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CIF Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde

        A Organização Mundial de Saúde (OMS ) classifica os estados de saúde principalmente no CID 10 (Classificação Internacional de Doenças – Décima Revisão), aplicado no laudo médico, e no CIF (Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde). Considera-se o CID e o CIF são classificações complementares para compor uma estrutura de informações mais aprofundadas do paciente/aluno/trabalhador. Neste aspecto, este post apresenta a definição e aplicação do CIF que retirei de OMS e Direcção-Geral da Saúde (2003) “Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde: Classificação Detalhada com definições – Todas as categorias com as suas definições, inclusões e exclusões”.  Também acrescento uma notação da Claudia Werneck (2002) do “Manual da Mídia Legal”, que posiciona a importância do contexto em relação a qualidade de vida e  pessoa com deficiência (PcD). 
       De certa forma,  a CIF é uma classificação que pode auxiliar como ferramenta de pesquisa para quantificar as interações gerais do paciente, ou, que seja  usuário/cliente/aluno, revelando a situação mais próxima para investigar e compreender a sua limitação, capacidade e habilidade, além do laudo médico apresentando a classificação de CID10, assim, dentro da perspectativa de atender as necessidades especiais, torna-se uma base para aprofundar nos “requisitos do usuário” para elaboração do Projeto Conceitual (Okumura, M.L.M, 2012).

A CIF engloba todos os aspectos da saúde humana e alguns componentes relevantes para a saúde relacionados com o bem-estar e descreve-os em termos de domínios de saúde e domínios relacionados com a saúde. Como exemplos de domínios da saúde incluem ver, ouvir, andar, aprender e recordar, enquanto que exemplos de domínios relacionados com a saúde incluem transporte, educação e interações sociais. A classificação é circunscrita ao amplo contexto da saúde e não cobre circunstâncias que não estão relacionadas com a saúde, tais como, as que resultam de factores sócio-econômicos. Por exemplo, algumas pessoas podem ter uma capacidade limitada de executar uma tarefa no ambiente em que vivem, por causa da raça, sexo, religião ou outras características sócio-econômicas, mas essas restrições de participação não estão relacionadas com a saúde no sentido que lhe é atribuído na CIF. Muitas pessoas consideram, erradamente, que a CIF se refere unicamente a pessoas com incapacidades; na verdade, ela aplica-se a todas as pessoas. A saúde e os estados relacionados com a saúde associados a qualquer condição de saúde podem ser descritos através da CIF. Por outras palavras, a CIF tem aplicação universal”.

Na definição da CIF envolvem-se os fatores:
– Funções corporais: funções fisiológicas dos sistemas do corpo, incluindo as funções psicológicas;
– Estruturas corporais:  partes anatômicas do corpo (órgãos, membros e componentes);
– Deficiências: função ou estrutura do corpo com alguma perda, limitação ou anormalidade;
– Atividade: tarefa ou ação executada por um indivíduo, que representa a perspectiva individual da funcionalidade;
– Participação: envolver em uma situação de vida, que representa a perspectiva social da funcionalidade;
– Limitações na atividade: alguma dificuldade apresentada para executar atividades;
– Restrições na participação: dificuldades apresentadas ao experimentar no envolvimento das situações de vida;
– Fatores pessoais: características particulares do indivíduo que não fazem parte do estado de saúde ou condição de saúde e têm forte influência. Por exemplo: gênero, idade, raça, preparo físico, estilo de vida, hábitos, estilo de enfrentamento, origem social, nível de instrução, profissão, padrão geral de comportamento e outras características;
– Fatores ambientais: contexto de transformar o ambiente físico, social e de atitude onde  convive e conduze outras pessoas. Estes são fatores externos ao indivíduo que podem ter alguma influência significativa, seja favorecedor ou não.

Conforme a OMS, “duas pessoas com a mesma doença podem ter níveis diferentes de funcionamento, e duas pessoas com o mesmo nível de funcionamento não têm necessariamente a mesma condição de saúde. Assim, a utilização conjunta aumenta a qualidade dos dados para fins clínicos. A utilização da CIF não deve substituir os procedimentos normais de diagnóstico. Em outros contextos, a CIF pode ser utilizada sozinha”.
 “A CIF é uma classificação da funcionalidade e da incapacidade do homem. Ela agrupa, de maneira sistemática, os domínios da saúde e os domínios relacionados com a saúde. Dentro de cada componente, os domínios são agrupados de acordo com as suas características comuns (tais como, origem, tipo ou semelhança) e ordenados segundo essas características”. 

