lumiy). 
Mais sugestões para atividade de cores: AVD/AVAS: Simbologia das cores.  
   

“Que significa descobrir o significado? Na linguagem devemos distinguir os aspectos semiótico e fásico; os liga a relação de unidade e não de identidade. A palavra não é simplesmente o substituto da coisa.” (VIGOTSKI, 1991)
 

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Sistema Braille: o aprendizado para leitura e escrita correta

Postei este texto escrito pelo Professor Eduardo Fernandes Paes, o qual coloca a importância de pessoas com deficiência visual (cegueira) de aprender e usar o Sistema Braille, mesmo com o avanço das tecnologias que oferecem facilidades nos meios de comunicações e informações.  

O BRAILLE COMO ALIADO INDISPENSÁVEL A UMA BOA ESCRITA

É notório que a língua portuguesa está se modificando com o passar dos anos, o que é natural. Ela é enriquecida diariamente ao receber influências linguísticas de todas as espécies. O que está acontecendo, no entanto, é o mau uso dela. Nota-se, em praticamente todas as áreas das atividades humanas, que, em nossos dias, escreve-se mal e fala-se
pior ainda. Indubitavelmente, uma das principais causas para que isto esteja ocorrendo é a falta da boa leitura.
Nesse sentido, em um país com apenas 3.000 bibliotecas públicas, em que existem 5.200 municípios, já se vê que não há uma política à altura da valorização desse gosto pela leitura de livros, jornais e revistas .
Só para se ter uma idéia de como esse incentivo à leitura poderia se dar de forma simples, mas eficiente, saibam que nos Estados Unidos, quando sai um livro que eles chamam de “paper back”, uma edição popular de um livro de sucesso, o próprio Governo americano compra de saída 100 mil exemplares para distribuir entre as bibliotecas
públicas e escolas. O governo dá o ponto de partida, estimula. Isso é uma coisa genial, indispensável e transformadora.
E por que devemos incentivar o gosto pela leitura? Principalmente porque, conhecendo melhor o seu idioma, o indivíduo será capaz de raciocinar, analisar e fazer uma reflexão mais aprofundada e apurada dos assuntos e fatos que envolverão a realidade que o cerca; e isso dependerá do domínio que ele terá da língua.
Desse modo, o aumento do vocabulário de uma pessoa é condição fundamental para que este processo se realize a contento, pois quem tem o domínio de uma situação linguística sabe como usar adequadamente um número razoável de palavras. O vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, tem 360 mil palavras, mas quando o indivíduo conhece 30 mil dessas 360 mil, é considerado um gênio. Em nosso dia a dia, usamos de 4 a 5 mil palavras, e olhe lá!
Gostaria de apresentar agora a opinião de alguns intelectuais respeitados sobre este assunto:

Quem não sabe falar bem não consegue justificar a sua própria existência. O decréscimo da língua portuguesa empobrece o País.” (Antônio Olinto, membro da Academia Brasileira de Letras)

A base da cultura é a própria língua. Quem não sabe falar não consegue ensaiar os outros passos. Se há o empobrecimento da língua, há o empobrecimento das ideias, e a sociedade brasileira está amadurecendo e
valorizando a Educação.
” (Tarcísio Padilha, secretário geral da ABL)

O Português deveria ser objeto de orgulho, de satisfação. Quem não conhece a própria língua não tem identidade, não tem patrimônio.” (Sérgio Corrêa da Costa, acadêmico, historiador e diplomata de carreira.)

Na verdade, tanto entre os deficientes visuais quanto entre os normovisuais, podemos observar este processo de empobrecimento linguístico que, espero, muito breve, seja revertido, na medida em que já estão em andamento, em muitas partes do Brasil, projetos de incentivo à leitura como o das bibliotecas ambulantes, que circulam principalmente por comunidades carentes; o de escritores que vão às escolas falar sobre suas obras e debater com os alunos; entre outros. Acredito ainda que, além dessas maravilhosas e bem-vindas iniciativas, cada um de nós, que
já adquiriu o gosto da boa leitura, pode dar a sua contribuição para que outras pessoas, mormente crianças e adolescentes, se interessem pelo livro e façam dele um companheiro constante de suas vidas.
O bom domínio da Língua Portuguesa é inegavelmente um fator decisivo para a abertura de novos horizontes nos mais diversificados campos e áreas do Conhecimento e do Saber, aplicado a inumeráveis atividades humanas. E, para isso, os cegos brasileiros já podem contar com vários instrumentos para este fim: computador, escaner, gravadores digitais, bibliotecas de livros gravados, digitalizados e em braille…
Ah, o velho amigo braille! Decerto nenhum cego que não possua qualquer problema com o tato de seus dedos poderá deixar de aprender e de sempre se utilizar deste fantástico sistema de leitura e escrita, em nome de mais independência em sua vida diária.
Revela-se, sem dúvida alguma, o Sistema Braille como o melhor processo pelo qual um cego poderá aperfeiçoar os três pontos gramaticais que, normalmente, apresentam mais dificuldades no uso diário do nosso idioma, a saber: a acentuação, a pontuação e a ortografia, principalmente este último, sobre o qual o professor e gramático Pasquale Cipro Neto faz as seguintes considerações:
A competência para grafar corretamente as palavras está diretamente ligada ao contato íntimo com essas mesmas palavras. Isso significa que a freqüência do uso é que acaba trazendo a memorização da grafia correta. Além disso, deve-se criar o hábito de esclarecer as dúvidas com as necessárias consultas ao dicionário. Trata-se de um processo constante, que produz resultados a longo prazo.
Dicionários e corretores ortográficos já estão à disposição dos cegos que estudam e trabalham com o auxílio de computadores; porém duvido muito que a maioria se utilize dessas ferramentas a todo instante para verificar se está correta a grafia de algumas palavras sobre as quais teve alguma dúvida quando, por exemplo, estiver digitando uma simples mensagem para um amigo ou para uma lista de discussão na internet.
A memorização da grafia correta das palavras se dá por duas fontes: pela visão ou pela sensibilidade do tato, no caso das pessoas cegas. Nenhum cego, por mais que leia os melhores autores brasileiros, ficará sabendo corretamente a grafia de determinadas palavras se somente realizar suas leituras através de livros gravados ou digitalizados.
Indiscutivelmente, tanto os livros gravados como os digitalizados, que se apresentam modernamente como meios de leitura preferidos por uma boa parte dos deficientes visuais, principalmente pelos mais jovens, dinamizam o acesso destas pessoas à informação, ao estudo e à cultura em geral.
Todavia, é também inquestionável a insistência que se deve manter em se incentivar o processo de aprendizado do Sistema Braille para que as pessoas cegas, entre várias razões que justificam este aprendizado,  não percam o contato com a forma correta de se escrever.

