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Percepção pelo Tato

     Estes últimos meses, estou revisando a literatura na área de ergonomia dos produtos para sustentar o estudo de tecnologias, inclusive a “assistiva” que tem o princípio de dar apoio às pessoas com alguma limitação para executar alguma tarefa. Dentre as leituras, encontrei sobre a percepção humana e a revista RBTV, em especial o artigo acerca de desenho em relêvo para pessoas com deficiência visual (DV) e as barreiras atitudinais, que por sua vez, lembrei do pósfacio do livro de teatro do prof. Jupiassu. Assim, divido com vocês, tópicos que concernem a importância do tato para a pessoa com deficiência visual firmar um conceito, ou formar uma concepção de imagem no seu interior, de forma mais próxima do real. Na sequência explano sobre a barreira atitudinal e percepção humana. Ao final, deixo o trecho do comentário da peça “Coroa de Tebas”, onde uma jovem cega foi integrante na encenação do teatro.
Conquanto, a boa proposta da educação inclusiva, insisto na necessidade de estimular as habilidades táteis desde a infância para crianças com cegueira congênita, ou seja, coloca-se o alerta de quão é importante a pessoa DV congênita começar a explorar os materiais diversificados desde educação infantil (madeira, plástico, metal, tecido, linha, água …). Não basta a educação básica ficar na teoria levando os conceitos somente pelas palavras faladas, ou anotadas em Braille ou por meio digital. É preciso ter práticas de contato físico nos materiais de física, química, matemática …, na natureza, na arte etc, por meio de tato, olfato, paladar, audição …., buscando a multidisciplinaridade que inicie na educação infantil, e estenda até a graduação.
Complemento com o argumento do prof. Francisco Lima faz no seu artigo que “reside no fato de os cegos congênitos totais não estarem acostumados com as convenções da linguagem pictórica, e não porque o sistema háptico seja incapaz de reconhecer desenhos em relevo”. A este fato, ao jovem que teve um aprendizado integrado com contato ao meio ambiente, poderá ter uma compreensão maior do mundo que está a sua volta e também, muitas das barreiras atitudinais estarão eliminadas.

O que são barreiras? No paradigma da inclusão encontram-se barreiras de discriminação, arquitetônicas, atitudinais e outras. Assim, coloco a abordagem da barreira atitudinal, por Francisco Lima, para pessoa com deficiência, onde é definido e distinguido taxonomicamente como:
1. Barreira Atitudinal de Baixa Expectativa: A barreira atitudinal de baixa expectativa é o juízo antecipado e sem fundamento (conhecimento ou experiência) de que a pessoa com deficiência é incapaz de fazer algo, de atingir uma meta etc;
2. Barreira Atitudinal de Inferiorização: A barreira atitudinal de inferiorização é uma atitude constituída por meio da comparação pejorativa que se faz do resultado das ações das pessoas com deficiência em relação a outros indivíduos sem deficiência, sob a justificativa de que o que foi alcançado pelos primeiros é inferior, exclusivamente em razão da deficiência;
3. Barreira Atitudinal de Menos Valia: A barreira atitudinal de menos valia consiste na avaliação depreciativa das potencialidades, ações e produções das pessoas com deficiência. Esta avaliação é incitada pela crença de que a pessoa com deficiência é incapaz ou que o que conseguiu alcançar, o que produziu tem menos valor do que efetivamente lhe é devido.

Quanto a percepção humana, de acordo com Cybis et al.,  é delimitada por um conjunto de estruturas e tratamentos cognitivos pelos quais organizam e dão significado às sensações produzidas por seu órgãos perceptivos a partir dos eventos que lhes estimulam, os quais podem ser classificados em 3 processos distintos:
1. Processos neurofisiológicos ou de detecção: têm por objetivo reagir à existência de um estímulo que gere uma sensação;
2. Processos perceptivos ou de discriminação: visam organizar e classificar as sensações, de forma que só é possível se houver detecção anterior ou exista classificação memorizada;
3. Processos cognitivos ou de interpretação: visam dar significado às informações. Esta função só é possível se existirem conhecimentos e se houver informação sobre as condições de contexto no qual a percepção é realizada.
Portanto, os processos perceptivos se especializam nos diferentes sistemas autônomos que formam a percepção humana, os quais envolvem os sistemas visual e auditivo, incluindo a percepção da fala.