Aplicação da CIF:
Ferramenta estatística – na colheita e registo de dados (e.g. em estudos da população e inquéritos na população ou em sistemas de informação para a gestão);
Ferramenta na investigação – para medir resultados, a qualidade de vida ou os factores ambientais;
Ferramenta clínica – avaliar necessidades, compatibilizar os tratamentos com as condições específicas, avaliar as aptidões profissionais, a reabilitação e os resultados;
Ferramenta de política social – no planeamento de sistemas de segurança social, de sistemas de compensação e nos projetos e no desenvolvimento de políticas;
Ferramenta pedagógica – na elaboração de programas educacionais, para aumentar a consciencialização e realizar ações sociais.

Em relação à PcD, na anotação de Claudia Werneck (2002) menciona que:
A qualidade de vida das pessoas com deficiência está diretamente ligada à inclusividade dos ambientes familiar, social ou profissional. É com esta visão que está para ser implementada em todo o mundo a CIF. Antes, a situação de uma pessoa em processo de reabilitação era avaliada ou pelo Código Internacional de Doenças (CID), que apontava apenas o lado da doença ou da sequela, ou pela Classificação Internacional de Impedimentos, Deficiências e Incapacidades, da OMS (1980), que não levava em consideração a forma como o indivíduo se relacionava com o ambiente. Surge, com o CIF, uma avaliação inspirada na funcionalidade das pessoas com deficiência que servirá de base para novas políticas públicas. Ao contrário das classificações anteriores, esta foi feita com a participação das próprias pessoas com deficiência e não apenas de profissionais de saúde“.

Reflexões:

Dom da vida: Cada um de nós compõe a sua história, e cada ser em si carrega o dom de ser capaz, e ser feliz (Almir Sater e Renato Teicheira).

Diversidade de dons: “Há diferentes habilidades para realizar o trabalho, mas é o mesmo Deus quem dá a cada um a habilidade para fazê-lo. […] É um só e o mesmo Espírito quem faz tudo isso. Ele dá um dom diferente para cada pessoa, conforme Ele quer”. (1Cor 12.4-11)

Habilidade: A habilidade é de pouca importância, sem a oportunidade. (Napoleão Bonaparte)

Referências:
Claudia Werneck (2002), Manual da Mídia Legal. Disponível em: http://store-escoladegente.locasite.com.br/loja/pdf/mml1.pdf

OKUMURA, M.L.M. (2012). A engenharia simultânea aplicada no desenvolvimento de produtos inclusivos: uma proposta de framework conceitual. Dissertação de mestrado em Engenharia de Produção e Sistemas, professor orientador Osiris Canciglieri Junior, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

OKUMURA, M.L.M.; CANCIGLIERI JUNIOR. (2014). Engenharia Simultânea e Desenvolvimento Integrado de Produto Inclusivo: Processo de Desenvolvimento Integrado de Produtos orientados para Tecnologia Assistiva – proposta de Framework Conceitual. Saarbrücken, (Germany): OmniScriptum GmbH & Co. KG (NEA).

OMS e Direcção-Geral da Saúde (2003), Classificação do CIF. Disponível em: http://arquivo.ese.ips.pt/ese/cursos/edespecial/CIFIS.pdf

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Trabalho de pessoas com deficiência no chão de fábrica é começar, relacionar, interagir, …

Uma das responsabilidades gerenciais de uma fábrica é a gestão de pessoas para trazer vantagens competitivas, principalmente numa empresa com cultura de Sistema Toyota de Produção ou Manufatura Enxuta, onde aponta-se para qualidade do produto, otimização do tempo, redução de custos e outros. Neste horizonte, aparenta-se que somente pessoas de muitas habilidades e capacidades possam pertencer ao quadro de funcionários, porém não é bem assim que funciona a busca da melhor produtividade quando relacionada às pessoas, verificando-se a importância da diversidade num grupo e a necessidade da formação de equipe integrada, pois não se aplicam mais o pensamento linear de produção;  todos são comprometidos desde o início do projeto até o produto chegar na mão do usuário. Com isso, coloco aqui parte de um dos casos reais envolvendo pessoas com deficiência (PcD) no chão de fábrica, onde acompanho há muito tempo e como resultado trouxe melhoramentos na empresa.

