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Reflexões de um deficiente visual que enxerga o mundo de dentro para fora

Por Geilson de Sousa Santo  (Copiado e Disponível na Rede Saci)

Muitas pessoas ficam impressionadas quando vem uma pessoa cega fazendo suas atividades normais! Andando, correndo, brincando, dançando, pulando, lavando uma louça, fazendo um café, etc. Ficam se perguntando: Como é que ele consegue fazer isso? Como ele consegue fazer aquilo? Ficam se adimirando, com que fazemos e falamos!

Mais o que eles mais tem curiosidade de saber é o que pensamos, o que sentimos, como percebemos as coisas, enfim, querem saber como é o nosso Mundo. Com certeza, você já deve ter ouvido falar que um cego tem o seu próprio mundo! Eles tem muita vontade de saber como é viver o mundo só escutando e tocando. Com certeza, você já deve ter ouvido isso: “Os cegos vem mais do que nós!”. E com certeza, você deve ter ficado confuso. Ou então: “Eles não podem ver com os olhos mais podem ver com o coração!” Você deve está se perguntando: mas como é isso? Como eles enxergam melhor do que nós se são cegos? Para que você intenda como é isso, vou explicar.

Quando você vê um objeto, você presta atenção no modelo, na cor e no tamanho. Não é? Mais nós, cegos, quando pegamos em um objeto, prestamos atenção no tamanho, o material que ele é feito, qual é sua textura, se áspero, liso, macio, grosso, fino, mole ou duro. E se alguém descrever pra gente a cor do objeto, pronto, a nossa visão daquele objeto já está completa. É assim que vemos.

Isso é muito comum acontecer, quando uma pessoa cega fala pra uma pessoa que enxerga que lhe acha bonita, lá vem a pergunta: Como é que você sabe não está me vendo? Muitas pessoas que enxergam acham que a beleza é vista pelos olhos, o que não é verdade.

Quando você olha pra uma pessoa, e diz que ela é bonita, você está olhando o corpo dela. Se é gordo ou magro, a cor dos cabelos, dos olhos, etc.
Nós cegos vemos as pessoas da seguinte forma:

Ouvindo sua vós, quando ouvimos a voz de alguém, prestamos atenção de onde ela vem, em qual direção, em qual distância, se é alta ou se é baixa, Se é grossa ou se é fina, se a vós de homem ou de mulher, se a qué-la vós é de algum conhecido ou amigo! Prestamos atenção na tonalidade, se a vós é macia, ou uma vós raivosa, triste ou feliz, se é uma voz doce, carinhosa, irritada, cansada ou rouca! Prestamos atenção o jeito que a pessoa está falando! Se é um jeito amigo, ou inimigo. Se é querendo ajudar, ou não. Se está falando com medo ou com segurança. E você que enxerga? Presta atenção nisso? Nós cegos, podemos ver com as mãos, com os ouvidos, com o coração e com a imaginação. Com as mãos, vemos as texturas dos objetos, o material que ele é feito, o tamanho, a temperatura  e o peso. Com os ouvidos, vemos o som que ele tem, se é um som alto ou baixo, grave ou agudo, rápido ou lento. Com a imaginação, imaginamos a cor que ele tem. Com o coração, vemos os sentimentos das pessoas, se são bons ou ruins, se gostam da gente ou se é só falsidade, se são amigas de verdade ou só por interesse em alguma coisa. Prestamos muita atenção nas sensações, a sensação de voar de avião, de um beijo, de um carinho, de se sentir amado, apaixonado, etc.

O objetivo desse texto é pra mostrar para as pessoas que enxergam, a forma que os cegos veem! Por favor, compartilhe esse texto com todos em sua volta e peça que eles façam o mesmo. (texto de Geilson de Sousa Santo)

Disponível: http://saci.org.br/index.php?modulo=akemi¶metro=32189

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Encontro com DV: uma aula de reencontro

Mais um dia feliz com a turminha especial e desta vez com algumas situações quanto a combinar um encontro, e também ao uso de gestos para saudar, pois são formas de comunicação que aprendemos desde criança vendo, observando e ouvindo outras pessoas fazerem, onde as falas e os movimentos são imitados, repetidos e incluindo o sentimento de contato amigável. É bem simples, mas como fazer que as mãos de duas pessoas DV se encontrem para dar o aperto de “como vai”, sem pairar por muito tempo no ar, ou ainda deixar de corresponder um com outro? Então, resolvi postar esta atividade, pois se desenvolveu tão bem, acrescentando curiosidades quanto ao comportamento social tanto para turminha como para todos que participaram. Neste texto, acrescentei um pouco de nossa convivência para demonstrar a importância do relacionamento e diálogo para integrar uma atividade. 