Para reflexão, deixo aqui o trecho do livro do Prof. Jupiassu, referente uma peça de teatro, onde, no final do livro, encontra-se este comentário sobre a atriz cega, integrante da peça de teatro:
“Entre os objetos de cena, havia um arco e flecha (adereço do ator que representava o deus Apolo). Na ocasião da apresentação daquele objetos ao grupo, Joselita nos revelou jamais ter tocado em um arco e flecha, embora já tivesse ouvido falar dele. Sua expressão facial foi de total encantamento ao poder “vê-lo” com as mãos e de, pela primeira vez, tocá-lo, aprendendo como aquele instrumento poderia ser usado para atingir um alvo distante do atirador. […] Embora Joselita demonstrasse ser letrada em Braille, podendo ler e escrever fluentemente – o que sugeria uma competente intervenção pedagógica, ela revelava uma experiência sensorial muito limitada, desconhecendo objetos simples, encontrados no cotidiano.”

Nexte contexto, ao final, eu, Lumiy, deixo um ponto relevante para a Teoria de Conhecimento, cuja essência, verifica-se que a percepção humana é gerada pela experiência que passa por processo cognitivo para captar o conhecimento da experiência, que por sua vez, é complexo para expressar, pois é tácito e físico para o indivíduo, e subjetivo entre as pessoas. Ou seja, a zona proximal (Vigotski ¹) é alcançada diferentemente, conforme o indivíduo, mediação utilizada e o mediador (Okumura, M.L.M.). (Apronfundarei nos próximos posts acerca da Teoria de Conhecimento).

Referência:
JUPIASSU, Ricardo. “Coroa de Tebas”.Campinas, SP: Papirus,  2002.
LIMA, Francisco. “Breve revisão no campo de pesquisa sobre a capacidade de a pessoa com deficiência visual reconhecer desenhos hapticamente”. Revista Brasileira de Tradução Visual, Vol. 6, No 6 (2011). Disponível:http://www.rbtv.associadosdainclusao.com.br/index.php/principal/article/view/82
CYBIS, W.;BETIOL, A.; FAUST, R. “Fundamentos da Psicologia Cognitiva” -apêndice. In: Ergonomia e Usabilidade. SP:Novatec,2007.

(¹) – encontrado o nome do autor, “Выготский“, escrito: “Vygostsky”, “Vigotsky”, “Vygotski ” e ”Vigotski”; padronizado para este texto “Vigotski”, conforme argumento do Prof.Achilles Delari Jr.

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Motricidade e Conduta adaptativa dos objetos: situar, localizar e adquirir

