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Posts Tagged ‘inclusão digital’

Pessoas com deficiência visual: o usuário de celular e computador
Havia preparado durante a semana a aula de hoje (16/10/09) que seria referente a amizade e comportamento. Eu disse, “seria”, pois desde ontem recebi mensagens no celular, nos e-mails e no msn dos meus pequenos alunos que queriam uma atividade de raciocínio,  em outras palavras é brincar. Esses alunos são crianças que freqüentam a escola de apoio para pessoas com deficiência visual (DV) e também usuários potenciais de tecnologias, pois têm habilidades e agilidades para usar o celular e o microcomputador.
Com isso, neste texto explanarei algumas tecnologias relacionadas ao celular e microcomputador presentes no cotidiano dos DVs e uma das atividades realizada na aula com o tema “Ensinar o computador”, acerca de lógica e pensamento seqüencial.
Mary Radabaugh no “Study on the Financing of Assistive Technology Devices of Services for Individuals with Disabilities”(1993), menciona que a tecnologia facilita para as pessoas sem deficiência e torna possíveis para as pessoas com deficiência. A tecnologia possibilitou à PcD a realizar muitas tarefas e uma das áreas que proporcionou benefícios aos DVs foi a área de informação e comunicação (TIC). Antigamente, uns 20 anos atrás, os estudantes com DV usava-se fitas cassetes para gravar a aula ou alguém lia a apostila, além do uso do Braille para anotações. Atualmente, continua o uso do Braille e os recursos do microcomputador, scanner, celular, etc.
Para o uso do microcomputador existem softwares (programas) de ampliação de caracteres e alteração de cores  para pessoas com baixa visão e leitores de tela para as pessoas com DV total. Os programas leitores são NVDA, JAWS, VIRTUAL VISIO, ORCA, etc. Existem ainda, programa interativo com o usuário, no caso o DosVox desenvolvido pela Intervox (UFRJ) e programas para ebooks como Mecdaisy, Lida (FDN), Adobe Digital e outros. Normalmente encontro usuário de leitor de tela com o monitor desligado, usando o fone de ouvido e com a voz do leitor configurada na velocidade máxima. Este recurso favorece certa autonomia aos DVs no uso do microcomputador possibilitando editar e ler textos, enviar e receber e-mails, ler notícias, conversar no MSN, Messenger, Skype. Os leitores não lêem as imagens como foto,  desenhos e gráficos; e dependendo da tabela fica confusa a interpretação. Nem todos os sites da internet oferecem acessibilidade na navegação, contudo percebe-se certas mudanças para atender esse público especial.
Quanto ao celular, conforme os recursos do aparelho, memórias disponíveis e financeiros, pode-se instalar programas de falas, ampliação da imagem da tela, GPS, comunicação (Skype), leitor de tela, etc. Os serviços da operadora também são bem utilizados como de ver as horas e outros.
Tanto no micro ou no celular podem-se configurar a “fala” para que informe a tecla digitada, soletrar a palavra, ler pontuação, regular o volume, a velocidade e o tom da voz e mudar o autor da voz.
Por isso, a inclusão digital permitiu às pessoas com DV a estudar, trabalhar,… e principalmente estendeu o relacionamento entre as pessoas. No tocante, o usuário de micro consegue comunicar-se de diversas localidades num ambiente sem diferenças entre as pessoas. Para isso, existem várias instituições oferecendo cursos de informática para DVs  e em muitos casos são professores com DV que ministram a aula.  
As crianças, os meus pequenos, muitas vezes são eles que fazem as anotações no meu celular porque  segundo eles, demoro demais para adicionar contato novo.
Falando da turminha, uma das atividades da aula foi sobre pensamento seqüencial – lógica, com o tema “Ensinar o Computador”, um exercício para ordenar o pensamento relembrando os detalhes do dia a dia e como deve instruir uma informação. A princípio contei como o computador funciona e a importância do programador de se preocupar com o usuário. A atividade foi de um aluno ser o computador, o outro era o usuário do computador que perguntava e  executava a tarefa ou em chegar a algum lugar e os outros eram os consultores que  acompanhavam a execução e ao ocorrer erro de sequência pedia para o computador corrigir o seu programa. Fizemos várias tarefas como escovar os dentes, pegar um copo com água e chegar ao destino solicitado. No começo da atividade foi divertido, pois se esqueceram de abrir a tampa da pasta e o usuário passou o tubo da pasta fechado na escova,  enviaram o usuário em direção a porta fechada ou colocaram água no copo virado. Ao final, ficaram bons e a consultoria estava exigente e detalhista. A última sequência foi de traçarmos o trajeto para a lanchonete do shopping sem deslocarmos da sala, e nesta eu fiquei conhecendo os obstáculos do caminho como degraus e buracos que nunca havia reparado.(LUMIY,2009)