Há mais de 50 dias sem nos ver, primeiro, as férias escolares de inverno e seguidas de recessão devido à gripe H1N1, hoje (21/08/09) reencontrei com os pequenos da escola especial para pessoas com deficiência visual. Fizemos uma atividade diferente, pois estavam conosco dois professores, o Bill da escola e a Jana do IPC, eles são DV totais; e nem sempre temos a oportunidade desta companhia. O tema trabalhado foi “Encontrar e saudar” e com objetivo de abordar em como marcar um encontro entre pessoas com deficiência visual e também quanto aos tipos e formas de cumprimentar. A motivação que levou a este contexto foi a observação de vários desencontros por falta de combinar melhor para um encontro, pois mesmo para as pessoas que enxergam com os olhos, se não for bem definido, poderá levar horas para encontrar, principalmente quando o local marcado é amplo. Dando a continuidade do encontro, completamos com saudações nos aspectos do uso de gestos e significados culturais.

Antes de começarmos a atividade, normalmente conversamos sobre as novidades da semana e desta vez falamos da gripe quanto aos cuidados, da pneumonia, da vacina, das aves, dos suínos, dos cavalos e tudo mais relacionado ao assunto. É interessante o fato das crianças colocarem as dúvidas, ainda que os professores já tenham explanado durante a semana na escola; isso mostra certa preocupação sobre a gripe, onde eles ouviram as informações por vários canais e queriam esclarecimento, como a pergunta sobre a diferença entre medicamento e vacina ou ainda se H1N1 é gripe ou pneumonia? Vejam que são perguntas boas e a faixa de idade deles é entre 11 a 16 anos.

Para a atividade de marcar um encontro, colocamos um caso com todos os problemas possíveis: um encontro com mais de 30 pessoas no rodízio de pizza que fica em Santa Felicidade, lembrando que a estação de ônibus do local é um dos maiores terminais da Capital e a pizzaria fica a três quadras da estação com avenidas de alto tráfego. Perguntamos quando, como, onde, etc. Abrimos um tipo de fórum para cada participante dar uma sugestão para cada questão, era argumentando ou contra argumentado e fechávamos com a melhor opção pelos professores que acrescentavam suas experiências. Como resultado desta atividade, coloco as principais soluções: anotar as informações do encontro para não esquecer e comunicar aos pais, marcar um ponto específico conhecido pela maioria, localizar um funcionário do terminal para conduzir ao local do encontro, reservar as mesas na pizzaria, etc.

Foram apresentados, de acordo com os costumes de vários países, diferentes tipos de gestos para cumprimentar, o uso no esporte, quando e como usamos e a prática de alguns. Para o caso das mãos de duas pessoas DVs encontrarem, a melhor solução foi de informar a ação ou esticar a mão lentamente estalando os dedos e seguindo em direção ao som dos estalos do outro ou um só estala os dedos para que outra pessoa localize a mão. Quanto à expressão no rosto, foi unânime a escolha do sorriso.

Assim foi o dia e até dar o horário prosseguimos com “Imaginação”, uma brincadeira para entender áudio-descrição, e esta brincadeira deixarei para os próximos posts.

Deixo uma observação para acontecer esse tipo de atividade de forma divertida e todos participando, é muito importante já ter as soluções e argumentos, pois as crianças, pelo menos esta turminha, são espertas – só não enxergam com os olhos. É interessante também, preparar esta atividade em várias versões, com perguntas conforme a idade do pessoal que participa. (Lumiy,2009) Mais informações na página de Estudos/AVAS:Postura e Gesticulação.