Resumo elaborada pela Profª Drª. Sonia Hoffmann,  do Livro – Palmo a palmo: la motricidad fina y la conducta adaptativa a los objetos en los niños ciegos, escrito por Rosa Lucerga Revuelta.
           O homem pode realizar movimentos com os braços e as mãos em duas esferas:
            – Ao mover seus braços, ele alcança qualquer objeto que esteja dentro do raio de comprimento do seu braço;
            – Ao pegar algo com uma das mãos, ele pode executar com a outra mão uma atividade diferente por meio de preensões e manipulações.
            A mão, para a pessoa cega, assume um papel protagonista em seu desenvolvimento, pois é através da linguagem e da experimentação tátil (especialmente do tato manual) que alguém privado de visão obtém uma grande parte de informações do ambiente.
            O sentido da visão está encarregado, sobretudo nos dois primeiros anos de vida da criança, de integrar e sintetizar os dados e a informação recolhidas por outros canais perceptivos. Por carecer deste sentido, a criança cega poderá ter, de acordo com suas condições particulares, sérios riscos de estacionar ou estagnar em seu desenvolvimento ou, em casos mais graves, entrar em uma psicose irreversível.
            Para a autora do livro, Rosa Revuelta, a criança cega conta com a afetividade e a percepção tátil como dois recursos fundamentais para integrar os dados da sua experiência. O desenvolvimento da sua afetividade é fundamental para garantir o desenvolvimento normal do seu potencial cognitivo e, também, para a constituição de uma personalidade harmônica.
            Por meio dos seus recursos egóicos, o cego adulto dispõe, entre outras coisas, da linguagem, da capacidade de simbolização, do pensamento abstrato e de habilidades motoras. Porém, a criança cega antes de alcançar e poder dispor destes recursos necessita realizar um difícil caminho. É no período sensoriomotor que se torna imprescindível despertar na criança cega o desejo de conhecer e, logo, de tocar. Assim, ao longo de toda a vida, a pessoa cega encontrará na mão um recurso privilegiado de conhecimento, mas no período sensoriomotor a criança cega encontrará nela o instrumento para a compreensão da permanência dos objetos, a aquisição do uso funcional destes objetos, o descobrimento da forma e do calor do rosto materno, a compreensão de conceitos espaciais e a relação entre os objetos, além de integrar seu próprio esquema corporal.
            Nos dois primeiros anos de vida, a autora assinala que a criança passa de uma situação de indiferenciação com os objetos (tomados por ela como um prolongamento do seu corpo) para um reconhecimento e utilização dos mesmos como elementos claramente separados e realmente externos a ela. Neste período, ocorrem o desenvolvimento da preensão, a aquisição das habilidades manipulativas básicas e o conhecimento do uso adaptativo dos objetos, implicando um processo não isolado, mas em íntima interrelação e que somente adquirem sentido quando puderem ser integrados no desenvolvimento global de uma criança.
            A criança cega, privada do privilegiado recurso do canal perceptivo da visão, é obrigada a compreender o mundo externo e a interaturar com ele através de outras formas alternativas. Seu principal aliado, para isto, é o pensamento, o qual, para se tornar formal, precisa que ela viva muitas e variadas experiências.
           Este mundo experiencial é facilitado à criança cega, em grande parte, pela percepção tátil. Pelo tato e pelas mãos, ela compreende que existe algo “aí fora”, que o mundo exterior está povoado por objetos que podem ser tocados, nomeados e manipulados, possuindo forma e uso próprios; que ela pode brincar com eles e que, através das mãos, pode satisfazer muito dos seus desejos.
            Para que o tato e as mãos possam realmente servir de instrumentos de experimentação e conhecimento para a criança cega, duas adaptações importantes são necessárias: – a mão deve converter-se em um órgão primário de percepção, sem perder sua função executora; – a coordenação visomotora é substituída na criança cega pela coordenação bimanual e coordenação ouvido-mão.
            Evolutivamente, conforme a autora, o desenvolvimento da preensão é o primeiro processo que ocorre na criança.
            Fases da preensão em uma criança sem deficiência 1) localização visual; 2) aproximação da mão: varredura com o braço, aproximação parabólica, aproximação direta; 3) preensão propriamente dita: preensão cubito palmar, preensão radial palmar e oposição do polegar.
            Quanto à localização visual do objeto, os pais precisam aproximar os estímulos exteriores ao campo perceptivo tátil e cinestésico da criança cega, despertando nela a disposição para o toque. Há uma intervenção intencional dos adultos para uma movimentação ou sustentação, mesmo passiva, sem que esta seja uma intervenção invasora ou excessiva, pois é fundamental estimular sem saturar, ajudar sem invadir. Para uma criança sem deficiência, esta localização é feita pela cor, movimento e forma dos objetos, independente da proposta ativa do adulto.
            Para a aproximação da mão da criança cega em relação ao objeto, o adulto continua animando-a para o deslocamento ativo de sua mão desde o seu corpo até o local onde se encontra o objeto. Nesta fase, é necessária a noção do objeto permanente e o auxílio da percepção a distância pela utilização do canal auditivo.