 A empresa é uma indústria na área de autopeças e funciona em três turnos. Seus funcionários sempre participam de atividades extras como cursos e palestras para atualização e ampliação de conhecimentos, e com a lei de cotas para pessoas com deficiência foi-se atrás desta questão não só para cumprimento da lei, mas em como colocar PcD no posto de trabalho e principalmente o entrosamento entre os funcionários.

Uma das questões foi: Como preparar o pessoal a receber seus novos colegas, pessoas com necessidades especiais?  A recepção de um novo integrante é importante para o treinamento de sua função, conhecer a política e as dependências da empresa, os colegas de trabalho, etc. Percebeu-se que nesta pergunta o problema não era a recepção e sim a falta de contato, o desconhecimento da capacidade de um indivíduo e mais ainda mostrar que estava lidando com ser humano igual aos outros. Para este caso foi montando uma dinâmica simples de baixo custo para os três turnos. Num lado da sala foi colocada uma caixa com peças de fácil manuseio, encima de um banco, e do outro lado uma caixa fazia. A atividade consistia em transferir as peças de uma caixa para outra em dupla, sendo uma pessoa para acompanhar, ajudar e instruir e a outra de executar a tarefa, onde uma vez com os pés amarrados, depois com os olhos vendados e por último com as mãos amarradas.  Depois trocando de posição. Terminado, reuniu-se todos e foram colocadas as perguntas para reflexão: você continua sendo a mesma pessoa com a mão, pés ou olhos atados? Aprofundando a pergunta, supomos um desastre e suas pernas são amputadas, você continua sendo um ser humano? Com os olhos vendados sentiu confiança no seu instrutor? E como instrutor, percebeu a necessidade da clareza para comunicar? E, assim sucedeu a atividade e colheram-se muitas respostas com sugestão para acessibilidade dentro da empresa. Para a questão de confiabilidade e comunicação no primeiro contato, decidiu-se fazer a PcD antes da contratação, caminhar no meio da fábrica e almoçar no refeitório, isso com o seu acompanhante se estiver junto (normalmente é alguém da família), desta forma pode-se esclarecer vários pontos, inclusive a sua decisão de trabalhar na empresa . Os primeiros dias de uma PcD na empresa foi de muita atenção a ela, que ficou conhecendo até o time de futebol que cada um torcia.

Agora, conto-lhes alguns melhoramentos que ocorreram após a entrada da PcD:  no lay-out da fábrica é interessante as máquinas, ferramentas e todos os objetos estarem dentro dos locais demarcados por questão de segurança e agora os corredores ficaram mais alinhados e totalmente limpos com passagem para uma cadeira de rodas. Há muito tempo via-se a necessidade de melhorar o controle visual das instruções, o kanban, e agora parte do líder do setor para fazer, pois facilita na comunicação entre os integrantes, principalmente para pessoa com surdez.

Quanto a produtividade, não houve quedas e percebeu-se a motivação para melhorar o setor quando envolve-se ajuda ao colega que está ao seu lado, e também um certo crescimento interior. Muitos colaboradores ficaram interessados em aprender libras, conhecer as causas da deficiência e outros assuntos interligados.  

O relacionamento cotidiano com a PcD trouxe entendimentos como respeitar diferenças e para o trabalho em equipe viu-se as regras são as mesmas de cooperativismo, flexibilidade, bom humor, empatia, comprometimento, etc. Com isso, a tal inclusão no chão de fábrica, nada mais é do que ter um bom relacionamento e interagir na mesma atividade. Mais informações referente a Lei de Cotas: https://lumiy.wordpress.com/estudos/lei-de-cotas/ 

“Conhecendo a diversidade dos alunos e da comunidade, a diversidade dos profissionais e dos recursos políticos e pedagógicos, pode-se organizar processos de aprendizagem e de avaliação em que a singularidade de cada um se constitua em benefício em vantagem e não em problema em objeto de exclusão, nem um obstáculo  para educação de qualidade.” (ROSS, Paulo R.”Educando para autonomia e cidadania”, 2009)

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