 ”… é justamente a Acessibilidade o eixo fundamental da equidade de direitos. Enquanto não tivermos contemplada a Acessibilidade, em todos os níveis, estaremos discriminando cidadãos que tem alguma diferença física ou sensorial. Uma sociedade justa se constrói com a igualdade, a liberdade, a justiça, a cidadania e as coisas básicas: moradia, alimentação, educação, saúde… E os desiguais devem ser tratados como desiguais, na justa medida dessa desigualdade.” (Marcio Aguiar, Conselheiro Titular da Conade – Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas Portadoras de Deficiência).

“Com certeza, de todos os sentidos com que somos aquinhoados ao nascer talvez o mais importante seja a visão, que nos permite aquilatar as benesses que nos cercam no mundo, a beleza da natureza que nos acolhe,  e distinguir os
rostos queridos de mãe, de pai, que nos enchem de afeto.   Todavia, o número de pessoas que ou por problemas congênitos, por doenças adquiridas ou por acidentes e desastres,  se vêem privadas de enxergar o mundo que as cerca é muito grande.   Felizmente, também, a tecnologia moderna tem progredido e equipado instrumentos importantes como computadores para enriquecer a vida de tantos irmãos privados da visão, lamentavelmente.” (Maria Amelia Vampré Xavier – Rede de Informações Área Deficiências Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo, Fenapaes, Brasília -Diretoria para Assuntos Internacionais),Rebrates, SP, Carpe Diem, SP, Sorri Brasil, SP, Inclusion InterAmericana e Inclusion International).

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Um objetivo, novas habilidades, novas conquistas.

Uma linda história, contada por Fernando José (Portugal), repassada pela professora Marta na lista do Fórum Inclusão e não poderia deixar de postar aqui. É uma conquista que se passa de forma tão natural; e, esse é o ponto de saber conduzir de forma simples, apresentando as possibilidades para adquirir novas habilidades sem desviar/mudar do objetivo.

 ”(…)  uma história que nos anima a continuar na luta, a despeito de tantas dificuldades.” (GIL,M.A.,Comentário e repasse da história na lista do fórum inclusão,2009)