            Quanto à preensão propriamente dita, sempre que a criança tenha um interesse no objeto e ele estiver em contato com a mão da criança cega, ela pode normalmente pegá-lo para sustentar ou voltar a soltar. Os três passos (cubitopalmar, radial palmar e oposição do polegar) ocorrem na criança cega de forma paralela como na criança com visão. Sempre que este objeto estiver ao seu alcance e for de seu interesse, ela o poderá pegar adequadamente, porém com uma tendência mais longa de colocá-lo na boca em lugar de usar suas mãos de forma mais funcional.
            A criança cega sustenta os objetos de forma espontânea, mas encontra dificuldade para utilizá-lo de forma criativa. Por isto, necessita, em alguns casos, da ajuda do adulto para descobrir como pode realizar atividades com estes objetos.
            Entre os 18 e 30 meses, surge a sustentação de objetos entre as pontas dos dedos e a pinça, intervindo a maturação visomotora. Assim, torna-se necessário ajudar a criança cega para realizar, inicialmente de modo passivo e depois somente com ordens verbais, a afrouxar a mão e não mais sustentar os objetos em sua palma. Isto é muito importante para conseguir uma boa coordenação bimanual e para a realização de habilidades manipulativas.
            Uma criança com visão utiliza na pinça dois de seus dedos (polegar e indicador), enquanto a criança cega utiliza dois dedos para segurar o objeto e um terceiro dedo para recolher informação sobre a posição do objeto e para direcionar o movimento (timão).
            A busca de objetos pela criança cega está diretamente relacionada à noção de permanência dos objetos, sendo esta uma condição indispensável para o reconhecimento da realidade exterior como algo diferente e separado dela, com existência própria e independente. Antes desta formação, ela não demonstra interesse para encontrá-los ou alcançá-los (menos de 8 meses). A criança cega não dispõe da possibilidade de comprovar visualmente a trajetória que algum objeto possa realizar em seu deslocamento e, assim, precisamos ajudá-la a compreender que existe uma realidade externa que permanece estando ou não presentes em seu campo perceptivo. Porém, isto somente é possível pela experimentação.
            Conseguida esta noção da permanência dos objetos, ela terá de aprender a orientar-se no espaço e usar estratégias para conseguir uma busca mais eficiente. A busca de objetos pela criança cega nos remete ao estudo da sua organização espacial.
            Para a estruturação da COORDENAÇÃO OUVIDO-MÃO da criança cega, é importante o desenvolvimento da sua percepção auditiva. Esta percepção a auxilia no entendimento e compreensão da existência de uma realidade externa separada dela, pois com este canal a criança cega percebe informações a distância. Durante o período sensoriomotor, a audição oferece mais informações sobre o atributo das coisas do que de seus aspetos substanciais. O surgimento desta substancialidade tarda a se realizar para a criança cega, a qual necessita motivação para esta descoberta.
            Passos fundamentais para a aquisição da Coordenação Ouvido-Mão:
            a. não há indícios ativos de conduta de busca ante o som;
            b. extensão da mão atrás de uma pista sonora em continuidade a uma pista tátil;
            c. extensão da mão, seguindo apenas pistas sonoras;
            d. pegar ou tomar um objeto sem a necessidade de pistas sonoras ou táteis, mas apenas respondendo a ordens verbais – o que implica a compreensão da linguagem.
            No que se refere à identificação e exploração de objetos, antes que a criança cega utilize suas mãos para a exploração deles, ocorre um período de recreação e prazer com a colocação destes objetos em sua boca, explorando-os oralmente (entre 14 e 16 meses). Neste período, ela prefere as pessoas porque os objetos são pouco atrativos para ela e, por isto, os utiliza de forma pouco diferenciada. Por volta de um ano, seus objetos de apego lhe são significativos e determinantes, demonstrando uma conduta adaptativa. Ela pode ainda usar os objetos de modo indiferenciado e, se isto se prolongar, surgem condutas estereotipadas, autoestimulatória e sem conteúdo que impedem o conhecimento real dos objetos.
            Nos primeiros meses, ela percebe fundamentalmente as sensações de calor, frio, dor, contato, pressão e sensações cinestésicas e proprioceptivas (formas simples da percepção tátil). Entre 12 e 16 meses, há uma mudança significativa na busca de objetos, pois ela começa a utilizar suas mãos de uma forma muito particular: a exploração cuidadosa dos objetos para sua identificação e dar a eles um uso funcional. É necessário que a criança já saiba levar suas mãos à linha média e tenha uma certa maturidade na coordenação bimanual para a utilização das formas complexas da percepção tátil para o conhecimento do objeto e de sua forma.
            A autora, Rosa Revuelta, apresenta como características da percepção tátil para a exploração e identificação de objetos as seguintes abordagens:
            – a mão em repouso não percebe ou, então, apenas percebe dados isolados como temperaturas, texturas ou arestas. A palpação deve ser ativa e se realizar com ambas as mãos. A mão não dominante sustenta o objeto a explorar e oferece referências fixas; a mão dominante é mais ativa, realizando movimentos mais amplos e oferece a integração dos dados, sintetizando a forma global do objeto.
            – os movimentos palpadores são de dois tipos: os leves (informam os detalhes ou as partes significativas de um objeto) e de movimentos amplos (são globalizantes ou de síntese).
            – os movimentos palpadores ficam em torno do dedo polegar, o qual oferece o ponto de referência para calibrar as dimensões do objeto, posicioná-lo no espaço e representar sua forma entre as dimensões.