Paz e Sabedoria a todos!
Prof. Eduardo Fernandes Paes
( Bacharel e licenciado em Letras pela Universidade Gama Filho, RJ; com especializações em Metodologia do Ensino da Gramática Tradicional e na Didática de Ensino de pessoas com deficiência visual.)
Professor responsável pelo sítio “NOSSA LÍNGUA_NOSSA PÁTRIA” – um sítio a serviço da Língua Portuguesa, da Educação e da Literatura Brasileira.
www.nlnp.net            E-Mail: nlnp@nlnp.net


Mais informações sobre Sistema Braille – ler e escrever : https://lumiy.wordpress.com/estudos/sistema-braille/

** Grifo de Lumiy. Texto recebido p/e-mail do Forum Inclusão em 3/4/2010 – Marta Gil. Está disponível em http://www.diversidadeemcena. net

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 Dirigir o carro conduzida por pessoa com deficiência visual …

Ontem (03/12/09), fui numa reunião de amigos e por não conhecer o trajeto, o meu colega foi quem me conduziu para chegarmos ao local. Este colega perdeu totalmente a visão aos 3 anos de idade, hoje ele é professor em duas escolas públicas e desloca-se sozinho para todos os lugares.  O fato dele não enxergar com os olhos não o impediu na sua autonomia para mobilidade, pois ele consegue reconhecer rapidamente a sua localização e constitui um trajeto mental para deslocar-se de um ponto para outro. Neste contento, abordarei algumas situações de mobilidade das pessoas com deficiência visual (DV), inclusive daqueles com certa destreza que conseguem ser ótimos co-pilotos, isso sem aprofundar nos conceitos de tecnologias ou fundamentos da mobilidade; e, ao final, uma reflexão customizada através das palavras dos “gigantes”. Observo que nem todas as pessoas com DV têm percepção desenvolvida ou apurada, assim como pessoas que enxergam podem ficar perdidas principalmente nos locais desconhecidos.♥

                A mobilidade é importantíssima para a pessoa com DV, proporcionando a sua autonomia de deslocamento, onde é preciso ter a noção de espaço, a percepção de posicionamento (lado direito, esquerdo, atrás, lado, …), isto é lateralidade. No dicionário consta que “a lateralidade é a capacidade de controlar os dois lados do corpo juntos ou separadamente”.  Além disso, é preciso ter a noção do seu posicionamento e dos objetos que estão ao seu redor,  no caso, levar a mão na direção correta para pegar um copo que está na mesa. Normalmente, a pessoa com DV anda sem bengala e até mesmo corre nos locais em que está ambientado, o qual sente totalmente inteirado com as posições dos objetos e com as curvas do caminho. Da mesma forma, dentro do carro, alguns têm a percepção do caminho, conseguem, sem dificuldades, ter a noção de onde está e qual o trajeto que deve seguir para chegar ao seu destino sem enxergar as paisagens. Logicamente, ocorrem conversas alheias durante o tráfego e também são descritos alguns locais ou mencionada a rua em que se está passando.
               Para conseguir desenvolver a lateralidade e conjuntamente a mobilidade, o indivíduo necessita praticar e estimular as suas percepções. Estes são noções que as pessoas adquirem ou se adaptam a elas com treino, visitando o local, explorando os objetos, do corpo entrar em contato para conhecer e entender o significado das estruturas que estão ao seu redor,  isso sem esquecer do manuseio da bengala e contando com os outros sentidos: audição, olfato, tato, paladar, etc. Acrescento ainda, as práticas de esporte como futebol (golbol), judô, corrida e outros, que contribue para qualidade fisica e mental.
                Uma outra relevancia é a noção de perceber o movimento do guia. O guia é a pessoa vidente que auxilia a pessoa com DV, no caso de atravessar uma rua movimentada, sem sinalização. Conforme a estatura, a mão da pessoa com DV apóia no ombro ou segura perto do cotovelo do guia. Existem algumas pessoas com DV que apenas tocam com dois dedos no braço do guia, assim como, tem outros com a mão mais firme e pesada. O guia sempre precisa estar um passo à frente para que o indivíduo DV sinta o movimento do condutor, como quando for subir uma escada. Se entre eles estão acostumados, então o guia pode caminhar mais rápido porque a pessoa DV tem facilidade de acompanhá-lo, deixando muitas vezes a bengala em posição de guarda (não bate) ou simplesmente a recolhe.
                 Atualmente, através das regulamentações das leis e dos movimentos de conscientização, muitos locais estão disponíveis à acessibilidade. Aparecem nas ruas e nos estabelecimentos públicos o piso tátil de direção e de alerta, mapa tátil, placas com Sistema Braille, guias rebaixadas, etc. E mais, surgem ferramentas de tecnologia de informação e comunicação (TIC), que podem se relacionar à tecnologia assistiva para auxiliar na mobilidade, como o GPS.
                 Enfim, a mobilidade e a lateralidade são resultados das percepções do indivíduo, conforme ressalta Chopra, ” o corpo físico é uma abstração, um fluxo intermitente de sensações, percepções, memórias, idéias, uma projeção da consciência.” (DEEPAK CHOPRA)
##Postei a História da Bengala ->https://lumiy.wordpress.com/estudos/om-historia-da-bengala/–—
* Reflexão através das frases dos “gigantes” customizadas por Lumiy acerca de desenvolvimento do indivíduo, exteriorização, estimulação e inclusão social:
“O desenvolvimento do cérebro e dos sentidos a seu serviço, a crescente clareza de consciência, a capacidade de abstração e de discernimento cada vez maiores, reagiram por sua vez sobre o trabalho e a palavra, estimulando mais e mais o seu desenvolvimento” (ENGELS), isso, “influenciado por Marx, Vigotski concluiu que as origens das formas superiores de comportamento consciente deveriam ser achadas nas relações sociais que o indivíduo mantém com o mundo exterior” (LURIA). Ainda, conforme os testes de lateralização cerebral, existem a relação entre a lateralidade da fala e a preferência por uma das mãos (PINEL), este relacionamento mostra e remete a necessidade do estímulo e o contato ao mundo exterior para desenvolvimento do indivíduo. Então, “entre os seres humanos e o seu mundo físico coloca-se seu ambiente social, o qual refrata e transforma suas ações recíprocas com o mundo. […] crianças cegas não percebem originalmente sua cegueira como um fato psicológico. Ela é percebida apenas como um fato social, um resultado secundário e mediado de sua experiência social. […] as escolas especiais da época faziam pouco em termos dessa educação social. Influenciadas por idéias religiosas e filantrópicas, remanescentes de uma mentalidade burguesa originada no mundo ocidental, enfatizavam a situação infeliz das crianças e a necessidade de que elas carregassem sua cruz com resignação. Em contraste, Vigotski defendia uma escola que se abstivesse de isolar essas crianças e, em vez disso, integrasse-as tanto quanto possível na sociedade. As crianças deveriam receber a oportunidade de viver junto com pessoas normais” (VEER;VALSIENER), a qual, hoje esta luta nomea-se “inclusão”, onde antevir da oportunidade, agrega-se o valor de respeitar os limites e conhecer as diferenças pela sociedade, e juntamente apoiada pela Lei. (grifo de LUMIY,2009).
 (* encontrado o nome do autor escrito “Vygostsky”, “Vigotsky”, “Vygotski ” e “Vigotski”, padronizado para este texto “Vigotski”, conforme argumento do Prof.Achilles Delari Jr).