 

“A maior dependência do mundo externo é vista por uma constante necessidade de reafirmação e da dificuldade do cego em manter sua auto-estima quando não sente resposta afirmativa do ambiente.(…) o desejo de independência leva-os a não pedir ajuda, mas a tentativa de fazer sozinho demanda um tempo muito maior de realização.” (Amiralian,1997)

 

 

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“A condição humana é, em si, uma condição de deficiência. Mas essa condição também carrega em si um poder de superação das limitações. Então a gente tem que confiar nesse potencial humano que todos nós temos…”

Deficiente visual é pioneiro em cargo da magistratura Ricardo Tadeu Marques da Fonseca foi nomeado na última semana pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, para o cargo de desembargador do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 9.ª Região Curitiba-PR  (Redação: Allan Costa Pinto)

Primeiro e até agora único deficiente visual a alcançar um cargo da magistratura, o ex-procurador do Trabalho Ricardo Tadeu Marques da Fonseca abriu as portas de seu gabinete para uma conversa com O Estado. Fonseca, que já teve o sonho de entrar na carreira adiado por uma banca de concurso em São Paulo – a qual justificou que ele não poderia ser juiz por ser cego -, foi nomeado na última semana pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, para o cargo de desembargador do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 9.ª Região. Entre outos assuntos, o desembargador relata suas expectativas em sua nova função. Casado e pai de duas filhas, ele, que teve uma atuação destacada como membro do Ministério Público, também fala sobre como o seu poder de superação e o apoio de familiares e amigos foram fundamentais para sua ascensão profissional.

O Estado – Como o senhor ficou cego?
Ricardo Fonseca – Perdi a visão por causa do agravamento de uma doença originária do nascimento prematuro. Nasci aos seis meses de gestação e aos 23 anos acabei perdendo totalmente a visão por causa de um agravamento chamado retinopatia da prematuridade.

OE – De que forma o fato de ainda jovem ter ficado cego mudou sua vida?
RF – Aprendi que todos nós somos dependentes reciprocamente uns dos outros. Os meus colegas me ajudaram muito na faculdade. A minha mulher, que na época era minha namorada, deu um apoio emocional que foi fundamental, assim como a minha família. Ou seja, eu fui amparado devidamente por um grupo social que ia desde os meus colegas até a minha esposa.

OE – Ter perdido a visão seria mais uma barreira ou um fato motivacional para o sucesso da sua carreira profissional?
RF – As duas coisas. Ao mesmo tempo em que foi um obstáculo, que me assustou, me motivou a lutar. Primeiro, eu passei a levar mais a sério a escola e a vida. Foi tanto um obstáculo quanto uma alavanca.
OE – Qual é sua expectativa para sua nova função?
RF – O direito do trabalho em geral sempre me atraiu muito. Estou muito feliz agora por ser um juiz. Porque eu já fui advogado, já fui do Ministério Público e agora ocupo a magistratura. Então eu já ocupei todas as posições que alguém pode ocupar na Justiça do Trabalho e isso me orgulha muito.

OE – Como o senhor foi recebido pelos seus novos assessores e pelo TRT9?
RF – Eu agradeço ao Tribunal Regional do Trabalho da 9.ª Região, que sempre foi uma corte de vanguarda no Brasil, séria e respeitada pelos seus entendimentos. A indicação pelo tribunal ao presidente Lula muito me honrou. O fato de eu estar aqui hoje é motivo de orgulho e de felicidade.

OE – Atualmente, quais são os assuntos mais comuns que passam pelo seu gabinete? Há algum assunto que mais lhe preocupa?
RF – Eu sou muito novo aqui ainda. Estou chegando agora e não posso dizer quais são as matérias mais incidentes. É a primeira semana de trabalho. Estou tomando pé das coisas administrativamente ainda e não dá para afirmar nada sobre isso.