 “Olá! Chegou também a minha vez de ser jornalista e contar uma história de que tomei conhecimento. A coisa começou assim. Estando uma manhã na Escola, recebi um telefonema de um senhor que me pedia uma entrevista. Motivo? O seu filho cegara repentinamente, fruto de uma  indisposição súbita que lhe provocou uma queda. A coisa dera-se em maio.  Depois de curar as outras lesões sofridas no rosto, segundo me informava, estava na hora de tomar as medidas certas. Acordámos o dia da entrevista. Ficou combinada para casa do jovem. Falámos e  decidimos tomar medidas. Soubemos que estudava no 12º Ano. Frequentava um curso na Área da Economia. O problema era como prosseguir os estudos. Como eu ia armado de umas ferramentas para estas situações, o trabalho começou logo. O computador lá de casa deu em falar! – Pasme-se! Por outro lado, marcou-se uma segunda reunião, agora a realizar na Escola, com o objectivo de se prosseguir com os estudos sem perda de ano, pois já bastara não ter podido realizar os exames nacionais no que agora findava. Foram decididas rapidamente medidas com o fim de preparar o próximo ano lectivo. Começaria a aprender Braille numa instituição ao lado da Escola. A Informática receberia um reforço enorme, utilizando-se um leitor de ecrã. Com autorização das autoridades responsáveis, criou-se uma turma com o seu nome, porque a Escola, que é de referência para a deficiência visual, não tinha a Área de Economia. O objectivo de tudo isto seria que a vida escolar do aluno não viesse a sofrer mais sobressaltos e ele passasse gradualmente para a vida de estudante cego, já que abandonara a vida de normovisual tão fatal e repentinamente. O programa foi elaborado, a Escola, o Ministério, a Família e a instituição que fica logo ali ao lado articularam, complementaram, flexibilizaram objectivos, medidas, actividades e resultados; e o ano foi fluindo, foi fluindo com muita vontade, muito trabalho e muita responsabilidade por parte de todos. Houve Braille, houve mobilidade, houve informática… e houve conversa, leitura e discussão; os motes eram os livros, a música, a Filosofia, a política… E de repente já era Junho deste ano! E de repente já havia exames para realizar! E de repente estava tudo preparado, tudo preparado para serem realizados todos os exames necessários para o acesso ao Ensino Superior… Os resultados ainda não saíram… Até por faltar ainda o exame de matemática, que acontecerá na terça-feira próxima. E todos sabemos que haverá um grande sucesso para ser festejado! É um sucesso que será de todos, mas que será sobretudo dele, que soube com  inteligência aproveitar o que a vida, afinal, lhe queria dar! Perdoa, amigo, por ter contado a tua história sem te pedir autorização. É que, para ta pedir, falta-me a coragem. E falta-me porque sou incapaz de avaliar o que tu sofreste, porque eu fui sempre cego e não sei o que é tornar-se assim de repente, eu que fui assim sempre. Vou enviar esta mensagem para o teu endereço no campo dos endereços ocultos. Perdoa se te faço sofrer, mas o teu sucesso, porque ele é sobretudo teu, meu amigo, deve ser contado e cantado, mas com outras palavras que não as minhas (sim com as palavras que vais usar no exame de matemática com que fecharás o ano lectivo); e deve sê-lo em face de tanta pouca vergonha, de tanta hipocrisia, de tanta desinformação a que assistimos. Hoje, quando qualquer berro, qualquer bebedeira, qualquer passo que um deficiente dá pode cair num jornal, numa televisão ou numa rádio, tu foste capaz de realizar algo de extrema dificuldade e sem ruído, com dignidade e sem humilhação. Mas exemplos como o teu não caem nos jornais, nem nas rádios, nem nas televisões,porque são de tal modo grandes que nunca seriam compreendidos por uma sociedade baseada na caridade disfarçada, no aproveitamento que humilha, no dar voz que amesquinha… Continua assim silencioso e desculpa o barulho que possa fazer esta minha mensagem na calma que te desejo enquanto te preparas para o teu último exame do Ensino secundário. Um abraço de quem admira o teu exemplo de coragem e nunca esquecerá a tua história de vida, que, se fosse o espelho de muitos deficientes, as nossas lutas de hoje já estariam há muito tempo vencidas! Fernando Jorge.”

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Novas amizades, novos aprendizados

Esta estorinha escrita pelos professores Sonia e Eduardo (2007) comenta sobre pessoa com deficiência visual de modo fácil entendimento, abordando o cotidiano e principalmente a mobilidade.