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Pessoas com deficiência visual: o usuário de celular e computador
Havia preparado durante a semana a aula de hoje (16/10/09) que seria referente a amizade e comportamento. Eu disse, “seria”, pois desde ontem recebi mensagens no celular, nos e-mails e no msn dos meus pequenos alunos que queriam uma atividade de raciocínio,  em outras palavras é brincar. Esses alunos são crianças que freqüentam a escola de apoio para pessoas com deficiência visual (DV) e também usuários potenciais de tecnologias, pois têm habilidades e agilidades para usar o celular e o microcomputador.
Com isso, neste texto explanarei algumas tecnologias relacionadas ao celular e microcomputador presentes no cotidiano dos DVs e uma das atividades realizada na aula com o tema “Ensinar o computador”, acerca de lógica e pensamento seqüencial.
Mary Radabaugh no “Study on the Financing of Assistive Technology Devices of Services for Individuals with Disabilities”(1993), menciona que a tecnologia facilita para as pessoas sem deficiência e torna possíveis para as pessoas com deficiência. A tecnologia possibilitou à PcD a realizar muitas tarefas e uma das áreas que proporcionou benefícios aos DVs foi a área de informação e comunicação (TIC). Antigamente, uns 20 anos atrás, os estudantes com DV usava-se fitas cassetes para gravar a aula ou alguém lia a apostila, além do uso do Braille para anotações. Atualmente, continua o uso do Braille e os recursos do microcomputador, scanner, celular, etc.
Para o uso do microcomputador existem softwares (programas) de ampliação de caracteres e alteração de cores  para pessoas com baixa visão e leitores de tela para as pessoas com DV total. Os programas leitores são NVDA, JAWS, VIRTUAL VISIO, ORCA, etc. Existem ainda, programa interativo com o usuário, no caso o DosVox desenvolvido pela Intervox (UFRJ) e programas para ebooks como Mecdaisy, Lida (FDN), Adobe Digital e outros. Normalmente encontro usuário de leitor de tela com o monitor desligado, usando o fone de ouvido e com a voz do leitor configurada na velocidade máxima. Este recurso favorece certa autonomia aos DVs no uso do microcomputador possibilitando editar e ler textos, enviar e receber e-mails, ler notícias, conversar no MSN, Messenger, Skype. Os leitores não lêem as imagens como foto,  desenhos e gráficos; e dependendo da tabela fica confusa a interpretação. Nem todos os sites da internet oferecem acessibilidade na navegação, contudo percebe-se certas mudanças para atender esse público especial.
Quanto ao celular, conforme os recursos do aparelho, memórias disponíveis e financeiros, pode-se instalar programas de falas, ampliação da imagem da tela, GPS, comunicação (Skype), leitor de tela, etc. Os serviços da operadora também são bem utilizados como de ver as horas e outros.
Tanto no micro ou no celular podem-se configurar a “fala” para que informe a tecla digitada, soletrar a palavra, ler pontuação, regular o volume, a velocidade e o tom da voz e mudar o autor da voz.
Por isso, a inclusão digital permitiu às pessoas com DV a estudar, trabalhar,… e principalmente estendeu o relacionamento entre as pessoas. No tocante, o usuário de micro consegue comunicar-se de diversas localidades num ambiente sem diferenças entre as pessoas. Para isso, existem várias instituições oferecendo cursos de informática para DVs  e em muitos casos são professores com DV que ministram a aula.  
As crianças, os meus pequenos, muitas vezes são eles que fazem as anotações no meu celular porque  segundo eles, demoro demais para adicionar contato novo.
Falando da turminha, uma das atividades da aula foi sobre pensamento seqüencial – lógica, com o tema “Ensinar o Computador”, um exercício para ordenar o pensamento relembrando os detalhes do dia a dia e como deve instruir uma informação. A princípio contei como o computador funciona e a importância do programador de se preocupar com o usuário. A atividade foi de um aluno ser o computador, o outro era o usuário do computador que perguntava e  executava a tarefa ou em chegar a algum lugar e os outros eram os consultores que  acompanhavam a execução e ao ocorrer erro de sequência pedia para o computador corrigir o seu programa. Fizemos várias tarefas como escovar os dentes, pegar um copo com água e chegar ao destino solicitado. No começo da atividade foi divertido, pois se esqueceram de abrir a tampa da pasta e o usuário passou o tubo da pasta fechado na escova,  enviaram o usuário em direção a porta fechada ou colocaram água no copo virado. Ao final, ficaram bons e a consultoria estava exigente e detalhista. A última sequência foi de traçarmos o trajeto para a lanchonete do shopping sem deslocarmos da sala, e nesta eu fiquei conhecendo os obstáculos do caminho como degraus e buracos que nunca havia reparado.(LUMIY,2009)

 ”… é justamente a Acessibilidade o eixo fundamental da equidade de direitos. Enquanto não tivermos contemplada a Acessibilidade, em todos os níveis, estaremos discriminando cidadãos que tem alguma diferença física ou sensorial. Uma sociedade justa se constrói com a igualdade, a liberdade, a justiça, a cidadania e as coisas básicas: moradia, alimentação, educação, saúde… E os desiguais devem ser tratados como desiguais, na justa medida dessa desigualdade.” (Marcio Aguiar, Conselheiro Titular da Conade – Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas Portadoras de Deficiência).

“Com certeza, de todos os sentidos com que somos aquinhoados ao nascer talvez o mais importante seja a visão, que nos permite aquilatar as benesses que nos cercam no mundo, a beleza da natureza que nos acolhe,  e distinguir os
rostos queridos de mãe, de pai, que nos enchem de afeto.   Todavia, o número de pessoas que ou por problemas congênitos, por doenças adquiridas ou por acidentes e desastres,  se vêem privadas de enxergar o mundo que as cerca é muito grande.   Felizmente, também, a tecnologia moderna tem progredido e equipado instrumentos importantes como computadores para enriquecer a vida de tantos irmãos privados da visão, lamentavelmente.” (Maria Amelia Vampré Xavier – Rede de Informações Área Deficiências Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo, Fenapaes, Brasília -Diretoria para Assuntos Internacionais),Rebrates, SP, Carpe Diem, SP, Sorri Brasil, SP, Inclusion InterAmericana e Inclusion International).

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Encontro com DV: uma aula de reencontro

Mais um dia feliz com a turminha especial e desta vez com algumas situações quanto a combinar um encontro, e também ao uso de gestos para saudar, pois são formas de comunicação que aprendemos desde criança vendo, observando e ouvindo outras pessoas fazerem, onde as falas e os movimentos são imitados, repetidos e incluindo o sentimento de contato amigável. É bem simples, mas como fazer que as mãos de duas pessoas DV se encontrem para dar o aperto de “como vai”, sem pairar por muito tempo no ar, ou ainda deixar de corresponder um com outro? Então, resolvi postar esta atividade, pois se desenvolveu tão bem, acrescentando curiosidades quanto ao comportamento social tanto para turminha como para todos que participaram. Neste texto, acrescentei um pouco de nossa convivência para demonstrar a importância do relacionamento e diálogo para integrar uma atividade. 