OE – O senhor publicou recentemente um artigo sobre assédio moral, assunto que há algum tempo não era muito difundido, tanto para trabalhadores como para as empresas. Ainda falta uma orientação para a população sobre o assunto?
RF – Sim, falta. O assédio moral é uma figura que foi discutida nos anos 90 pela primeira vez por uma psicóloga francesa chamada Marie France Hirigoyen, que contextualizou o desvio que é o assédio moral. É claro que o empregador exerce sobre o empregado um poder, legitimamente reconhecido pela lei. Trata-se de um poder diretivo das atividades profissionais desse trabalhador. Mas muitos confundem esse poder diretivo com um poder pessoal e acabam afetando a autoestima, a dignidade e a autoimagem do trabalhador com palavras agressivas, com gestos ofensivos ou com métodos que acabam expondo as pessoas que não têm um desempenho esperado. Isso, desde 1988, passou a ser defendido no Brasil porque o direito se volta à defesa da personalidade, desde então. E a personalidade, a dignidade e a autoconfiança do trabalhador não podem ser abaladas pelo poder diretivo do empregador. Quando esse exercício se desvirtua e agride o trabalhador, isso se caracteriza como assédio moral.

OE – O Poder Judiciário tem se envolvido na resolução dos problemas trabalhistas que dizem respeito a pessoas portadoras de necessidades especiais?
RF – Nós temos no Brasil uma ação afirmativa bastante rigorosa da lei que determina que empresas com mais de cem empregados contratem pessoas com deficiências em percentuais que variam de 2% a 5%, dependendo do número de trabalhadores da empresa. E também a Constituição determina que a administração pública reserve vagas nos concursos públicos para essas pessoas. No entanto, embora essas leis sejam bastante antigas, o Brasil ainda está um pouco longe de atingir todo o público alvo, ou a população com deficiência que seria economicamente ativa. Mesmo assim, houve grandes avanços. Segundo as últimas estatísticas do Ministério do Trabalho, nós já temos 348 mil pessoas com deficiência empregadas na esfera privada. No setor público esse número também vem crescendo progressivamente.

OE – O que ainda precisa ser melhorado nesse sentido?
RF – Eu acho que é uma questão cultural. As pessoas precisam aprender a ver na diversidade humana uma riqueza, não uma falta de força. As pessoas com deficiência têm eficiências que podem ser descobertas, desde que se propicie o método e o instrumento adequados para isso. É uma questão cultural. No Brasil as pessoas com deficiência são isoladas em guetos institucionais e isso precisa ser mudado.

OE – Isso seria uma questão de preconceito?
RF – Não acho que é uma questão de desconhecimento social. É cultural.

OE – Quais as dificuldades que o senhor, como deficiente visual, encontrou durante a sua ascensão profissional?
RF – Todas. Era muito difícil trabalhar em empresas, apesar de o meu currículo ser diferenciado. Era muito comum eu ser convocado pelo currículo e, na hora da entrevista, era barrado pela falta de visão. Isso aconteceu em concursos públicos. Mas, de qualquer forma, eu continuei lutando. Eu sinto que a geração mais nova de pessoas com deficiência visual, hoje, tem muito mais independência do que eu tinha, porque estão mais afeitas a lidar com programas de voz, com os quais eu mesmo ainda não aprendi a lidar. Vou aprender agora, no tribunal.

OE – Como é a sua rotina de trabalho? Como o senhor delibera o trâmite dos processos?
RF – Normalmente os meus assessores leem para mim o que está nos autos e eu decido a partir dessa avaliação oral. Eu vou ter uma pessoa designada exclusivamente para ser o meu leitor. E, paralelamente, eu estou treinando a utilização de programas de sintetização de voz em computadores porque há uma tendência de os processos serem todos digitalizados nos próximos dois ou três anos. Então eu penso que, com um pouco de prática, terei mais autonomia também.

OE – Qual é a mensagem que o senhor deixa para as pessoas que têm a mesma limitação que a sua, ou outras necessidades?
RF – A condição humana é, em si, uma condição de deficiência. Mas essa condição também carrega em si um poder de superação das limitações. Então a gente tem que confiar nesse potencial humano que todos nós temos.

 

Fonte: Redação: Allan Costa Pinto. Disponível: ParanáOnLine. http://www.paranaonline.com.br/editoria/cidades/news/390749/?noticia=DEFICIENTE+VISUAL+E+PIONEIRO+EM+CARGO+DA+MAGISTRATURA
 

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Novas amizades, novos aprendizados

Esta estorinha escrita pelos professores Sonia e Eduardo (2007) comenta sobre pessoa com deficiência visual de modo fácil entendimento, abordando o cotidiano e principalmente a mobilidade.