Carla aguarda para a travessia da rua. O trânsito está intenso e ela ouve apenas pessoas indo e vindo, apressadas. Decide, então, solicitar auxílio ao ouvir passos mais lentos se aproximando, os quais considerou serem de mulher porque soavam como de sapatos de saltos altos.
“Mas, em caso de dúvida, mantenha uma fala neutra”, lembrou-se ela de um dos sábios conselhos de Rosália, sua professora de Orientação e Mobilidade.
– Por favor, pode me auxiliar na travessia desta rua?
– É claro, respondeu uma jovem, enquanto pegava na mão de Carla. Só vamos esperar a sinaleira abrir para nós.
– Obrigada, mas para me sentir mais segura é possível eu pegar no seu braço?
E assim falando, Carla já estava realizando a manobra de pegar suavemente o punho da jovem com a mão que segurava a bengala – e que agora estava apenas com ela presa pela alça em seu próprio punho, enquanto sua outra mão realizava a pega no braço da jovem, na altura do cotovelo.
“Santa Rosália, que sempre insistia: coloca a alça da bengala no punho quando for atravessar a rua, menina; assim não há perigo dela cair no meio da travessia”, lembrou-se novamente ela de um dos conselhos da professora.
As duas jovens atravessaram a larga avenida e, somente na calçada do outro lado, Carla soltou o braço da sua colaboradora e agradeceu.
– Daqui em diante, sabe ir sozinha?
Carla deu um breve sorrisinho para si mesma, pois aquela pergunta ouvia tantas vezes quantas solicitasse um auxílio necessário.
– Sim, obrigada. Daqui em diante, sei o caminho até o shopping.
– Ah, eu também vou até lá fazer umas comprinhas. Podemos ir juntas!
– Legal, vou gostar de uma companhia! Posso, então, pegar no seu braço novamente?
– Tudo bem, mas você me orienta se eu estiver fazendo alguma coisa errada… Sabe como é… eu não sei muito bem estas coisas de ajudar uma pessoa… pessoa.. bem, alguém que não enxerga.
E lá se foram as duas para o shopping.
– Como é o seu nome?
– Carla, e o seu?
– Mônica. Eu tenho 16 anos, e você?
– Ah, eu tenho um ano a menos. Tenho 15 anos.
– E não tem medo de sair assim pela rua sozinha, só com estabengalinha… Como é que eu chamo? Digo bengala mesmo?
– Sim, o nome correto é bengala. Com ela, me sinto independente e mais segura. Fiz um curso pra usá-la. Ele se chama curso de Orientação e Mobilidade, também conhecido como OM.
– Tipo uma autoescola para dirigir uma bengala? – brincou Mônica.
– Mais ou menos assim, mas não levo multas e nem pontos na carteira, respondeu Carla, sorridente.
– Nem a co-piloto, disse Mônica, rindo.
– Ei, Carla, logo ali adiante já começam os degraus da entrada do shopping. O que eu faço?
– Hummm, acho que seria uma boa ideia a gente subir, não é?
– Bem-humoradinha, hein, Carlinha!? Gosto de pessoas assim! Eu tinha uma outra imagem das pessoas cegas.
– Que imagem?
– Ah, eu pensava que toda pessoa cega fosse meio triste, de mal com a vida, pelo fato de não enxergar… Sabe, uma vez fui ajudar um rapaz cego, que além de estar com uma aparência tristonha, ainda recusou minha ajuda com um jeito bem grosseiro.
– Mas, Mônica, a gente não pode generalizar. As pessoas cegas são diferentes entre si, assim como as pessoas que enxergam, que são surdas, que usam cadeiras de rodas. Cada um tem a sua personalidade, o seu jeito de ser. De repente, naquele dia, aquele rapaz estava de mal com a vida por algum outro motivo e não porque ele é cego. Às vezes as pessoas confundem e acham que a cegueira é o único motivo pra nós ficarmos tristes, preocupados ou zangados.
– Não tinha pensado desse ponto de vista… tem razão. Como eu sou burrinha, hein!
– Não, não diga isto. Você apenas, como muita gente, ainda não recebeu informações adequadas sobre como se relacionar com as pessoas com deficiência.
– Bom, vamos subir?
– Vamos, sim, respondeu Carla.
– Um, dois, três, quatro…
– O que está fazendo, Mônica?
– Contando os degraus, Carla, pra você ficar sabendo quantos têm. Só faltam mais 4.
– Ora, não é preciso isso. O movimento do seu corpo já me informa quando termina a subida da escada, assim como também me informa quando termina a descida e tantas outras coisas que acontecem pelo caminho. Viu, chegamos ao final e nem foi preciso me dizer que a escada havia acabado, seu movimento foi mais rápido do que a palavra!
– Puxa, quanta coisa estou aprendendo… E a gente nem para pra pensar como existem outras maneiras de conseguir fazer as coisas. As pessoas que enxergam acabam dando muita importância pra visão e se esquecem de que os outros sentidos também são importantes. E agora, em que loja você vai?
– Vou na Reflexus, no segundo andar.
– Ah, aquela loja de roupas femininas?
– Sim, na semana passada deixei uma saia aqui pra fazer a barra e hoje vim buscar. Vou aproveitar e comprar uma blusinha que vi da outra vez.
– Você viu?… Como assim?… Como é que escolhe a roupa, a cor, o modelo?…
– Calma, uma pergunta por vez! Escuta, aqui já está a escada rolante.
– Sim, estamos bem em frente à escada-rolante. Como você adivinhou?.. . E como posso te auxiliar neste tipo de escada?…
– Eu não adivinhei, ouvi o barulho característico que ela faz; e basta Colocar minha mão no corrimão que o resto eu mesma faço.
– Tá certo, entendi.
Em frente à loja, as duas jovens se despedem.
– Gostei muito de você, Carlinha! Vamos continuar esta conversa em outro dia?
– Vamos, sim! E como pode ser isto, Mônica?
– Bem, meu MSN é… Ah, desculpe, estou tão acostumada com essas coisas de internet que nem lembrei que…
– Ah, não tem problema, Eu também adoro um computador! Quer anotar o meu MSN?
– O quê? Cegos também usam computador?
– Esta e todas as outras perguntas sobre as pessoas cegas lhe responderei pelo MSN, ou você prefere receber pelo Skype, ou por e-mail? indagou Carla, muito sorridente.
– Seremos boas amigas pelo jeito, Carlinha!!!

 

Texto de Sonia B. Hoffmann e Eduardo Paes
Rio de Janeiro, janeiro de 2007

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