Há mais de 50 dias sem nos ver, primeiro, as férias escolares de inverno e seguidas de recessão devido à gripe H1N1, hoje (21/08/09) reencontrei com os pequenos da escola especial para pessoas com deficiência visual. Fizemos uma atividade diferente, pois estavam conosco dois professores, o Bill da escola e a Jana do IPC, eles são DV totais; e nem sempre temos a oportunidade desta companhia. O tema trabalhado foi “Encontrar e saudar” e com objetivo de abordar em como marcar um encontro entre pessoas com deficiência visual e também quanto aos tipos e formas de cumprimentar. A motivação que levou a este contexto foi a observação de vários desencontros por falta de combinar melhor para um encontro, pois mesmo para as pessoas que enxergam com os olhos, se não for bem definido, poderá levar horas para encontrar, principalmente quando o local marcado é amplo. Dando a continuidade do encontro, completamos com saudações nos aspectos do uso de gestos e significados culturais.

Antes de começarmos a atividade, normalmente conversamos sobre as novidades da semana e desta vez falamos da gripe quanto aos cuidados, da pneumonia, da vacina, das aves, dos suínos, dos cavalos e tudo mais relacionado ao assunto. É interessante o fato das crianças colocarem as dúvidas, ainda que os professores já tenham explanado durante a semana na escola; isso mostra certa preocupação sobre a gripe, onde eles ouviram as informações por vários canais e queriam esclarecimento, como a pergunta sobre a diferença entre medicamento e vacina ou ainda se H1N1 é gripe ou pneumonia? Vejam que são perguntas boas e a faixa de idade deles é entre 11 a 16 anos.

Para a atividade de marcar um encontro, colocamos um caso com todos os problemas possíveis: um encontro com mais de 30 pessoas no rodízio de pizza que fica em Santa Felicidade, lembrando que a estação de ônibus do local é um dos maiores terminais da Capital e a pizzaria fica a três quadras da estação com avenidas de alto tráfego. Perguntamos quando, como, onde, etc. Abrimos um tipo de fórum para cada participante dar uma sugestão para cada questão, era argumentando ou contra argumentado e fechávamos com a melhor opção pelos professores que acrescentavam suas experiências. Como resultado desta atividade, coloco as principais soluções: anotar as informações do encontro para não esquecer e comunicar aos pais, marcar um ponto específico conhecido pela maioria, localizar um funcionário do terminal para conduzir ao local do encontro, reservar as mesas na pizzaria, etc.

Foram apresentados, de acordo com os costumes de vários países, diferentes tipos de gestos para cumprimentar, o uso no esporte, quando e como usamos e a prática de alguns. Para o caso das mãos de duas pessoas DVs encontrarem, a melhor solução foi de informar a ação ou esticar a mão lentamente estalando os dedos e seguindo em direção ao som dos estalos do outro ou um só estala os dedos para que outra pessoa localize a mão. Quanto à expressão no rosto, foi unânime a escolha do sorriso.

Assim foi o dia e até dar o horário prosseguimos com “Imaginação”, uma brincadeira para entender áudio-descrição, e esta brincadeira deixarei para os próximos posts.

Deixo uma observação para acontecer esse tipo de atividade de forma divertida e todos participando, é muito importante já ter as soluções e argumentos, pois as crianças, pelo menos esta turminha, são espertas – só não enxergam com os olhos. É interessante também, preparar esta atividade em várias versões, com perguntas conforme a idade do pessoal que participa. (Lumiy,2009) Mais informações na página de Estudos/AVAS:Postura e Gesticulação.

 

“A maior dependência do mundo externo é vista por uma constante necessidade de reafirmação e da dificuldade do cego em manter sua auto-estima quando não sente resposta afirmativa do ambiente.(…) o desejo de independência leva-os a não pedir ajuda, mas a tentativa de fazer sozinho demanda um tempo muito maior de realização.” (Amiralian,1997)

 

 

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“A condição humana é, em si, uma condição de deficiência. Mas essa condição também carrega em si um poder de superação das limitações. Então a gente tem que confiar nesse potencial humano que todos nós temos…”

Deficiente visual é pioneiro em cargo da magistratura Ricardo Tadeu Marques da Fonseca foi nomeado na última semana pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, para o cargo de desembargador do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 9.ª Região Curitiba-PR  (Redação: Allan Costa Pinto)

Primeiro e até agora único deficiente visual a alcançar um cargo da magistratura, o ex-procurador do Trabalho Ricardo Tadeu Marques da Fonseca abriu as portas de seu gabinete para uma conversa com O Estado. Fonseca, que já teve o sonho de entrar na carreira adiado por uma banca de concurso em São Paulo – a qual justificou que ele não poderia ser juiz por ser cego -, foi nomeado na última semana pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, para o cargo de desembargador do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 9.ª Região. Entre outos assuntos, o desembargador relata suas expectativas em sua nova função. Casado e pai de duas filhas, ele, que teve uma atuação destacada como membro do Ministério Público, também fala sobre como o seu poder de superação e o apoio de familiares e amigos foram fundamentais para sua ascensão profissional.

O Estado – Como o senhor ficou cego?
Ricardo Fonseca – Perdi a visão por causa do agravamento de uma doença originária do nascimento prematuro. Nasci aos seis meses de gestação e aos 23 anos acabei perdendo totalmente a visão por causa de um agravamento chamado retinopatia da prematuridade.

OE – De que forma o fato de ainda jovem ter ficado cego mudou sua vida?
RF – Aprendi que todos nós somos dependentes reciprocamente uns dos outros. Os meus colegas me ajudaram muito na faculdade. A minha mulher, que na época era minha namorada, deu um apoio emocional que foi fundamental, assim como a minha família. Ou seja, eu fui amparado devidamente por um grupo social que ia desde os meus colegas até a minha esposa.

OE – Ter perdido a visão seria mais uma barreira ou um fato motivacional para o sucesso da sua carreira profissional?
RF – As duas coisas. Ao mesmo tempo em que foi um obstáculo, que me assustou, me motivou a lutar. Primeiro, eu passei a levar mais a sério a escola e a vida. Foi tanto um obstáculo quanto uma alavanca.
OE – Qual é sua expectativa para sua nova função?
RF – O direito do trabalho em geral sempre me atraiu muito. Estou muito feliz agora por ser um juiz. Porque eu já fui advogado, já fui do Ministério Público e agora ocupo a magistratura. Então eu já ocupei todas as posições que alguém pode ocupar na Justiça do Trabalho e isso me orgulha muito.