Carla aguarda para a travessia da rua. O trânsito está intenso e ela ouve apenas pessoas indo e vindo, apressadas. Decide, então, solicitar auxílio ao ouvir passos mais lentos se aproximando, os quais considerou serem de mulher porque soavam como de sapatos de saltos altos.
“Mas, em caso de dúvida, mantenha uma fala neutra”, lembrou-se ela de um dos sábios conselhos de Rosália, sua professora de Orientação e Mobilidade.
– Por favor, pode me auxiliar na travessia desta rua?
– É claro, respondeu uma jovem, enquanto pegava na mão de Carla. Só vamos esperar a sinaleira abrir para nós.
– Obrigada, mas para me sentir mais segura é possível eu pegar no seu braço?
E assim falando, Carla já estava realizando a manobra de pegar suavemente o punho da jovem com a mão que segurava a bengala – e que agora estava apenas com ela presa pela alça em seu próprio punho, enquanto sua outra mão realizava a pega no braço da jovem, na altura do cotovelo.
“Santa Rosália, que sempre insistia: coloca a alça da bengala no punho quando for atravessar a rua, menina; assim não há perigo dela cair no meio da travessia”, lembrou-se novamente ela de um dos conselhos da professora.
As duas jovens atravessaram a larga avenida e, somente na calçada do outro lado, Carla soltou o braço da sua colaboradora e agradeceu.
– Daqui em diante, sabe ir sozinha?
Carla deu um breve sorrisinho para si mesma, pois aquela pergunta ouvia tantas vezes quantas solicitasse um auxílio necessário.
– Sim, obrigada. Daqui em diante, sei o caminho até o shopping.
– Ah, eu também vou até lá fazer umas comprinhas. Podemos ir juntas!
– Legal, vou gostar de uma companhia! Posso, então, pegar no seu braço novamente?
– Tudo bem, mas você me orienta se eu estiver fazendo alguma coisa errada… Sabe como é… eu não sei muito bem estas coisas de ajudar uma pessoa… pessoa.. bem, alguém que não enxerga.
E lá se foram as duas para o shopping.
– Como é o seu nome?
– Carla, e o seu?
– Mônica. Eu tenho 16 anos, e você?
– Ah, eu tenho um ano a menos. Tenho 15 anos.
– E não tem medo de sair assim pela rua sozinha, só com estabengalinha… Como é que eu chamo? Digo bengala mesmo?
– Sim, o nome correto é bengala. Com ela, me sinto independente e mais segura. Fiz um curso pra usá-la. Ele se chama curso de Orientação e Mobilidade, também conhecido como OM.
– Tipo uma autoescola para dirigir uma bengala? – brincou Mônica.
– Mais ou menos assim, mas não levo multas e nem pontos na carteira, respondeu Carla, sorridente.
– Nem a co-piloto, disse Mônica, rindo.
– Ei, Carla, logo ali adiante já começam os degraus da entrada do shopping. O que eu faço?
– Hummm, acho que seria uma boa ideia a gente subir, não é?
– Bem-humoradinha, hein, Carlinha!? Gosto de pessoas assim! Eu tinha uma outra imagem das pessoas cegas.
– Que imagem?
– Ah, eu pensava que toda pessoa cega fosse meio triste, de mal com a vida, pelo fato de não enxergar… Sabe, uma vez fui ajudar um rapaz cego, que além de estar com uma aparência tristonha, ainda recusou minha ajuda com um jeito bem grosseiro.
– Mas, Mônica, a gente não pode generalizar. As pessoas cegas são diferentes entre si, assim como as pessoas que enxergam, que são surdas, que usam cadeiras de rodas. Cada um tem a sua personalidade, o seu jeito de ser. De repente, naquele dia, aquele rapaz estava de mal com a vida por algum outro motivo e não porque ele é cego. Às vezes as pessoas confundem e acham que a cegueira é o único motivo pra nós ficarmos tristes, preocupados ou zangados.
– Não tinha pensado desse ponto de vista… tem razão. Como eu sou burrinha, hein!
– Não, não diga isto. Você apenas, como muita gente, ainda não recebeu informações adequadas sobre como se relacionar com as pessoas com deficiência.
– Bom, vamos subir?
– Vamos, sim, respondeu Carla.
– Um, dois, três, quatro…
– O que está fazendo, Mônica?
– Contando os degraus, Carla, pra você ficar sabendo quantos têm. Só faltam mais 4.
– Ora, não é preciso isso. O movimento do seu corpo já me informa quando termina a subida da escada, assim como também me informa quando termina a descida e tantas outras coisas que acontecem pelo caminho. Viu, chegamos ao final e nem foi preciso me dizer que a escada havia acabado, seu movimento foi mais rápido do que a palavra!
– Puxa, quanta coisa estou aprendendo… E a gente nem para pra pensar como existem outras maneiras de conseguir fazer as coisas. As pessoas que enxergam acabam dando muita importância pra visão e se esquecem de que os outros sentidos também são importantes. E agora, em que loja você vai?
– Vou na Reflexus, no segundo andar.
– Ah, aquela loja de roupas femininas?
– Sim, na semana passada deixei uma saia aqui pra fazer a barra e hoje vim buscar. Vou aproveitar e comprar uma blusinha que vi da outra vez.
– Você viu?… Como assim?… Como é que escolhe a roupa, a cor, o modelo?…
– Calma, uma pergunta por vez! Escuta, aqui já está a escada rolante.
– Sim, estamos bem em frente à escada-rolante. Como você adivinhou?.. . E como posso te auxiliar neste tipo de escada?…
– Eu não adivinhei, ouvi o barulho característico que ela faz; e basta Colocar minha mão no corrimão que o resto eu mesma faço.
– Tá certo, entendi.
Em frente à loja, as duas jovens se despedem.
– Gostei muito de você, Carlinha! Vamos continuar esta conversa em outro dia?
– Vamos, sim! E como pode ser isto, Mônica?
– Bem, meu MSN é… Ah, desculpe, estou tão acostumada com essas coisas de internet que nem lembrei que…
– Ah, não tem problema, Eu também adoro um computador! Quer anotar o meu MSN?
– O quê? Cegos também usam computador?
– Esta e todas as outras perguntas sobre as pessoas cegas lhe responderei pelo MSN, ou você prefere receber pelo Skype, ou por e-mail? indagou Carla, muito sorridente.
– Seremos boas amigas pelo jeito, Carlinha!!!