            – a identificação de um objeto se faz pelo caráter analítico processual do tato, pois ele nos oferece informações parciais de aspectos da realidade que, posteriormente, devem ser integrados até poder construir uma visão de conjunto. Este processo analítico facilita informações sucessivas de diferentes aspectos e a pessoa vai formulando ou descartando sucessivamente suas hipóteses.
            – na exploração de objetos pequenos, os movimentos são assimétricos e quando a criança cega utiliza ambas as mãos, a mão não dominante se encarrega pela oferta de pontos de referência e a mão dominante executa uma inspeção mais ativa. Quando a exploração é realizada com uma única mão, o polegar assume o papel da mão não dominante e os demais dedos se encarregam da inspeção. – a exploração de objetos grandes se faz através de movimentos mais amplos e simétricos. A criança utiliza o eixo vertical de seu próprio corpo como referência.
            Se observarmos como uma criança cega se relaciona com os objetos, como os toca e o que faz com eles, podemos avaliar aspectos qualitativos de seu desenvolvimento. A forma como ela move suas mãos e a aquisição de habilidades manipulativas básicas informam sobre a aquisição de alguns recursos egóicos, que também resultam imprescindíveis em um bom desenvolvimento, nos dando indícios se a criança está a vontade neste mundo, com vontade de conhecê-lo e interagir com ele.
Características de uma manipulação adequada e útil:
            Na exploração adequada, a criança explora lenta e suavemente os objetos; as mãos estão distendidas, mas conservam o tônus muscular necessário para a sustentação do objeto, podendo o tocar. Estando interessada em conhecer o objeto, a criança cega emprega movimentos variados e pouco uniformes, girando o objeto, acariciando-o, fazendo-o soar. Detém seus dedos, por momentos, em algo que lhe chame a atenção; desloca seus dedos brandamente pelo objeto, imprimindo neles a pressão adequada para o perceber. Os dedos indicador, médio e polegar adquirem progressivamente maior importância: o dedo indicador da mão dominante parece adquirir vida própria e se comporta como investigador. A exploração nas crianças menores é muito incompleta e vai se organizando progressivamente, embora muitas delas sejam resistentes à sistematização.
            Quando algo lhe interessa, a criança cega se demora nesta exploração – isto, nem sempre, é respeitado pelos adultos.
            Características de uma exploração inútil ou vazia: A criança toca os objetos de forma ansiosa, rápida e precipitada, sem sinais de organização. Frequentemente, ocorrem alterações do tônus muscular, podendo não ter força ou, então, sustenta o objeto com rigidez e sem flexibilidade para manipulações.
            Acontecem movimentos estereotipados ou repetitivos quando a exploração não apresenta uma finalidade, podendo a criança demonstrar alterações de personalidade. Os vínculos afetivos e a comunicação com o exterior podem estar afetados com maior ou menor intensidade. Salienta-se que estes movimentos são considerados estereotipados quando não são evolutivos e quando se encontram fora do período de ocorrência.
            A exploração mecânica ou robótica é própria das crianças falsamente adaptadas. Ela aprende as condutas que lhe são ensinadas, mas as realiza sem um desejo próprio porque, provavelmente, estas condutas foram estabelecidas apenas por uma programação.
Causas de uma Exploração Inadequada pela criança cega:
            a. a criança vive uma situação de hipoestimulação (que pode ocorrer por longo tempo)ou não houve uma atenção a este aspecto;
            b. existe algum problema de origem orgânica;
            c. a uma perturbação geral do desenvolvimento, implicando uma alteração da personalidade, tanto dos aspectos cognitivos quanto dos afetivos.
            Relativamente à coordenação bimanual, a principal adaptação que a cegueira exige é a conversão da mão em um órgão primário de percepção, sem que ela perca sua função de execução. A mão é responsável pelo oferecimento de informações necessárias para localizar e explorar devidamente estes objetos.
            A coordenação bimanual é imprescindível para que estas funções (percepção e execução) ocorram de forma harmônica. Uma das dificuldades da criança cega é juntar suas mãos na linha média, a qual é ponto de partida para a coordenação bimanual (até 6 ou 8 meses). Depois do primeiro ano, ela enfrenta tarefas que solicitam maior precisão de execução. O desdobramento funcional de ambas as mãos já é importante para o êxito da execução.
            Com aproximadamente 18 meses, ela deverá poder, por exemplo, sustentar uma caixa com uma das mãos, localizar com esta mesma mão as bordas da caixa e com a outra mão dirigir a tampa para o lugar exato que a primeira mão está indicando. A mão não dominante fixa e guia, enquanto a dominante executa o movimento.
            Após ela definir a sua lateralidade ou dominância, aconselha-se não ficar trocando muitas vezes estes papéis. Aos poucos, esta dominância para a percepção e a execução vai passando para os dedos.
            A criança com coordenação visomotora realiza a pinça com dois dedos, enquanto a criança cega realiza esta pinça com três dedos. A coordenação visomotora é substituída pela coordenação bimanual, implicando habilidades motoras, controle tônico-muscular, independência funcional da mão e do braço, flexibilidade das articulações, independência segmentária e uma boa e relativa organização espacial.
 
(*) Grifo e dividido em tópico por Lumiy

 disponível: http://www.diversidadeemcena.net/

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