OE – Como o senhor foi recebido pelos seus novos assessores e pelo TRT9?
RF – Eu agradeço ao Tribunal Regional do Trabalho da 9.ª Região, que sempre foi uma corte de vanguarda no Brasil, séria e respeitada pelos seus entendimentos. A indicação pelo tribunal ao presidente Lula muito me honrou. O fato de eu estar aqui hoje é motivo de orgulho e de felicidade.

OE – Atualmente, quais são os assuntos mais comuns que passam pelo seu gabinete? Há algum assunto que mais lhe preocupa?
RF – Eu sou muito novo aqui ainda. Estou chegando agora e não posso dizer quais são as matérias mais incidentes. É a primeira semana de trabalho. Estou tomando pé das coisas administrativamente ainda e não dá para afirmar nada sobre isso.

OE – O senhor publicou recentemente um artigo sobre assédio moral, assunto que há algum tempo não era muito difundido, tanto para trabalhadores como para as empresas. Ainda falta uma orientação para a população sobre o assunto?
RF – Sim, falta. O assédio moral é uma figura que foi discutida nos anos 90 pela primeira vez por uma psicóloga francesa chamada Marie France Hirigoyen, que contextualizou o desvio que é o assédio moral. É claro que o empregador exerce sobre o empregado um poder, legitimamente reconhecido pela lei. Trata-se de um poder diretivo das atividades profissionais desse trabalhador. Mas muitos confundem esse poder diretivo com um poder pessoal e acabam afetando a autoestima, a dignidade e a autoimagem do trabalhador com palavras agressivas, com gestos ofensivos ou com métodos que acabam expondo as pessoas que não têm um desempenho esperado. Isso, desde 1988, passou a ser defendido no Brasil porque o direito se volta à defesa da personalidade, desde então. E a personalidade, a dignidade e a autoconfiança do trabalhador não podem ser abaladas pelo poder diretivo do empregador. Quando esse exercício se desvirtua e agride o trabalhador, isso se caracteriza como assédio moral.

OE – O Poder Judiciário tem se envolvido na resolução dos problemas trabalhistas que dizem respeito a pessoas portadoras de necessidades especiais?
RF – Nós temos no Brasil uma ação afirmativa bastante rigorosa da lei que determina que empresas com mais de cem empregados contratem pessoas com deficiências em percentuais que variam de 2% a 5%, dependendo do número de trabalhadores da empresa. E também a Constituição determina que a administração pública reserve vagas nos concursos públicos para essas pessoas. No entanto, embora essas leis sejam bastante antigas, o Brasil ainda está um pouco longe de atingir todo o público alvo, ou a população com deficiência que seria economicamente ativa. Mesmo assim, houve grandes avanços. Segundo as últimas estatísticas do Ministério do Trabalho, nós já temos 348 mil pessoas com deficiência empregadas na esfera privada. No setor público esse número também vem crescendo progressivamente.

OE – O que ainda precisa ser melhorado nesse sentido?
RF – Eu acho que é uma questão cultural. As pessoas precisam aprender a ver na diversidade humana uma riqueza, não uma falta de força. As pessoas com deficiência têm eficiências que podem ser descobertas, desde que se propicie o método e o instrumento adequados para isso. É uma questão cultural. No Brasil as pessoas com deficiência são isoladas em guetos institucionais e isso precisa ser mudado.

OE – Isso seria uma questão de preconceito?
RF – Não acho que é uma questão de desconhecimento social. É cultural.

OE – Quais as dificuldades que o senhor, como deficiente visual, encontrou durante a sua ascensão profissional?
RF – Todas. Era muito difícil trabalhar em empresas, apesar de o meu currículo ser diferenciado. Era muito comum eu ser convocado pelo currículo e, na hora da entrevista, era barrado pela falta de visão. Isso aconteceu em concursos públicos. Mas, de qualquer forma, eu continuei lutando. Eu sinto que a geração mais nova de pessoas com deficiência visual, hoje, tem muito mais independência do que eu tinha, porque estão mais afeitas a lidar com programas de voz, com os quais eu mesmo ainda não aprendi a lidar. Vou aprender agora, no tribunal.

OE – Como é a sua rotina de trabalho? Como o senhor delibera o trâmite dos processos?
RF – Normalmente os meus assessores leem para mim o que está nos autos e eu decido a partir dessa avaliação oral. Eu vou ter uma pessoa designada exclusivamente para ser o meu leitor. E, paralelamente, eu estou treinando a utilização de programas de sintetização de voz em computadores porque há uma tendência de os processos serem todos digitalizados nos próximos dois ou três anos. Então eu penso que, com um pouco de prática, terei mais autonomia também.

OE – Qual é a mensagem que o senhor deixa para as pessoas que têm a mesma limitação que a sua, ou outras necessidades?
RF – A condição humana é, em si, uma condição de deficiência. Mas essa condição também carrega em si um poder de superação das limitações. Então a gente tem que confiar nesse potencial humano que todos nós temos.

 

Fonte: Redação: Allan Costa Pinto. Disponível: ParanáOnLine. http://www.paranaonline.com.br/editoria/cidades/news/390749/?noticia=DEFICIENTE+VISUAL+E+PIONEIRO+EM+CARGO+DA+MAGISTRATURA
 

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Um objetivo, novas habilidades, novas conquistas.

Uma linda história, contada por Fernando José (Portugal), repassada pela professora Marta na lista do Fórum Inclusão e não poderia deixar de postar aqui. É uma conquista que se passa de forma tão natural; e, esse é o ponto de saber conduzir de forma simples, apresentando as possibilidades para adquirir novas habilidades sem desviar/mudar do objetivo.

 ”(…)  uma história que nos anima a continuar na luta, a despeito de tantas dificuldades.” (GIL,M.A.,Comentário e repasse da história na lista do fórum inclusão,2009)