 

Texto de Sonia B. Hoffmann e Eduardo Paes
Rio de Janeiro, janeiro de 2007

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Vidente ou invisual, a imagem é constituída conforme informações adquiridasMa362

BL  completou 9 anos e está na 3ª série do ensino fundamental. No texto da foto, ele usou a reglete dele e com habilidade e rapidez, descreveu o avião. Depois, ele veio ler o texto com as suas mãos. Encontramos alguns erros, mas, o contexto estava ótimo. Tudo dentro da normalidade, conforme a idade e um ótimo cognitivo.  BL tem deficiência visual, cegueira desde bebê, e descreveu o avião como o vê na sua percepção, conforme a recepção da informação que constituiu a imagem;  e afirmo que a  descrição do avião, se não fosse pelo uso do Braille, não desconfiariamos que foi elaborado por um invisual. BL nunca esteve em contato com avião, contudo descreveu o seu interior e o exterior, como voa e aterriza e inclusive a função da caixa preta. Um dos sonhos de BL é viajar num avião.

Como ler e escrever no Sistema Braille

“Quando abrimos nossos olhos todas as manhãs, damos de cara com um mundo que passamos a vida aprendendo a ver. O mundo não nos é dado: construímos nosso mundo através da experiência, classificação,  memória e reconhecimento incessantes” (Sacks,1995) .

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Através de uma trilha: o envolvimento, a compreensão, a interação – então é inclusão!

