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Posts Tagged ‘lei de cotas’

Trabalho de pessoas com deficiência no chão de fábrica é começar, relacionar, interagir, …

Uma das responsabilidades gerenciais de uma fábrica é a gestão de pessoas para trazer vantagens competitivas, principalmente numa empresa com cultura de Sistema Toyota de Produção ou Manufatura Enxuta, onde aponta-se para qualidade do produto, otimização do tempo, redução de custos e outros. Neste horizonte, aparenta-se que somente pessoas de muitas habilidades e capacidades possam pertencer ao quadro de funcionários, porém não é bem assim que funciona a busca da melhor produtividade quando relacionada às pessoas, verificando-se a importância da diversidade num grupo e a necessidade da formação de equipe integrada, pois não se aplicam mais o pensamento linear de produção;  todos são comprometidos desde o início do projeto até o produto chegar na mão do usuário. Com isso, coloco aqui parte de um dos casos reais envolvendo pessoas com deficiência (PcD) no chão de fábrica, onde acompanho há muito tempo e como resultado trouxe melhoramentos na empresa.

 A empresa é uma indústria na área de autopeças e funciona em três turnos. Seus funcionários sempre participam de atividades extras como cursos e palestras para atualização e ampliação de conhecimentos, e com a lei de cotas para pessoas com deficiência foi-se atrás desta questão não só para cumprimento da lei, mas em como colocar PcD no posto de trabalho e principalmente o entrosamento entre os funcionários.

Uma das questões foi: Como preparar o pessoal a receber seus novos colegas, pessoas com necessidades especiais?  A recepção de um novo integrante é importante para o treinamento de sua função, conhecer a política e as dependências da empresa, os colegas de trabalho, etc. Percebeu-se que nesta pergunta o problema não era a recepção e sim a falta de contato, o desconhecimento da capacidade de um indivíduo e mais ainda mostrar que estava lidando com ser humano igual aos outros. Para este caso foi montando uma dinâmica simples de baixo custo para os três turnos. Num lado da sala foi colocada uma caixa com peças de fácil manuseio, encima de um banco, e do outro lado uma caixa fazia. A atividade consistia em transferir as peças de uma caixa para outra em dupla, sendo uma pessoa para acompanhar, ajudar e instruir e a outra de executar a tarefa, onde uma vez com os pés amarrados, depois com os olhos vendados e por último com as mãos amarradas.  Depois trocando de posição. Terminado, reuniu-se todos e foram colocadas as perguntas para reflexão: você continua sendo a mesma pessoa com a mão, pés ou olhos atados? Aprofundando a pergunta, supomos um desastre e suas pernas são amputadas, você continua sendo um ser humano? Com os olhos vendados sentiu confiança no seu instrutor? E como instrutor, percebeu a necessidade da clareza para comunicar? E, assim sucedeu a atividade e colheram-se muitas respostas com sugestão para acessibilidade dentro da empresa. Para a questão de confiabilidade e comunicação no primeiro contato, decidiu-se fazer a PcD antes da contratação, caminhar no meio da fábrica e almoçar no refeitório, isso com o seu acompanhante se estiver junto (normalmente é alguém da família), desta forma pode-se esclarecer vários pontos, inclusive a sua decisão de trabalhar na empresa . Os primeiros dias de uma PcD na empresa foi de muita atenção a ela, que ficou conhecendo até o time de futebol que cada um torcia.

Agora, conto-lhes alguns melhoramentos que ocorreram após a entrada da PcD:  no lay-out da fábrica é interessante as máquinas, ferramentas e todos os objetos estarem dentro dos locais demarcados por questão de segurança e agora os corredores ficaram mais alinhados e totalmente limpos com passagem para uma cadeira de rodas. Há muito tempo via-se a necessidade de melhorar o controle visual das instruções, o kanban, e agora parte do líder do setor para fazer, pois facilita na comunicação entre os integrantes, principalmente para pessoa com surdez.

Quanto a produtividade, não houve quedas e percebeu-se a motivação para melhorar o setor quando envolve-se ajuda ao colega que está ao seu lado, e também um certo crescimento interior. Muitos colaboradores ficaram interessados em aprender libras, conhecer as causas da deficiência e outros assuntos interligados.  

O relacionamento cotidiano com a PcD trouxe entendimentos como respeitar diferenças e para o trabalho em equipe viu-se as regras são as mesmas de cooperativismo, flexibilidade, bom humor, empatia, comprometimento, etc. Com isso, a tal inclusão no chão de fábrica, nada mais é do que ter um bom relacionamento e interagir na mesma atividade. Mais informações referente a Lei de Cotas: https://lumiy.wordpress.com/estudos/lei-de-cotas/ 

“Conhecendo a diversidade dos alunos e da comunidade, a diversidade dos profissionais e dos recursos políticos e pedagógicos, pode-se organizar processos de aprendizagem e de avaliação em que a singularidade de cada um se constitua em benefício em vantagem e não em problema em objeto de exclusão, nem um obstáculo  para educação de qualidade.” (ROSS, Paulo R.”Educando para autonomia e cidadania”, 2009)

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