 “Olá! Chegou também a minha vez de ser jornalista e contar uma história de que tomei conhecimento. A coisa começou assim. Estando uma manhã na Escola, recebi um telefonema de um senhor que me pedia uma entrevista. Motivo? O seu filho cegara repentinamente, fruto de uma  indisposição súbita que lhe provocou uma queda. A coisa dera-se em maio.  Depois de curar as outras lesões sofridas no rosto, segundo me informava, estava na hora de tomar as medidas certas. Acordámos o dia da entrevista. Ficou combinada para casa do jovem. Falámos e  decidimos tomar medidas. Soubemos que estudava no 12º Ano. Frequentava um curso na Área da Economia. O problema era como prosseguir os estudos. Como eu ia armado de umas ferramentas para estas situações, o trabalho começou logo. O computador lá de casa deu em falar! – Pasme-se! Por outro lado, marcou-se uma segunda reunião, agora a realizar na Escola, com o objectivo de se prosseguir com os estudos sem perda de ano, pois já bastara não ter podido realizar os exames nacionais no que agora findava. Foram decididas rapidamente medidas com o fim de preparar o próximo ano lectivo. Começaria a aprender Braille numa instituição ao lado da Escola. A Informática receberia um reforço enorme, utilizando-se um leitor de ecrã. Com autorização das autoridades responsáveis, criou-se uma turma com o seu nome, porque a Escola, que é de referência para a deficiência visual, não tinha a Área de Economia. O objectivo de tudo isto seria que a vida escolar do aluno não viesse a sofrer mais sobressaltos e ele passasse gradualmente para a vida de estudante cego, já que abandonara a vida de normovisual tão fatal e repentinamente. O programa foi elaborado, a Escola, o Ministério, a Família e a instituição que fica logo ali ao lado articularam, complementaram, flexibilizaram objectivos, medidas, actividades e resultados; e o ano foi fluindo, foi fluindo com muita vontade, muito trabalho e muita responsabilidade por parte de todos. Houve Braille, houve mobilidade, houve informática… e houve conversa, leitura e discussão; os motes eram os livros, a música, a Filosofia, a política… E de repente já era Junho deste ano! E de repente já havia exames para realizar! E de repente estava tudo preparado, tudo preparado para serem realizados todos os exames necessários para o acesso ao Ensino Superior… Os resultados ainda não saíram… Até por faltar ainda o exame de matemática, que acontecerá na terça-feira próxima. E todos sabemos que haverá um grande sucesso para ser festejado! É um sucesso que será de todos, mas que será sobretudo dele, que soube com  inteligência aproveitar o que a vida, afinal, lhe queria dar! Perdoa, amigo, por ter contado a tua história sem te pedir autorização. É que, para ta pedir, falta-me a coragem. E falta-me porque sou incapaz de avaliar o que tu sofreste, porque eu fui sempre cego e não sei o que é tornar-se assim de repente, eu que fui assim sempre. Vou enviar esta mensagem para o teu endereço no campo dos endereços ocultos. Perdoa se te faço sofrer, mas o teu sucesso, porque ele é sobretudo teu, meu amigo, deve ser contado e cantado, mas com outras palavras que não as minhas (sim com as palavras que vais usar no exame de matemática com que fecharás o ano lectivo); e deve sê-lo em face de tanta pouca vergonha, de tanta hipocrisia, de tanta desinformação a que assistimos. Hoje, quando qualquer berro, qualquer bebedeira, qualquer passo que um deficiente dá pode cair num jornal, numa televisão ou numa rádio, tu foste capaz de realizar algo de extrema dificuldade e sem ruído, com dignidade e sem humilhação. Mas exemplos como o teu não caem nos jornais, nem nas rádios, nem nas televisões,porque são de tal modo grandes que nunca seriam compreendidos por uma sociedade baseada na caridade disfarçada, no aproveitamento que humilha, no dar voz que amesquinha… Continua assim silencioso e desculpa o barulho que possa fazer esta minha mensagem na calma que te desejo enquanto te preparas para o teu último exame do Ensino secundário. Um abraço de quem admira o teu exemplo de coragem e nunca esquecerá a tua história de vida, que, se fosse o espelho de muitos deficientes, as nossas lutas de hoje já estariam há muito tempo vencidas! Fernando Jorge.”

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Novas amizades, novos aprendizados

Esta estorinha escrita pelos professores Sonia e Eduardo (2007) comenta sobre pessoa com deficiência visual de modo fácil entendimento, abordando o cotidiano e principalmente a mobilidade.

Carla aguarda para a travessia da rua. O trânsito está intenso e ela ouve apenas pessoas indo e vindo, apressadas. Decide, então, solicitar auxílio ao ouvir passos mais lentos se aproximando, os quais considerou serem de mulher porque soavam como de sapatos de saltos altos.
“Mas, em caso de dúvida, mantenha uma fala neutra”, lembrou-se ela de um dos sábios conselhos de Rosália, sua professora de Orientação e Mobilidade.
– Por favor, pode me auxiliar na travessia desta rua?
– É claro, respondeu uma jovem, enquanto pegava na mão de Carla. Só vamos esperar a sinaleira abrir para nós.
– Obrigada, mas para me sentir mais segura é possível eu pegar no seu braço?
E assim falando, Carla já estava realizando a manobra de pegar suavemente o punho da jovem com a mão que segurava a bengala – e que agora estava apenas com ela presa pela alça em seu próprio punho, enquanto sua outra mão realizava a pega no braço da jovem, na altura do cotovelo.
“Santa Rosália, que sempre insistia: coloca a alça da bengala no punho quando for atravessar a rua, menina; assim não há perigo dela cair no meio da travessia”, lembrou-se novamente ela de um dos conselhos da professora.
As duas jovens atravessaram a larga avenida e, somente na calçada do outro lado, Carla soltou o braço da sua colaboradora e agradeceu.
– Daqui em diante, sabe ir sozinha?
Carla deu um breve sorrisinho para si mesma, pois aquela pergunta ouvia tantas vezes quantas solicitasse um auxílio necessário.
– Sim, obrigada. Daqui em diante, sei o caminho até o shopping.
– Ah, eu também vou até lá fazer umas comprinhas. Podemos ir juntas!
– Legal, vou gostar de uma companhia! Posso, então, pegar no seu braço novamente?
– Tudo bem, mas você me orienta se eu estiver fazendo alguma coisa errada… Sabe como é… eu não sei muito bem estas coisas de ajudar uma pessoa… pessoa.. bem, alguém que não enxerga.
E lá se foram as duas para o shopping.
– Como é o seu nome?
– Carla, e o seu?
– Mônica. Eu tenho 16 anos, e você?
– Ah, eu tenho um ano a menos. Tenho 15 anos.
– E não tem medo de sair assim pela rua sozinha, só com estabengalinha… Como é que eu chamo? Digo bengala mesmo?
– Sim, o nome correto é bengala. Com ela, me sinto independente e mais segura. Fiz um curso pra usá-la. Ele se chama curso de Orientação e Mobilidade, também conhecido como OM.
– Tipo uma autoescola para dirigir uma bengala? – brincou Mônica.
– Mais ou menos assim, mas não levo multas e nem pontos na carteira, respondeu Carla, sorridente.
– Nem a co-piloto, disse Mônica, rindo.
– Ei, Carla, logo ali adiante já começam os degraus da entrada do shopping. O que eu faço?
– Hummm, acho que seria uma boa ideia a gente subir, não é?
– Bem-humoradinha, hein, Carlinha!? Gosto de pessoas assim! Eu tinha uma outra imagem das pessoas cegas.
– Que imagem?
– Ah, eu pensava que toda pessoa cega fosse meio triste, de mal com a vida, pelo fato de não enxergar… Sabe, uma vez fui ajudar um rapaz cego, que além de estar com uma aparência tristonha, ainda recusou minha ajuda com um jeito bem grosseiro.
– Mas, Mônica, a gente não pode generalizar. As pessoas cegas são diferentes entre si, assim como as pessoas que enxergam, que são surdas, que usam cadeiras de rodas. Cada um tem a sua personalidade, o seu jeito de ser. De repente, naquele dia, aquele rapaz estava de mal com a vida por algum outro motivo e não porque ele é cego. Às vezes as pessoas confundem e acham que a cegueira é o único motivo pra nós ficarmos tristes, preocupados ou zangados.
– Não tinha pensado desse ponto de vista… tem razão. Como eu sou burrinha, hein!
– Não, não diga isto. Você apenas, como muita gente, ainda não recebeu informações adequadas sobre como se relacionar com as pessoas com deficiência.
– Bom, vamos subir?
– Vamos, sim, respondeu Carla.
– Um, dois, três, quatro…
– O que está fazendo, Mônica?
– Contando os degraus, Carla, pra você ficar sabendo quantos têm. Só faltam mais 4.
– Ora, não é preciso isso. O movimento do seu corpo já me informa quando termina a subida da escada, assim como também me informa quando termina a descida e tantas outras coisas que acontecem pelo caminho. Viu, chegamos ao final e nem foi preciso me dizer que a escada havia acabado, seu movimento foi mais rápido do que a palavra!
– Puxa, quanta coisa estou aprendendo… E a gente nem para pra pensar como existem outras maneiras de conseguir fazer as coisas. As pessoas que enxergam acabam dando muita importância pra visão e se esquecem de que os outros sentidos também são importantes. E agora, em que loja você vai?
– Vou na Reflexus, no segundo andar.
– Ah, aquela loja de roupas femininas?
– Sim, na semana passada deixei uma saia aqui pra fazer a barra e hoje vim buscar. Vou aproveitar e comprar uma blusinha que vi da outra vez.
– Você viu?… Como assim?… Como é que escolhe a roupa, a cor, o modelo?…
– Calma, uma pergunta por vez! Escuta, aqui já está a escada rolante.
– Sim, estamos bem em frente à escada-rolante. Como você adivinhou?.. . E como posso te auxiliar neste tipo de escada?…
– Eu não adivinhei, ouvi o barulho característico que ela faz; e basta Colocar minha mão no corrimão que o resto eu mesma faço.
– Tá certo, entendi.
Em frente à loja, as duas jovens se despedem.
– Gostei muito de você, Carlinha! Vamos continuar esta conversa em outro dia?
– Vamos, sim! E como pode ser isto, Mônica?
– Bem, meu MSN é… Ah, desculpe, estou tão acostumada com essas coisas de internet que nem lembrei que…
– Ah, não tem problema, Eu também adoro um computador! Quer anotar o meu MSN?
– O quê? Cegos também usam computador?
– Esta e todas as outras perguntas sobre as pessoas cegas lhe responderei pelo MSN, ou você prefere receber pelo Skype, ou por e-mail? indagou Carla, muito sorridente.
– Seremos boas amigas pelo jeito, Carlinha!!!