A princípio pensei em transcrever esta experiência somente como pesquisa, pois se encaixa num estudo de caso abordando a inclusão e a visão através de outros sentidos, porém surgiram tantos elementos variáveis envolvendo as diversidades e ainda as emoções, que resolvi expor parte do acontecimento, externalizando um dia perfeito na escola de educação especial para alunos com deficiência visual (DV).  Trilha1A idéia de construir a trilha dos sentidos foi do nosso amigo Ranulfo (cego), colaborador da Sanepar (*). Inicialmente o objetivo da trilha foi expor o caminho da água e o meio ambiente de forma diferente para os funcionários no museu da Sanepar. A trilha é bem simplícia para o olhar, estruturada com muitos significados e antes de entrar nela, a pessoa é vendada para assistir, ou melhor para sentir, acompanhada por uma pessoa que explica o roteiro. A trilha foi tão bem elaborada que foi inevitável o convite para expor na escola. O Ranulfo e a sua equipe aceitaram de prontidão, seria para eles a primeira experiência com público diferente e entenderam a importância de levar as informações para as crianças, pois envolve além do caminho da água, a preservação da natureza, o desperdício da água e outros importantes fatores do meio ambiente para conscientização aos nossos futuros adultos. Acredito que não existam profissionais mais entendidos sobre a distribuição da água que os próprios funcionários da Sanepar. Todos os alunos e professores entraram na trilha e ficaram encantados em sentir e de aprender. O segredo da trilha estava mesmo no Ranulfo, mais do que o conhecimento profissional, a forma de ele conduzir e transmitir a informação transformava numa aventura espetacular e isso também se tornou em aprendizado aos professores. Ranulfo conduzindo a MônicaDurante o evento fiz entrevistas com todos e qual foi a minha surpresa quando vi o Guilherme emocionado após acompanhar uma das alunas na trilha – ele dizia que foi somente para ajudar a montar a trilha; a Ana, a bióloga, tinha outro compromisso e ameaçava em ir embora, mas ao ver o próximo aluno na fila de espera, largava tudo para entrar junto na trilha. Enfim, no começo havia certo receio para entrar em contato com DVs, mas percebendo que eram crianças iguais aos outros, estavam todos empenhados para atendê-los. Ao terminar, fiquei conversando com o pessoal da Sanepar sobre DVs  e via-se um ar cansado e satisfação interior estampado no semblante de cada um. Ficamos combinados em fazer uma trilha maior para atender público além da escola, isso quando começar a primavera, o clima é mais quentinho e não judiaria das crianças para mexer na água, diz Ranulfo.     

 ** Obrigada Ranulfo, Ana, Guilherme, Jefferson e a Sanepar.

   (*) Sanepar é empresa pública responsável pela distribuição de água e saneamento no Paraná.

  “A aprendizagem, enquanto construção do conhecimento, pressupõe entendê-la tanto como produto, quanto como processo. Assim, não importa apenas a quantidade de conteúdo, mas a capacidade de pensar, interagir, aquilo que é capaz de fazer, interpretar, compreender. A qualidade do conhecimento liga-se à possibilidade de continuar aprendendo. Assim, quando o aluno aprende, não se deve levar em conta apenas o conteúdo do conhecimento, mas também como se organiza e atua para aprender.” (ROSS, Paulo R.”Conhecimento e Aprendizado Cooperativo na Inclusão”,2004).

 “Não há um aprendizado para a pessoa normal, outro para a pessoa com alguma deficiência: o aprendizado em cada caso, se dá pela superação das dificuldades ou obstáculos. O aprendizado, em cada caso, pressupõe a aquisição de ferramentas da cultura, que nos possibilitem transpor ou contornar uma dificuldade ou obstáculo. O aprendizado não é diferente para um ou outro caso. Em qualquer situação, as ferramentas da cultura têm de ser oferecidas, de modo que possam ser assimiladas pelos alunos, nas suas peculiaridades. Não se pode simplificar o ensino, deixando de oferecer a riqueza cultural que nos possibilita resolver os problemas. A superação das dificuldades se faz com instrumentos da cultura, que podem compensar os efeitos da deficiência. A deficiência sempre vai produzir a compensação, mas a compensação pode estar direcionada, por um lado, à superação da deficiência ou, por outro, à valorização da deficiência, na medida em que se quer garantir o ganho secundário que a própria deficiência proporciona.” (PENA,Gil.”Inclusão para a autonomia”,2009).

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