 

Texto de Sonia B. Hoffmann e Eduardo Paes
Rio de Janeiro, janeiro de 2007

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Um processo com sensibilidade e emoção, supera qualquer dificuldade …

 Muitas vezes é mais fácil dizer um “não” ou “é difícil” para desistir das ideias que surgem sem qualquer elaboração subjetiva. Mas, tem casos que os desafios são verdadeiras oportunidades para aprender na prática, aplicar seus conhecimentos e superar as dificuldades, principalmente, por coincidência, eu havia recebido uma mensagem construtiva, cheio de conceitos de um amigo e Prof. Paulo Ross durante a semana, referente a uma outra abordagem e que coloca em atenção para este acontecimento – nada é por acaso! Desta vez, abordarei este assunto aprofundando um pouco mais nos detalhes.   Sou voluntária de uma instituição e a amiga Fer, resolveu derrepente, na sexta-feira, 05 de junho, fazer um bolo de chocolate com sete crianças da 3ª e 4ª série do ensino fundamental que freqüentam aulas de apoios para alunos com deficiência visual. Eu vivo num ambiente de planejamento, programação, processos, aplicação de melhorias contínuas (JIT), e isso parecia inconcebível, pois estavamos sem receita, sem ingredientes, sem ferramentas adequadas (batedeira, assadeira, etc), o forno nunca havia sido testado, e ainda, a Fer afirma que o bolo dela sai errado e eu só sei fazer bolo de caixinha. Contudo, por que não?..! Lá estávamos, na pequena cozinha em nove pessoas, sendo quatro com cegueira (dvt), quatro com baixa visão (dvb) e eu. Providenciamos os ingredientes, bacia, copo, colher, etc; tudo no improviso precário. Pedi para as crianças lavarem as mãos e a turminha dvb ficou de um lado da mesa, a minha frente e os dvt formaram fila ao meu lado. Começamos com os ovos, cada dvt colocou as mãos deles nas minhas para observar os meus movimentos e depois todos repetiam sozinhos. Para cada etapa, cada um executava uma função de colocar um ingrediente ou de bater a massa com o garfo. A massa do bolo ficou bem batida, cada criança batia um pouco para cada ingrediente colocado e neste caso, no início, eu segurava a mão dele para mostrar a forma de movimentar o garfo, conforme o ingrediente e a outra mão segurando a bacia. Para cada etapa, todos colocaram o dedo na massa para verem a quantidade e a consistência, onde sairam muitos comentários da sensação, do gosto, do cheiro, e outros. Quando a massa ficou pronta, o forno estava aquecido e esta foi a única parte que as crianças não participaram, de colocar e retirar a assadeira do forno. Enquanto o bolo assava, todos participaram na limpeza, pois tinha farinha, leite, chocolate,… em tudo e em todos. Enfim, ficou pronto e diria que nesse dia, todos os anjos da face da Terra estavam convocados para realizar esta missão, pois o bolo cresceu uniforme e macio. Conclusão: estava gostoso, foi o primeiro bolo da turminha, o melhor de todos e faltou bolo!                   

 “Quanto ao caso de relacionamento com pessoas e objetos, nós devemos deixar as pessoas acessarem algumas das dificuldades para tocarem a emoção, de o superar e o realizar, pois o processo importa mais que o resultado. (…)  é preciso dar autonomia total, mesmo que isso cause queda, respingos,  falhas, imperfeições, pois disso são feitos os acertos!” (ROSS, Paulo R. “Partes das frases do e-mail para Lumiy”, junho/2009).

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Vidente ou invisual, a imagem é constituída conforme informações adquiridasMa362

BL  completou 9 anos e está na 3ª série do ensino fundamental. No texto da foto, ele usou a reglete dele e com habilidade e rapidez, descreveu o avião. Depois, ele veio ler o texto com as suas mãos. Encontramos alguns erros, mas, o contexto estava ótimo. Tudo dentro da normalidade, conforme a idade e um ótimo cognitivo.  BL tem deficiência visual, cegueira desde bebê, e descreveu o avião como o vê na sua percepção, conforme a recepção da informação que constituiu a imagem;  e afirmo que a  descrição do avião, se não fosse pelo uso do Braille, não desconfiariamos que foi elaborado por um invisual. BL nunca esteve em contato com avião, contudo descreveu o seu interior e o exterior, como voa e aterriza e inclusive a função da caixa preta. Um dos sonhos de BL é viajar num avião.

Como ler e escrever no Sistema Braille

“Quando abrimos nossos olhos todas as manhãs, damos de cara com um mundo que passamos a vida aprendendo a ver. O mundo não nos é dado: construímos nosso mundo através da experiência, classificação,  memória e reconhecimento incessantes” (Sacks,1995) .

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Através de uma trilha: o envolvimento, a compreensão, a interação – então é inclusão!

A princípio pensei em transcrever esta experiência somente como pesquisa, pois se encaixa num estudo de caso abordando a inclusão e a visão através de outros sentidos, porém surgiram tantos elementos variáveis envolvendo as diversidades e ainda as emoções, que resolvi expor parte do acontecimento, externalizando um dia perfeito na escola de educação especial para alunos com deficiência visual (DV).  Trilha1A idéia de construir a trilha dos sentidos foi do nosso amigo Ranulfo (cego), colaborador da Sanepar (*). Inicialmente o objetivo da trilha foi expor o caminho da água e o meio ambiente de forma diferente para os funcionários no museu da Sanepar. A trilha é bem simplícia para o olhar, estruturada com muitos significados e antes de entrar nela, a pessoa é vendada para assistir, ou melhor para sentir, acompanhada por uma pessoa que explica o roteiro. A trilha foi tão bem elaborada que foi inevitável o convite para expor na escola. O Ranulfo e a sua equipe aceitaram de prontidão, seria para eles a primeira experiência com público diferente e entenderam a importância de levar as informações para as crianças, pois envolve além do caminho da água, a preservação da natureza, o desperdício da água e outros importantes fatores do meio ambiente para conscientização aos nossos futuros adultos. Acredito que não existam profissionais mais entendidos sobre a distribuição da água que os próprios funcionários da Sanepar. Todos os alunos e professores entraram na trilha e ficaram encantados em sentir e de aprender. O segredo da trilha estava mesmo no Ranulfo, mais do que o conhecimento profissional, a forma de ele conduzir e transmitir a informação transformava numa aventura espetacular e isso também se tornou em aprendizado aos professores. Ranulfo conduzindo a MônicaDurante o evento fiz entrevistas com todos e qual foi a minha surpresa quando vi o Guilherme emocionado após acompanhar uma das alunas na trilha – ele dizia que foi somente para ajudar a montar a trilha; a Ana, a bióloga, tinha outro compromisso e ameaçava em ir embora, mas ao ver o próximo aluno na fila de espera, largava tudo para entrar junto na trilha. Enfim, no começo havia certo receio para entrar em contato com DVs, mas percebendo que eram crianças iguais aos outros, estavam todos empenhados para atendê-los. Ao terminar, fiquei conversando com o pessoal da Sanepar sobre DVs  e via-se um ar cansado e satisfação interior estampado no semblante de cada um. Ficamos combinados em fazer uma trilha maior para atender público além da escola, isso quando começar a primavera, o clima é mais quentinho e não judiaria das crianças para mexer na água, diz Ranulfo.     

 ** Obrigada Ranulfo, Ana, Guilherme, Jefferson e a Sanepar.

   (*) Sanepar é empresa pública responsável pela distribuição de água e saneamento no Paraná.

  “A aprendizagem, enquanto construção do conhecimento, pressupõe entendê-la tanto como produto, quanto como processo. Assim, não importa apenas a quantidade de conteúdo, mas a capacidade de pensar, interagir, aquilo que é capaz de fazer, interpretar, compreender. A qualidade do conhecimento liga-se à possibilidade de continuar aprendendo. Assim, quando o aluno aprende, não se deve levar em conta apenas o conteúdo do conhecimento, mas também como se organiza e atua para aprender.” (ROSS, Paulo R.”Conhecimento e Aprendizado Cooperativo na Inclusão”,2004).

 “Não há um aprendizado para a pessoa normal, outro para a pessoa com alguma deficiência: o aprendizado em cada caso, se dá pela superação das dificuldades ou obstáculos. O aprendizado, em cada caso, pressupõe a aquisição de ferramentas da cultura, que nos possibilitem transpor ou contornar uma dificuldade ou obstáculo. O aprendizado não é diferente para um ou outro caso. Em qualquer situação, as ferramentas da cultura têm de ser oferecidas, de modo que possam ser assimiladas pelos alunos, nas suas peculiaridades. Não se pode simplificar o ensino, deixando de oferecer a riqueza cultural que nos possibilita resolver os problemas. A superação das dificuldades se faz com instrumentos da cultura, que podem compensar os efeitos da deficiência. A deficiência sempre vai produzir a compensação, mas a compensação pode estar direcionada, por um lado, à superação da deficiência ou, por outro, à valorização da deficiência, na medida em que se quer garantir o ganho secundário que a própria deficiência proporciona.” (PENA,Gil.”Inclusão para a autonomia”,2009).

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método ideal para o estudo: pesquisa-ação, estudo de caso ou survey

Quando se envolve várias áreas de estudos em um projeto, pode-se pensar em dividi-lo em partes conforme o método que será aplicado, desde que tenha o cuidado no momento de interseção. Existem casos os quais são importantes os valores quantitativos e o não envolvimento do pesquisador. Já em outros, principalmente quando o estudo está relacionado ao homem, ciências sociais, percebe-se que os valores são diferentes, qualitativos, e há necessidade de observação ¹, ou até participação, do pesquisador para compreender o estudo. Além disso, vale ressaltar também a investigação ulterior, como no caso de desenvolvimento da criança, em que o esclarecimento das peculiaridades hereditárias, do ambiente durante o desenvolvimento uterino são informações que somam ao estudo. Uma pré-análise no conteúdo do projeto poderá esclarecer e justificar a escolha da metodologia a ser aplicada e trazer um resultado condizente da investigação. ** Obs.:  Além da metodologia, tenha um orientador que enxergará os passos à frente dos seus – ele te conduzirá o melhor caminho a seguir,  como no meu projeto em que envolvo a tecnologia, a tecnologia assistiva, a informática,  a inclusão social e a deficiência visual.

“A tarefa da metodologia não consiste só em aprender a medir, senão também em aprender a ver, a pensar, a relacionar; e isto significa que o excessivo temor aos chamados momentos subjetivos na interpretação e a tentativa de obter os resultados dos nossos estudos de modo puramente mecânico e arítmético (…). Sem a elaboração subjetiva, isto é, sem o pensamento, sem a interpretação, sem a decifração dos resultados e o exame dos dados, não exite investigação científica.”  (Vigotski, “Obras Escogidas, Tomo 5”, 1997)

(1) Do observador, (….) ” a essência de um estudo de caso, a principal tendência em todos os tipos […], é tentar esclarecer uma decisão ou um conjunto de decisões: o motivo pelo qual foram tomadas, como foram implementadas e com quais resultados. (Schramm apud Ying, “Estudo de Caso – Planejamento e Métodos”, 2005) 

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